Com salto das commodities

Como as empresas de alimentos e bebidas da B3 estão reagindo ao conflito Rússia-Ucrânia, segundo o Bradesco BBI

Analistas conversaram com empresas do setor e mantiveram recomendações para ativos, mesmo em meio ao cenário mais incerto para as commodities

Por  Augusto Diniz

Em meio à disparada recente das cotações das commodities em meio à invasão da Ucrânia pela Rússia, o Bradesco BBI fez um diagnóstico sobre o setor de agronegócio, alimentos e bebidas, conversando também com as companhias para entender como elas estão atuando nesse novo quadro de preços internacionais.

No levantamento, ao contrário do propalado, não se espera, por ora, escassez de fertilizantes no Brasil, mesmo com a demanda dos agricultores; em alimentos e bebidas, não são aguardados armazenamento de commodities por conta da crise, enquanto acredita-se em aumento de preços de produtos devido aos custos mais altos. Já no setor de proteínas, a exposição direta ao mercado russo/ucraniano é muito baixa, não excedendo 0,5% da receita total.

Neste cenário, os analistas mantiveram para as recomendações as ações das companhias citadas.

“Como já havíamos sinalizado, players que vendem commodities, como SLC (SLCE3), 3tentos ((TTEN3), São Martinho (SMTO3) e Camil (CAML3) estão registrando desempenho bem superior na Bolsa aos players que compram commodities como Ambev (ABEV3), BRF (BRFS3) e M.Dias Branco (MDIA3)”, apontam.

Contudo, os analistas seguem com uma visão fundamentalista de queda dos preços das commodities agrícolas. “Portanto, nossa visão geral é de preferência por fabricantes de alimentos ‘embalados’ versus produtores de commodities, principalmente porque estamos vendo margens significativamente baixas para a indústria animal (que responde pela maioria das compras de grãos globais) que provavelmente forçarão um forte ajuste para baixo na demanda por produtos agrícolas, movimentos estes que ainda não estão precificados”, apontam.

Confira abaixo as recomendações do BBI para o setor e a atuação das empresas com a alta das commodities:

CompanhiaTickerRecomendaçãoPreço-alvoUpside*
AmbevABEV3OutperformR$ 21+56%
BRF BRFS3OutperformR$ 32+108%
M.Dias Branco MDIA3OutperformR$ 40+99%
3tentos TTEN3OutperformR$ 18+73%
JBS JBSS3NeutroR$ 36+2%
Marfrig MRFG3NeutroR$ 23+5%
São Martinho SMTO3Neutro R$ 38-10%
Camil CAML3Neutro R$ 11+22%
SLC SLCE3Underperform R$ 35-33%
*em relação ao fechamento de 8 de março de 2022

Agronegócio

Com relação à 3Tentos (TTEN3), o BBI aponta que há fertilizantes suficientes para atender às necessidades dos agricultores às culturas de inverno, como o trigo, que começa em maio.

Há necessidade de compra do insumo de produtores de fertilizantes nos próximos meses para se preparar para as safras de verão, a partir de setembro no País. Mas o BBI ressaltou que não há grandes preocupações sobre escassez de oferta no mercado, além da base diversificada já existente em fertilizantes.

“Apesar de recente alta dos preços dos fertilizantes, os preços agrícolas subiram ainda mais, o que deve apoiar a demanda dos agricultores por insumos como fertilizantes, sementes e proteção de cultivos”, diz o relatório.

Leia também: 9 ações de empresas brasileiras de alimentos que podem ser impactadas pela guerra na Ucrânia

Especificamente sobre a empresa produtora de grãos e algodão SLC (SLCE3), o banco analisou que um cenário de preços pouco atrativos de compra de fertilizantes, a empresa tem a opção de adquirir apenas 80% de seu uso total desse tipo de insumo, previsto para a safra 2022/23, sem comprometer a produção dessa safra, embora precisassem aumentar uso de fertilizantes no seguinte para evitar minar a produtividade da terra.

