Comércio exterior fracassa e agrava a dependência externa

15h00 – 27/08Coluna do TamerLONDRES – O exportar ou morrer do presidente Fernando Henrique Cardoso não impressionou ninguém no mercado financeiro internacional. Muito ao contrário, repercutiu mal, pois deixou bem claro que o governo brasileiro repete um discurso velho e desgastado – “exportar é preciso!” – para um novo desafio grave e a cada dia […]

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15h00 – 27/08
Coluna do Tamer
LONDRES – O exportar ou morrer do presidente Fernando Henrique Cardoso não impressionou ninguém no mercado financeiro internacional. Muito ao contrário, repercutiu mal, pois deixou bem claro que o governo brasileiro repete um discurso velho e desgastado – “exportar é preciso!” – para um novo desafio grave e a cada dia mais urgente por causa da deterioração da economia mundial e o estreitamento crescente do mercado externo. Ou seja, ficou a nítida sensação de que não há nada de novo em termos de política comercial e que o governo continua adiando a solução de um problema – o do déficit da balança comercial e com ele o do balanço de pagamentos. Se esse déficit era até agora suportável, hoje ganha proporções gravíssimas, pois o cenário externo é negativo, o mercado financeiro, que deve financiá-lo, se retrai, o comércio mundial recua, os investimentos diretos caem pela metade e o Brasil irá precisar, neste ano, entre US$ 52 bilhões e US$ 60 bilhões para cobrir seu déficit em conta corrente. Esta inclui o saldo da balança comercial, serviços como viagens, fretes, turismo, juros, remessas de lucros e dividendos, entre outros, transferências unilaterais, etc.

A fonte secou

No ano passado, o déficit foi financiado pela entrada de US$ 30 bilhões em investimentos diretos (e, mesmo assim, graças à venda de última hora do Banespa…), mas neste não poderemos contar com mais de US$ 18 bilhões. Resumindo, até dezembro o Brasil terá de obter US$ 34 bilhões, dos quais US$ 25 bilhões só para amortização da dívida externa, que, se der, poderão ser rolados.

E aqui entra o superado “exportar ou morrer”. Desde as primeiras colunas, há mais de seis anos, temos afirmado que é este o dilema, e repetido exclamações idênticas vindas de várias fontes. E, curiosamente, entre essas fontes e essas exclamações, as mais enfáticas foram as do próprio governo…

A cada posse de novo ministro da Indústria, deste competente, mas prisioneiro diretor da Camex, Roberto Giannetti da Fonseca, até do mais simples funcionário burocrático, lá vinha o famoso “Exportar é preciso”, numa ladainha inconseqüente.

Esta coluna chegou até o extremo de dizer que, “em termos de comércio exterior, caminhamos com a lentidão dos atrasados que não têm pressa e com a velocidade de tartarugas reumáticas…”

Ainda recentemente, divulgamos dados da OMC mostrando que o Brasil continuava, como há anos, representando apenas 0,9% das exportações mundiais. É um dado oficial, está lá no relatório da OMC. E, neste ano, devemos recuar ainda mais, pois o mercado se fechou com a retração mundial, o protecionismo aumentou, e o Brasil vai continuar sendo, na oportuna, mas triste expressão do presidente, “o que mais apanha”. Mas, caberia lembrar, por que é o que menos luta e menos se empenha para exportar mais e deixar de ser um parceiro comercial menor, de apenas 0,9% do mercado.

Não dá mais

Até o ano passado, os investimentos diretos, o ânimo do mercado financeiro e o bom desempenho da economia mundial tornavam isso um problema grave, sim, porém menos agudo. Essa entrada de recursos era a salvação para financiar o déficit em conta corrente, que inclui o comercial, o saldo negativo entre o que exportamos e o que importamos. Este ano, não mais.

Passou a fase dos investimentos diretos de US$ 30 bilhões, pois, além do desaquecimento da economia e do mercado mundiais, temos conjugação de fatores negativos como a crise argentina, que ainda vai longe, a paralisação do processo de privatização, o racionamento de energia e um crescimento econômico pífio, que não deve passar de 2%, quando, em janeiro, a previsão do governo era de 4,5%. Dinheiro extra, agora, só emprestado e a juros crescentes e num mercado cada vez mais imprevisível.

Impostos X subsídios

Neste cenário no mínimo nebuloso, o governo deveria ter dado uma prioridade especial ao comércio exterior, ao estímulo às exportações, à tão decantada “política comercial”, que, no desfile de ministros da Indústria e do Comércio Exterior, ninguém fez, ninguém viu nem está à vista a curto prazo. Apesar de todos os alertas do setor empresarial, e, mais estranho ainda, vindos com grande freqüência de dentro do próprio governo, o Brasil, acomodou-se. Como lembrou certa vez (há anos…) esta coluna “continuamos exportando imposto, enquanto os nossos competidores comerciais exportam subsídios”. E, se continuarmos apanhando e perdendo espaço no mercado mundial, é simplesmente porque, enquanto a União Européia e os Estados Unidos fazem, nós falamos.

Brasil parou

Mas, agora, não só vamos continuar falando, teremos que endividar-nos ainda mais.

Nos últimos 12 meses – de julho a junho – nossas exportações ficaram em US$ 57,822 bilhões (aumentaram 9,9%…) e as importações, US$ 59,392 bilhões (mais 13,3%). Neste semestre, comparadas com o mesmo período do ano passado, as exportações aumentaram 0,8% e as importações recuaram 0,6%. O déficit só não foi maior porque as importações não aumentaram. Mesmo assim – e aqui entram o mercado financeiro internacional, os investidores da City de Londres e de Wall Street, onde está o dinheiro que vamos precisar -, o Brasil terá de aumentar o seu endividamento externo para financiar o déficit comercial, o pagamento dos juros, as transferências e, principalmente, as amortizações da dívida externa da ordem de US$ 25 bilhões. No fundo, dizem os analistas da City, o dólar a R$ 2,50 – que teve efeitos internos devastadores nas contas públicas com os juros consumindo 11,27% do PIB – reflete não só os efeitos da crise argentina, mas do déficit em conta corrente.
Enquanto aumentam as dívidas interna e externa e os juros ficam mais altos, permanecemos à espera da política exportadora, da política comercial, que não veio por falta de tempo e não deverá vir neste governo. Foi um tempo perdido. Só, que, ao contrário de Proust, parece que não estamos em busca dele…

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