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09h10 – 05/07
Coluna do Tamer
PARIS – Enquanto o Brasil olha assustado para a Argentina, o mundo volta-se preocupado para os Estados Unidos, ou melhor, para o consumidor americano, desde o que toma Coca-Cola e come hambúrguer recheado de colesterol, até o que compra um apartamento porque os juros estão baixos e vão cair ainda mais. É ele, o consumidor americano, que, de uma certa forma, está segurando a derrapagem da economia mundial, já que a Europa, amarrada ao Banco Central Europeu (BCE), parece conformar-se com um crescimento de 2% ou 2,5%, considerado “muito bom” pelo vice-presidente do BCE, Christian Noyer, e só existe algum “otimismo” com o Japão se olharmos os gráficos virados de cabeça para baixo…
Os dados desta semana continuam mostrando que a recessão nos EUA está afastada, mas revelam uma volatilidade perigosa que desafia qualquer previsão para os próximos seis meses. As mais otimistas apontam para um crescimento de 2,5% do PIB. Mas isso é suficiente para permitir que o mercado americano continue absorvendo o excesso de produção mundial e impedir uma recessão anunciada? Será que 1,2% num trimestre e 0,5% no outro, mesmo numa economia de US$ 10 trilhões e que importa anualmente mais de US$ 1 trilhão, são suficientes?
Vai bem, mas patina
Os dados desta semana mostram que as encomendas à indústria americana aumentaram 2,5% em maio, mas as empresas continuam liberando mão-de-obra, com o desemprego apontando para 4,5% e até um pouco mais. Ou seja, mais desemprego, menos consumidores. Isso não aparece com o destaque devido nas pesquisas, simplesmente porque os americanos estão comprando mais porque poupam menos e se endividam mais.
O Departamento do Comércio dos EUA divulgou, nesta semana, que em abril e em maio os gastos pessoais, familiares, aumentaram em 0,5% e registra que a renda pessoal cresceu apenas 0,2%. Como explicar que eles gastem mais mesmo ganhando menos? O próprio Departamento do Comércio responde: a taxa de poupança, aquilo que eles guardam ou guardavam, caiu no mesmo período 1,3%. É o menor nível de poupança desde que se levantam esses dados, 1959. (Mais informações, entre em www.bea.doc.gov ou em www.napm.org.)
Otimismo delicado…
A conclusão é que os americanos estão “comendo” a sua poupança.
Isso não é novidade, pois a poupança pessoal no país vem caindo até 8% mesmo durante a década de extraordinário crescimento econômico. A diferença é que essa auto-alimentação (ganhos financeiros, aumento de produtividade, elevação de renda igual a mais gastos) provavelmente não poderá sustentar-se num cenário em que o crescimento econômico despenca de 5% para 2% ou 2.5%. (Na década, lembra o JP Morgan, o crescimento médio foi de 4% em comparação com 2% dos 25 anos anteriores ao boom que agora termina.)
… e confiança temerária
Essa redução da poupança e o aumento do consumo se explicam com duas palavras: otimismo e transitoriedade. “É a hipótese da renda permanente, ou seja, as pessoas percebem (ou acreditam) que essa queda de renda é temporária, e avançam um pouco sobre sua poupança”, afirma o professor de macroeconomia da Universidade de Harvard, Gregory Mankin, ao Financial Times. Ou seja, isso que está aí é temporário (de 5% para 2,5%…), vamos continuar mantendo nosso nível de vida e até melhorá-lo sacando do que estava guardado… A maioria dos economistas, porém, discorda da tese de “temporariedade”, como Rory Robertson, do Banco de Investimentos Macquarien. Para ele – e muitos outros -, os dados relativos à recuperação econômica americana são ainda muito fracos e instáveis. Isso não seria tão sério se os demais países desenvolvidos estivessem crescendo, mas não estão.
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Não há ninguém na Europa ou na Ásia para substituir o consumidor americano que está gastando o que guardou confiando em Greenspan… Simplificando: o crescimento da economia americana e seus efeitos sobre a mundial estão dependendo de dois sentimentos um tanto vagos e temerários: otimismo e confiança.
Enquanto isso, o BCE reúne-se hoje com o seu presidente dizendo, dois dias antes, que não há razão nenhuma para reduzir os juros porque tudo caminha bem. Está tudo sob controle…
OCDE em números
Acaba de sair a edição 2001 do OECD in Figures, www.oecd.org/bookshp (cuidado, em inglês é OECD e não o OCDE em português), com todos os dados imagináveis sobre as principais economias mundiais. Há estatísticas atualizadas sobre tudo: economia, agricultura, subsídios agrícolas, finanças, comércio, energia, emprego, demografia, educação, saúde, meio ambiente, etc., compactados em 90 páginas em formato de bolso. É uma verdadeira preciosidade. Há também divisões por blocos econômicos regionais, com o G-7 e a UE. Exemplo: em 2000, o PIB dos EUA, de US$ 9,926 trilhões foi maior que os US$ 9 trilhões dos 15 países da União Européia e praticamente a metade do G-7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália e Canadá), que soma US$ 20 trilhões. E na página 26: o suporte (subsídios, etc.) aos agricultores da União Européia representa 38% do valor da produção, nos EUA 22%, enquanto os subsídios aos consumidores europeus caíram 29% e aumentaram só 2% nos EUA. Está tudo lá.