Commodities: valorização continuará em 2010, com demanda forte e dólar fraco

Principais drivers dos preços das matérias-primas serão recuperação da economia global e enfraquecimento da divisa

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SÃO PAULO – Se 2009 começou com o fantasma da catástrofe pairando sobre os mercados de commodities internacionais e termina como um ano de ganhos impressionantes, 2010 chega com a promessa de moderação.

A expectativa de retornos menores pode até gerar desconfiança nos investidores, porém o clima entre os analistas é, no geral, otimista. “Com a maior parte do movimento de alta nos preços das commodities ficando para trás, nós suspeitamos que as estratégias de long e short vão performar muito melhor em 2010”, preveem os analistas do Barclays.

A visão positiva é impulsionada principalmente pelas projeções de demanda crescente dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e da China, incentivada especialmente pelas perspectivas de crescimento da produção industrial.

“Nós vemos o potencial de que uma alta robusta na demanda da OCDE pressione os níveis de estoques de diversos segmentos de commodities, especialmente petróleo e metais industriais”, completa a equipe do banco inglês.

No entanto, há opiniões menos otimistas em relação ao aumento da procura. De acordo com a estrategista e analista-chefe da Fator, Lika Takahashi, a retomada da demanda não será suficiente para que o pico visto em 2008 seja atingido antes de 2011.

Queda do dólar: outro driver relevante
A analista afirma que parte das expectativas positivas para 2010 está ancorada na continuidade da fraqueza do dólar, já que a maioria das commotidies é denominada na moeda norte-americana.

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Da mesma forma, a equipe do Bank of America Merrill Lynch argumenta que a depreciação do dólar poderia contribuir para preços mais elevados das commodities, já que alimenta a demanda – especialmente nos mercados emergentes – por bens primários.

E a tendência deve continuar. “Como as finanças públicas dos Estados Unidos, do Japão, do Reino Unido e da Zona do Euro estão ruins, é difícil ver como esses países voltarão à tendência de crescimento econômico sem uma demanda externa robusta, sugerindo que a dinâmica [de depreciação competitiva do câmbio] poderia continuar por um tempo”, explicam os analistas do BofA Merrill Lynch.

O que olhar
Também listando o enfraquecimento do dólar como um dos principais drivers dos preços das commodities, o Scotia Bank cita outros três pontos que merecem ser acompanhados no próximo ano e que levarão à alta no preço dos bens primários.

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O primeiro deles é o fortalecimento da China, com expectativas de crescimento de 9,5% do PIB (Produto Interno Bruto) no próximo ano. O segundo é a reestocagem de materiais básicos nos países desenvolvidos. E o terceiro é “o contínuo interesse dos investidores nas commodities como uma ‘classe de ativos’, com o interesse mudando de passivo – com investimentos em índices de commodities – para estratégias mais ativas, usando hedge funds”.

Apesar da recuperação econômica global e do enfraquecimento do dólar terem efeitos semelhantes em todos os setores do mercado de commodities, as dinâmicas de cada segmento são diferentes. Dessa forma, vale conferir as previsões para os principais bens primários visando 2010.

Petróleo
“Nós vemos que uma contínua melhora na demanda por petróleo, especialmente por diesel, fornecerá mais potenciais de valorização para os preços do óleo bruto”, afirma o Barclays, que prevê patamares médios de US$ 85 e US$ 84 por barril para o petróleo tipo WTI (West Texas Intermediate) e Brent, respectivamente.

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A perspectiva de que as condições vão melhorar consistentemente ao longo do ano é vista nas projeções de preços por trimestres. Enquanto para os primeiros três meses de 2010 as previsões do Barclays são de preços de US$ 78 e US$ 77 por barril, o banco projeta um aumento para US$ 92 e US$ 91 para o quarto trimestre.

O Bank of America Merrill Lynch é ainda mais enfático nas projeções. Embora preveja um preço médio de US$ 82 por barril do WTI em 2010, a expectativa é de que o petróleo atinja US$ 100 por barril à medida que se aproxima de 2011.

