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SÃO PAULO – Lance Armstrong era considerado, por muitos, um dos maiores esportistas que já viveram. Campeão sete vezes seguidas do Tour de France, a principal competição de ciclismo, e filantropo, o norte-americano era considerado um exemplo, também por derrotar um câncer no testículo em estágio avançado e ter uma família “perfeita” – uma história que desmoronou após o atleta assumir dopar-se constantemente durante seus anos de competição.
Mas o que ele tem a ver com o mercado de ações? Para Joseph Calhoun, gestor da Alhambra Investment Partners, muito. “A pressão dos pares fez com que o ciclista se dopasse, o que também tem uma influência muito grande sobre os investidores, com consequências muito severas”, alerta o gestor – lembrando que Armstrong se defendeu que só tomou o doping porque acreditava que todos os seus rivais faziam o mesmo.
Ele destaca que tanto a bolha da internet no início do milênio quanto a crise de 2008 foram casos que ele acredita como pressão dos pares. Assim como o doping de Armstrong, alguém se deu bem com essa história, enquanto outros tiveram prejuízos. “Não há bolhas evidentes, a pressão dos pares sobre os investidores é enorme agora mesmo”, avalia.
Hora de pular na piscina?
Calhoun lembra que no momento os investidores pulam no que ele chama de “piscina dos investimentos de risco” – e praticamente jogam seus colegas lá dentro. Como Armstrong pensou na hora de começar a se dopar, há uma percepção de que é preciso encontrar alguma alternativa para vencer no mercado de investimentos. “Nos últimos meses os gestores trocaram os ativos de pouco risco por grande, já que os primeiros não davam retorno algum”, avalia.
O gestor destaca que, embora essa estratégia dê certo de tempos em tempos – o mercado aceita o risco e os papéis sobem – é capaz que uma grande virada apareça e destrua o valor de seus investimentos. “O mercado não é sobre o andamento da economia, é sobre o sentimento dos investidores, e como isso mudou em apenas algumas poucas semanas?”, afirma.
Ele destaca que logo após a eleição nos EUA era impossível encontrar alguém que acreditasse que os índices acionários poderiam subir – nas vésperas do abismo fiscal, com a possibilidade de impostos maiores e a proximidade do teto da dívida. E agora, ele lembra, sem a resolução de nada disso, o mercado norte-americano está nos níveis recordes dos últimos cinco anos.
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“Comprar ações agora é sucumbir à pressão dos outros do mercado”, destaca – salientando que é o mesmo que Lance Armstrong fez ao começar a se dopar. E ao mesmo tempo o mercado norte-americano continua subindo – em um movimento que Calhoun acredita ser uma tentativa de “rir da cara” dos investidores que ainda não estão expostos à ele.
“Eu sei que teoricamente o Fed olha por nós com o QE (Quantitative easing), mas eles não estiveram sempre? Quer dizer, eles não deviam ter prevenido o crash de 2000 e a crise bancária de 2008?”, indaga. E no momento, ele salienta, o mercado vai olhando o desempenho da economia no fim do ano passado – antes do aumento de impostos nas folhas de pagamentos. “Você ouviu pessoas reclamando dos seus salários? O que você acha que vai acontecer em fevereiro quando começarmos a ver os números?”, pergunta.
Ele acredita que o país vai evitar uma recessão novamente, mas a situação continua complicada: uma melhoria mais acentuada dos EUA depende da recuperação do mercado imobiliário, que por sua vez depende da queda do desemprego, além de que se a Europa permanecer quieta no momento, algumas eleições no continente devem complicar o panorama mais para frente. A instabilidade política não vai ser exclusividade europeia, já que o congresso dos EUA ainda precisa discutir a elevação do teto da dívida.
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A próxima crise vem da Ásia
Calhoun também mostra desconfiança em relação ao andamento da economia asiática. “Lembre das minhas palavras, a próxima crise vai vir da ásia”, diz. A China parece estar estabilizada, mas o crescimento do crédito continua insustentável em sua opinião.
Outro país que chama a sua atenção por lá é o Japão – que acaba de embarcar em um novo programa de estímulos monetários. Shinzo Abe, o novo primeiro-ministro, já disse que gostaria que o Banco Central elevasse sua meta de inflação. “E minha experiência passada me faria apostar em um crescimento abaixo do esperado no Japão”, afirma.
É hora de comprar?
E se isso ocorrer, o mercado deve voltar a acentuar perdas. “Se isso será uma grande correção ou mais uma pernada de queda de um mercado de queda mais longo é algo que não sabemos até isso se desenvolver”, avalia Calhoun.
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Ele diz que se o mercado continuar em queda ou os dados da economia continuarem piorando enquanto os investidores continuam otimistas, algo mais deve ocorrer. “É hora de tampar os ouvidos e ignorar a sirene do mercado subindo, não é hora de perseguir novas altas”, finaliza o gestor.