Com um relatório de analista em mãos, o que é preciso para formar uma decisão?

Saber o significado dos termos ali presentes é apenas o ponto de partida; interpretação correta da análise requer alguns cuidados

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SÃO PAULO – O investidor menos experiente, ainda não familiarizado com a rotina dos mercados, pode sofrer até mesmo na busca por maiores informações para o seu processo de tomada de decisão. Por mais simples que possam parecer, alguns relatórios de instituições financeiras utilizam termos e indicadores desconhecidos do grande público, que podem dificultar ainda mais sua análise.

Ao se deparar com um relatório de corretora ou banco de investimentos, há alguns pontos fundamentais para se entender a análise de determinado ativo. Grosso modo, o objetivo dos relatórios é apoiar a decisão, traçando recomendações e ponderando os principais risco de determinado ativo. Para aproveitar ao máximo o conteúdo, no entanto, é essencial focar a leitura em alguns pontos-chave.

> A recomendação
> Uma questão de upside
> Upgrade ou downgrade
> Múltiplos
> Disclosures



O que fazer?

Primeiro de tudo, a recomendação. Geralmente no título das análises, as sugestões variam de compra, manutenção e venda, ou podem vir como underperform, marketperform ou peer-perform e overweight, respectivamente abaixo, na média ou desempenho superior ao esperado para o mercado.

Associar o comportamento do ativo em questão ao restante do mercado é prática comum. Também remete ao que o mercado chama de beta deste papel, que revela a correlação habitual deste ativo com determinado benchmark. Ou seja, se este ativo costuma se movimentar menos (beta 1).

Além da recomendação, estes betas também se associam ao potencial risco do investimento; afinal, um papel com beta elevado tende a potencializar uma tendência negativa do mercado quando ela ocorrer.

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No entanto, é preciso fugir um pouco do rigor da definição. Geralmente, a sugestão direta de compra ou venda não aponta necessariamente o rumo que o investidor deve tomar, mas geralmente apenas classificam ativos com potencial de valorização próximo a 10% (manter/marketperform) para o período em questão, superior a 10% (compra/overweight) ou retorno esperado inferior a 10% (venda/underweight).



Uma questão de upside

Como a recomendação está associada a upside, é preciso entender melhor como é traçado este potencial de valorização esperado para o ativo. Basicamente, o cálculo do preço-justo é obtido a partir da soma dos fluxos de caixa futuros esperados trazidos a valor presente, o que pressupõe que a empresa vale “hoje” o resultado de suas projeções para seus fluxos de caixa futuros.

O preço-justo da ação relaciona-se ao valor intrínseco da empresa, ou o verdadeiro valor da companhia, considerando fatores tangíveis e intangíveis. Por outro lado, aquele “hoje” citado acima remete à diferença entre preço-justo e preço-alvo.

Enquanto o preço-justo traz as projeções (de receita, geração de caixa, despesas, etc…) para a empresa para o valor presente, o preço-alvo desconta estes valores para um prazo à frente, geralmente de 12 meses ou final do respectivo ano, assumindo que o movimento do mercado e as projeções do analista irão convergir durante este período. A diferença entre o preço das ações no momento e este preço projetado para o futuro é o potencial de valorização do ativo.



Quando varia uma recomendação

Os casos de atualização ou mudança na recomendação exigem atenção extra. Intuitivamente, o mercado interpreta uma revisão para cima de recomendação como sinal de melhores expectativas dos analistas em relação àquela empresa. No entanto, é preciso cuidar se esta alteração segue uma atualização do modelo de projeções, que indica uma melhora de fundamentos para a companhia, ou apenas uma melhora no upside.

Neste último caso, esta perspectiva de maior potencial de valorização muitas vezes é gerada por uma desvalorização recente do papel, o que tende a ampliar o gap entre o preço-alvo estipulado pelo analista e o valor atual da ação. Neste sentido, a melhor recomendação é uma questão de momentum do ativo, necessitando de uma análise mais criteriosa por parte do investidor se seu objetivo é uma aplicação de prazo mais dilatado.

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Por outro lado, uma revisão no preço-alvo ou preço-justo minimiza este efeito de momentum. Pela definição dos dois conceitos, uma atualização nesta projeção para a ação necessariamente envolve uma mudança nas premissas envolvidas em seu cálculo; ou seja, uma revisão de fundamentos e/ou de cenário de atuação.



O segredo dos múltiplos

Toda esta ciranda visa apoiar a decisão do investidor. Tiradas as conclusões do analista, é preciso um olhar sobre seus argumentos. Essencialmente, a análise fundamentalista lista alguns indicadores mais comumente utilizados nos relatórios.

Com tudo se trata da possibilidade de retorno, é essencial saber se a ação pretendida está cara ou barata para ser comprada. Sendo assim, uma boa proxy desta conclusão é oferecida pelo P/L (preço da ação sobre o lucro projetado para a empresa por determinado período) ou o EV/Ebitda (o valor da empresa, descontado do nível de endividamento, em relação ao seu Ebitda -geração de fluxo de caixa) não só do ativo em questão, mas também de seus chamados “pares de mercado”.

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Viés

Antes mesmo de entender melhor os relatórios de análise, o investidor deve se atentar para questões básicas, como seu perfil, sua aptidão para tomar risco, o prazo e objetivo de investimento e até mesmo a afinidade com o setor em questão.

Antes mesmo de ler o relatório, uma dica trivial é reservar uma parte da atenção aos disclosures, aquelas considerações em letra pequena no final de todo relatório. Nunca é demais lembrar que as instituições que sugerem papéis também os negociam, e qualquer evidência de imparcialidade é sempre bem-vinda.



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