Indústria Farmacêutica

Comida chinesa e bilhões na mesa: os detalhes da negociação entre Pfizer e Astrazeneca

Uma oferta surpresa, um desacordo sobre um comunicado de imprensa e a diferença entre uma visita pessoal e uma conversa telefônica tiveram um papel muito importante nas negociações

Mesmo em um acordo de altos interesses que vale quase US$ 120 bilhões, e que poderia gerar a maior fabricante de medicamentos do mundo, os detalhes pessoais são importantes.

Em uma análise posterior às negociações malsucedidas de aquisição entre a Pfizer Inc. e a AstraZeneca Plc, uma oferta surpresa, um desacordo sobre um comunicado de imprensa e a diferença entre uma visita pessoal e uma conversa telefônica tiveram um papel muito importante. A comida chinesa também fez uma ponta.

“Às vezes não se trata simplesmente de dinheiro, mas de como lidar com o fator psicológico por trás de uma transação”, disse Daniel Galván, diretor do banco de investimento GBS Finanzas em Madri. “A Pfizer poderia ter sido um pouco mais sutil ao abordar a AstraZeneca”.

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A Pfizer finalizou ontem seus esforços de seis meses para comprar a AstraZeneca depois que a empresa com sede em Londres rejeitou no dia 19 de maio a última oferta, de 55 libras por ação em dinheiro e ações. Embora a lei de aquisições do Reino Unido proíba que a Pfizer realize outra oferta espontânea durante os próximos seis meses, o acordo poderia ser reavivado em três meses caso a AstraZeneca inicie as negociações.

Na sequência, as recriminações começaram e foram levantadas questões sobre a tática da Pfizer, com sede em Nova York. Aos olhos da AstraZeneca, a Pfizer transformou um acordo supostamente amigável em um acordo hostil, alienando seu conselho, de acordo com fontes que solicitaram o anonimato.

Ceticismo da Pfizer
Por sua vez, a Pfizer não estava convencida de que a AstraZeneca estivesse levando as negociações a sério, especialmente perto do fim do processo, disseram as fontes. Como a AstraZeneca rejeitou rapidamente as ofertas anteriores, a Pfizer esperava que seu último lance levasse os acionistas da empresa britânica a pressioná-la para aceitar novas negociações.

As negociações começaram em novembro do ano passado, quando o CEO da Pfizer, Ian Read, que completou 61 anos ontem, abordou a AstraZeneca com uma possível transação. A Pfizer transferiria sua sede ao Reino Unido para obter uma alíquota menor, adicionaria novos medicamentos contra o câncer à sua carteira e aproveitaria as reduções de custos oriundas da sobreposição de operações.

Em janeiro, o CEO da AstraZeneca, Pascal Soriot, 55, e o presidente do conselho Leif Johansson, 62, estavam intrigados o suficiente para viajar a Nova York e se reunirem com o CEO da Pfizer. Eles se encontraram no hotel The Pierre, com vista para o Central Park, onde receberam uma oferta de 46,61 libras por ação. Embora o valor estivesse quase 30% acima do preço das ações da AstraZeneca, Soriot recusou. Ao invés de continuar tentando chegar a um acordo, a Pfizer decidiu abandonar o assunto, para surpresa de pessoas próximas à AstraZeneca.

As discussões com a AstraZeneca foram reativadas em 26 de abril, quando Read, da Pfizer, ligou para Johansson em sua Suécia natal. A empresa americana pressionou para realizar um comunicado conjunto dizendo que as fabricantes de medicamentos estavam negociando uma aquisição. Johansson recusou, dizendo que primeiro precisava de uma oferta, disse a AstraZeneca.

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O desacordo em relação ao comunicado de imprensa definiu o tom hostil que persistiu durante as semanas seguintes, disseram duas fontes próximas à empresa britânica.

“Há uma camada superficial de civilidade aqui, mas eles não estão muito contentes uns com os outros”, disse Julian Birkinshaw, professor de estratégia na London Business School.

Teleconferência
Após algumas negociações sem sucesso as partes realizaram uma teleconferência no dia 18 de maio, às 15h00 de Londres, com Read e Frank D’Amelio, diretor financeiro da Pfizer, e Johansson, Soriot e Marc Dunoyer, diretor financeiro da AstraZeneca, disseram as fontes.

A conferência de 70 minutos não conseguiu render um acordo sobre o preço. A Pfizer estava relutante em aumentar sua oferta de 53,50 libras e a AstraZeneca queria pelo menos 58,85 libras, ou 10% a mais, e garantias adicionais.

Logo depois que a reunião terminou a Pfizer estava pronta para disparar sua oferta final de 55 libras por ação, ainda abaixo do que a AstraZeneca queria, mas alta o suficiente para tentar alguns dos principais acionistas.

Os executivos da empresa britânica, alguns reunidos em seus elegantes escritórios envidraçados perto da Paddington Station, em Londres, se surpreenderam com a decisão unilateral da Pfizer, disse Johansson depois.

Em uma reunião convocada abruptamente, os executivos decidiram recusar o último aumento. Acordados durante a noite inteira, fortificados pela comida chinesa do restaurante Pearl Liang, famoso por seus petiscos dim sum e caracóis marinhos, os executivos esboçaram uma declaração com a recusa, divulgada às 7h00, antes de que alguns deles fossem ao Novotel mais próximo, de acordo com pessoas com conhecimentos sobre a reunião.

Orientações diferentes
A última oferta da Pfizer foi mais uma formalidade, de acordo com uma pessoa do lado dos EUA que participou das discussões. Ficou entendido quando saiu que o acordo provavelmente estava morto, disse a fonte. Mesmo assim, o painel de aquisição fez com que a Pfizer realizasse outra declaração posteriormente, no dia 19 de maio, esclarecendo que, sob determinadas condições, a empresa ainda faria um acordo, disse a fonte. Isso estimulou as ações da AstraZeneca no dia seguinte, após uma queda de até 15 por cento em 19 de maio.

As orientações tão divergentes entre as duas empresas dificultaram o fechamento do negócio, de acordo com Birkinshaw. A perspectiva comercial da Pfizer e seu histórico de redução de custos depois das aquisições pesaram contra ela politicamente, enquanto a AstraZeneca poderia se envolver no manto da ciência, disse ele.

Soriot agora precisará provar que pode sobreviver como uma empresa independente. A AstraZeneca disse em 6 de maio que vai gerar mais de US$ 45 bilhões em receita anual até 2023. A receita do ano passado totalizou US$ 25,7 bilhões.

“A Pfizer pode continuar rondando e tentar chegar a um acordo com a AstraZeneca mais adiante, ou simplesmente virar as costas, embora não haja muitos outros alvos internacionais grandes com tão boa opção estratégica para eles como este”, disse Galván da GBS Finanzas.