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SÃO PAULO – O longo processo de desvalorização do real, iniciado em meados de maio, constitui-se no mais longo processo de depreciação da moeda brasileira já ocorrido desde a implantação do Plano Real. Em virtude disto, as conseqüências da alta do dólar estão sendo muito mais pronunciadas do que nos episódios da crise Argentina e até mesmo do período pós-adoção do regime de bandas cambiais.
Embora a transição do modelo de bandas cambiais para a livre flutuação tenha acarretado picos de desvalorização de aproximadamente 61% no primeiro trimestre de 1999, superior, portanto, ao máximo já atingido na crise atual, de 51%, registrados no mês de setembro, em apenas três meses após o anúncio do novo regime, o real já havia registrado uma recuperação substancial.
Ajuste externo está levando economia para novo ponto de equilíbrio
O longo processo de depreciação cambial sofrido pelo real ao longo deste ano está induzindo a economia brasileira a um novo ponto de equilíbrio, ou seja, uma situação de estabilidade onde o nível de preços será mais alto do que o anterior. Um dos sintomas típicos deste fenômeno é a forte alta dos índices de inflação ocorridos nos últimos meses.
A inflação, medida pelo IPCA do IBGE, alcançou a marca de 10,22% no acumulado do ano em novembro, enquanto o IPC da FIPE, que mede variações nos preços no município de São Paulo, atingiu variação de 2,65% em novembro. Em outubro, o IPC-Fipe havia apontado inflação de 1,28%, enquanto em novembro de 2001 a taxa fechada do mês havia ficado em 0,61%.
Alta da inflação reduz desvalorização do real
Para se ter uma idéia exata das oscilações do câmbio é preciso considerar não apenas as variações ocorridas nas taxas nominais, mas também o movimento dos preços nacionais e internacionais. Isto ocorre porque uma desvalorização nominal, ou seja, uma variação da taxa de câmbio de R$ 3,00 para R$ 3,80, por exemplo, pode ser contrabalançada por um aumento nos preços internos.
Uma ilustração simples é pensar como exportador cujo produto custa R$ 3,00. Com a variação do câmbio, o preço do bem exportável cai em dólar de US$ 1,00 para US$ 0,78. Suponha, no entanto, que o impacto dos preços importados decorrentes da desvalorização cambial nos preços nacionais implique a necessidade de um reajuste no preço do bem exportável para R$ 4,00, o que significa um preço em dólar de US$ 1,05, ou em outras palavras, um aumento real de 5%.
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Confira abaixo as oscilações do câmbio real, ano base 1994:
| tx. de câmbio | Inflação | tx. de câmbio real | |||
| Real/Dólar | índice | Brasil | EUA | ||
| 1994 | 0,64 | 100,0 | 100,0 | 100,0 | 100,7 |
| 1995 | 0,91 | 143,2 | 153,0 | 112,0 | 105,6 |
| 1996 | 1,01 | 157,3 | 163,3 | 113,6 | 109,4 |
| 1997 | 1,08 | 168,7 | 170,5 | 114,8 | 113,6 |
| 1998 | 1,16 | 181,5 | 172,9 | 103,9 | 108,9 |
| 1999 | 1,85 | 288,8 | 200,7 | 96,9 | 139,9 |
| 2000 | 1,83 | 286,15 | 233,96 | 103,16 | 126,19 |
| 2001 | 2,35 | 367 | 259,46 | 103,93 | 146,63 |
Inflação: Índices de preços por atacado
Fonte:FGV e Fundo Monetário Internacional
Desvalorizações refletem problemas estruturais brasileiros
A constância de desvalorizações em que o Brasil se submete desde a metade da década de 90 reflete os problemas estruturais brasileiros que atravancam o desenvolvimento da economia. Uma estrutura tributária arcaica, bem como sistema de transporte defasado em relação aos seus competidores estrangeiros, são exemplos de fatores que encarecem o produto brasileiro, diminuindo sua competitividade.
