Como as recompras de ações se tornaram a nova droga de Wall Street

No 1° trimestre deste ano, as companhias do S&P 500 retornaram mais dinheiro (através de recompras e dividendos) aos acionistas do que lucraram

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SÃO PAULO – Os anos de juros baixos nos Estados Unidos levaram Wall Street a um descompasso com a realidade. As companhias preferem agora impulsionar suas ações através de recompras de ações do que com os próprios ganhos. Mas, assim como as dúvidas sobre quando o Federal Reserve irá iniciar a subida dos juros na economia americana, ainda é nebuloso até quando as recompras conseguirão impulsionar as ações. 

No primeiro trimestre deste ano, as companhias do S&P 500, um dos principais índices acionários americanos, retornaram mais dinheiro (através de recompras e dividendos) aos acionistas do que lucraram. A última vez que isso ocorreu foi no quarto trimestre de 2008, quando o S&P 500 reportou ligeiras perdas no trimestre mas ainda gastava US$ 110 bilhões entre dividendos e recompras, mostrou uma reportagem publicada nesta sexta-feira pelo Market Watch.

O gráfico abaixo deixa evidência a atual situação que vive o mercado americano. Semana passada uma matéria do InfoMoney já alertada para o problema, que pode estourar em breve nas Bolsas dos EUA, já que as recompras são financiadas por juros baixos e quando isso for revertido, o gatilho que mantinha as ações em alta pode se esgotar. 

“Isso não é uma tendência normal”, disse Howard Silverblatt, analista sênior no S&P Dow Jones Indices ao Market Watch. “A maior parte do dinheiro foi devolvida como parte das recompras”, comentou.

No primeiro trimestre, as companhias do S&P 500 gastaram US$ 237,69 bilhões em dividendos e recompras, enquanto reportaram lucros de US$ 228,36 bilhões, segundo dados compilados por Silverblatt. Parte disso pode ser explicada porque, com os juros praticamente zero nos EUA, é mais vantajoso para as empresas tomar dívida e recomprar suas ações do que esperar pelo retorno através do crescimento de seus lucros dado que somente agora a economia do país começa a retomar expansão. 

Embora os dados a seguir não tenham nenhuma relação, as companhias do S&P 500 gastaram cerca de US$ 2,41 trilhões em recompras no atual “bull market” (mercado altista) das Bolsas americanas, enquanto o Fed gastou US$ 2,37 trilhões nos programas de Quantitative Easing. 

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Segundo dados recentes do S&P, o total de recompras de ações e dividendos foram responsáveis por 35% da alta do índice, desde o fundo do poço em 2009. Sem os dividendos, as recompras sozinhas corresponderam por 21% do aumento do valor do mercado. 

Enquanto acionistas aplaudem as recompras, críticos alertam que isso vem do custo de reinvestimentos e inovação, tanto sob a forma de criação de emprego como em investimento no futuro da empresa. 

Confira a tabela abaixo que traz um ranking das empresas que mais gastaram com recompras na última década (de 2004 a 2013):

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Ranking Companhia Recompras (US$ – bilhões) Dividendos (US$ – bilhões) Dividendos+recompras /Lucro líquido
1 Exxon Mobil 217 84 84%
2 IBM 116 26 113%
3 Microsoft 113 77 119%
4 Cisco Systems 72 5 110%
5 Procter & Gamble 72 47 118%
6 Hewlett-Packard 65 9 168%
7 Wal-Mart Stores 64 40 73%
8 Pfizer 62 65 137%
9  Intel  58  31  107% 
10 General Electric 57 87 89%