Entretanto, nem tudo é positivo no segmento. De acordo com o RGE, de Nouriel Roubini, se a demanda está se recuperando, a oferta também tem visto adições consideráveis, especialmente de países que não pertencem à Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). “A Rússia elevou a produção, superando os declínios de 2008, e a produção do Canadá e do Brasil também aumentou. Esses avanços, ao menos no médio prazo, reforçam a tendência da Opep e sugerem que a oferta continuará maior do que a demanda em 2010”, prevê.

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Outro ponto que deve permanecer em foco no setor petrolífero no próximo ano são as tensões geopolíticas. O fato de que a Arábia Saudita está cada vez mais envolvida nos conflitos do Iêmen, as condições internas do Irã e as divergências entre Rússia e Ucrânia estão entre os conflitos citados pelo RGE e que podem vir à tona no próximo ano.

Metais
O destaque dentro desse segmento continua sendo o ouro. Com uma percepção crescente de risco inflacionário futuro – devido às injeções de liquidez na economia global durante a crise financeira – os investidores têm voltado a procurar o metal como forma de proteção. E o enfraquecimento do dólar contribui ainda mais com o avanço dessa demanda.

Um dos pontos a serem observados de perto continua sendo a diversificação das reservas internacionais. “Nós acreditamos que os bancos centrais mudaram a atitude em relação ao ouro. Isso é refletido nas adições do metal aos portfólios de reserva internacional da China, da Índia e da Rússia”, comentam os analistas do BofA Merrill Lynch.

Segundo eles, com as moedas do G-10 sofrendo de um problema de credibilidade, um movimento em direção ao ouro é provável, pois significa uma proteção frente à possível depreciação competitiva no câmbio dos países desenvolvidos.

As projeções do banco são de que o ouro atinja um preço médio de US$ 1.100 por onça em 2010, enquanto o Barclays prevê um valor de US$ 1.088. Platina também é uma boa pedida para o ano que vem, com as previsões das duas instituições alcançando os patamares de US$ 1.440 e US$ 1.351 por onça, respectivamente.

Embora prevejam valorização no preço médio da prata, as perspectivas não são tão otimistas para o metal, classificado como o “mais vulnerável a uma fase de liquidação” pelos analistas do Barclays. As projeções do banco são de preço médio de US$ 16,50 em 2010.

No caso dos metais industriais, a expectativa é de redução da demanda chinesa nos próximos meses. Contudo, o Barclays acredita que os produtos irão se beneficiar da reconstrução dos estoques dos países que compõem a OCDE.

Aliás, o fim da desestocagem é um driver importante para a maioria dos metais industriais também na visão do Bank of America Merrill Lynch. Ao mesmo tempo, a elevação na demanda final por produtos de alumínio, cobre e aço inox devem sustentar uma boa performance dos dois metais e do níquel em 2010.

As projeções do banco são de que os preços médios dos metais em 2010 fiquem em US$ 2.025 por tonelada de alumínio, US$ 7.125 por tonelada de cobre e US$ 20.000 por tonelada de níquel.

Agrícolas
Por fim, embora pouco comentadas normalmente, as commodities agrícolas também inspiram confiança nos analistas. O destaque, de acordo com avaliação do Barclays, fica com o milho, que deve ser favorecido pela recuperação da demanda alimentícia e também pela forte procura por etanol.

O açúcar também é visto com otimismo, principalmente devido aos “problemas recentes com o fornecimento”. Nesse sentido, o banco prevê um aumento no preço do açúcar.

“A combinação de recuperação econômica e políticas monetárias flexíveis continua a fornecer um forte apoio aos preços dos ativos de quase todos os tipos na maioria das regiões do mundo. Até que haja sinais de uma mudança nesse ambiente, nós recomendamos aos investidores mantenham suas alocações em ativos de risco”, conclui o chefe de análise do Barclays, Larry Kantor.