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Maiores exportações podem e devem ser entendidas como uma maior capacidade de importação, o que é essencial para o crescimento econômico. Desta forma, sem maior competitividade, toda retomada do crescimento é seguida por pressões inflacionárias, dada a rigidez da oferta de produtos – aumentos da capacidade produtiva delongam tempo, e inevitáveis crises cambias.
A opção de praxe para se evitar um processo de crise maior é justamente promover as desvalorizações cambiais, cuja maior vantagem é criar, ainda que artificialmente, via perda do poder de compra dos residentes no país, maior competitividade dos produtos nacionais. Este fenômeno fica ainda mais nítido em casos de incerteza política, quando exatamente como ocorrida durante estas eleições, as linhas de crédito para a economia brasileira, que é altamente endividada, caíram, gerando necessidades adicionais de um superávit comercial ainda maior.
Confira o desempenho da taxa de câmbio real ao longo de 2002:
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| tx. de câmbio | Inflação | tx. de câmbio real | |||
| Real/Dólar | índice | Brasil | EUA | ||
| jan | 2,42 | 377,2 | 271,0 | 99,1 | 137,9 |
| fev | 2,35 | 366,2 | 272,0 | 98,9 | 133,1 |
| mar | 2,32 | 362,4 | 272,1 | 99,9 | 133,1 |
| abr | 2,36 | 368,5 | 275,7 | 101,5 | 135,7 |
| mai | 2,52 | 393,3 | 279,6 | 101,5 | 142,8 |
| jun | 2,84 | 443,6 | 284,4 | 101,6 | 158,4 |
| jul | 3,43 | 534,7 | 290,8 | 101,5 | 186,6 |
| ago | 3,02 | 471,4 | 298,0 | 101,7 | 160,98 |
| set | 3,89 | 607,5 | 307,1 | 102,1 | 202,0 |
Inflação: Índices de preços por atacado
Fonte:FGV e Fundo Monetário Internacional
Impacto inflacionário de desvalorizações é inevitável
Uma desvalorização da magnitude que ocorreu ao longo de 2002 tem, em uma economia com as características da economia brasileira, um impacto inflacionário inevitável. A primeira razão para isto é o aumento dos preços de insumos importados, como o petróleo, usados ao longo da cadeia produtiva, o que encarece o produto final.
Além disto, a estrutura oligopolizada da economia brasileira abre espaço para um aumento da margem das empresas, já que a concorrência dos similares importados fica prejudicada pela desvalorização cambial.
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Por outro lado, é também importante lembrar que os preços das principais commodities internacionais estão em recuperação, especialmente as agrícolas, o que, somado aos ganhos de produtividade de um câmbio mais alto, reduz a oferta para o mercado interno, gerando pressões inflacionárias adicionais.
Perigo é reavivar componente inercial da inflação
Um dos maiores desafios a serem enfrentados pelo próximo governo é administrar as perdas geradas pelo processo de desvalorização do real dentro da sociedade. As fortes pressões por recomposição salarial não podem ser traduzidas pela adoção de mecanismos de indexação, o que poderia reavivar o componente inercial da inflação.
A inflação inercial era uma das principais causas da subida dos preços durante o período anterior ao Plano Real. Os mecanismos de indexação repassavam automaticamente o crescimento do nível dos preços para os próprios preços, fazendo com que a inflação do momento fosse o piso para a inflação futura. Este processo ficou conhecido como memória inflacionária.
Situação atual pede resposta firme do governo
O controle do substancial aumento dos índices de preço no último trimestre depende, em sua grande parte, de uma resposta firme do futuro governo, reafirmando o compromisso com a austeridade fiscal e uma agenda ativa de reformas estruturais. Ao contrário da gestão de FHC, marcada pela baixa tolerância à inflação, o próximo governo é interpretado com tolerante com níveis mais elevados de inflação, o que acaba abrindo espaço para o próprio reajuste de preços.
Com isto, uma política de austeridade fiscal, eliminando eventuais excessos de demanda causados por excesso de gastos do governo, bem como uma política monetária definida de controle da inflação, ainda que isto implique numa maior lentidão no corte dos juros, é essencial para realinhar as expectativas de inflação do mercado a uma tendência de queda.