Indústria de alimentos e bebidas

Sobre a Ambev (ABEV3), o BBI disse que não espera que a empresa “altere sua estratégia (de 12 meses) de hedge, que cobre custos relacionados às commodities e câmbio, embora a política da empresa permita flexibilidade para que este período seja 2 meses mais longo ou mais curto (cobertura de 10 ou 14 meses)”.

Pelo cálculo da instituição, 20% dos custos da Ambev estão relacionados a commodities agrícolas e 45% a latas, enquanto 50% dos custos de sua divisão brasileira de cervejas estão em dólares.

A Arca Continental, que engarrafa a Coca Cola no México, geralmente leva de um a dois trimestres para que as mudanças nos preços spot das commodities se reflitam nos resultados, afirma o BBI.

Atualmente, destaca o banco, a Arca tem cerca de 50% de suas necessidades de alumínio cobertas para 2022, enquanto a exposição ao PET ainda não foi coberta. A empresa geralmente aumenta os preços 3 a 4 vezes por ano, quando incorrem em custos de insumos acima do esperado.

Para a Coca-Cola Femsa, o BBI avalia que, no momento, a empresa não está alterando sua política. “No entanto, eles poderiam esperar por melhores oportunidades para comprar matérias-primas em 2023”, analisa o banco. “A empresa pode aumentar ou diminuir esses períodos de rolagem se houver uma oportunidade atraente para hedge”.

Grão, massas e biscoitos

Com relação à Camil (CAML3), BBI avalia que a companhia não protege sua exposição de commodities para o arroz, feijão, açúcar e negócios de conservas de pescado, devido ao seu repasse de custos através da dinâmica de preços – que juntos representam cerca de 95% da receita total (negócios Brasil e Internacional). “Não esperamos que essa estratégia mude”, avaliam os analistas.

Para o segmento de massas, os custos com matérias-primas respondem por 70%-80% do CPV (custo de produtos vendidos), que é principalmente trigo, e geralmente leva de 4 a 6 meses para que as mudanças reflitam nos resultados de curto prazo da Camil, ressalta o banco.

No caso de M. Dias Branco (MDIA3), líder no mercado de biscoitos e massas no Brasil, a instituição acredita que ela deva continuar apresentando uma diferença de seis meses entre mudanças nos preços à vista das commodities e o que é refletido em seus resultados, dada sua capacidade de armazenagem de 4 meses e o tempo necessário para processar os produtos.

“Ressaltamos que os preços agrícolas representam mais de 60% do total de custos da M. Dias Branco, com trigo respondendo por 40%, e óleo vegetal, 20%. Achamos que a M. Dias pode considerar aumentos de preço adicional para repassar os custos agrícolas mais elevados”, relata o banco.

Empresas de proteínas

O Bradesco BBI não espera que a BRF (BRFS3) altere sua estratégia de hedge relacionada para grãos (40% dos custos totais), que também compreende a capacidade de armazenamento estimada em cerca de 3-4 meses.

“A atual exposição de crédito da empresa a Rússia é inferior a US$ 2 milhões e atualmente não há exposição a embarques para aquele país. A empresa está acompanhando a situação na Turquia, onde tem operações, uma vez que este país recebe cerca de 1/3 de sua energia da Rússia”, informa.

Já no caso da JBS (JBSS3), o BBI explica que tem baixa exposição à Rússia e Ucrânia, com menos de 0,5% da receita vinda desses mercados. “Acreditamos que a empresa não mudará seu plano de capex ou cronograma de produção, apesar dos custos mais altos de matéria-prima, com grãos representando cerca de 12% dos custos totais da JBS”, relatou.

Por fim, sobre a Marfrig (MRFG3) o BBI declarou que não espera mudança de estratégia, também porque tem exposição à Rússia e a Ucrânia muito baixa, com 0,01% da receita total.

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