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SÃO PAULO – O ciclo de queda da Selic, iniciado em janeiro deste ano, já resultou em muitas mudanças no posicionamento dos investidores em relação à renda fixa. Porém, se no início as dúvidas de investimento mais comuns comparavam os retornos entre títulos pré-fixados e pós-fixados, a questão agora é como fugir da redução geral dos retornos dessa classe de ativos.
Algumas mudanças já podem ser percebidas na composição das carteiras administradas, que mudou bastante no último ano, conforme dados da Anbid. A exposição a títulos públicos federais, por exemplo, passou de 42,82% em junho de 2008 para 40,75% em maio deste ano. Em compensação, as alocações em CDB (Certificado de Depósito Bancário) passaram de 11,53% para 12,45% no mesmo período.
“Com retorno cada vez mais baixo nos ativos de renda fixa e com essa discussão de os ativos de renda fixa ganharem ou não ganharem pós-imposto de renda na poupança, ou seja, do ativo mais livre de risco que tem, é natural que os participantes partam para mais risco para ter esse retorno”, explica Damont Carvalho, head de renda fixa da Fator Administração de Recursos.
Tendência ao risco
A Fator Administração de Recursos projeta a taxa Selic girando entre 8,5% e 9,5% ao ano durante muito tempo. Com isso em mente, Carvalho explica que o Brasil conseguiu conquistar uma taxa de juro real muito baixa também no médio prazo, de forma que os ativos de risco são atrativos não só no curto prazo.
“Então você tem um primeiro movimento da busca por ativos de risco e depois você vai ter uma concentração desses ativos fazendo parte do portfólio de todo investidor”, explica o gestor, acrescentando que “o grau de risco do investidor vai subir porque ele será obrigado a buscar um pouco mais de risco para continuar a ter um retorno atraente”.
Na escala de risco, de acordo com Carvalho, a primeira etapa é haver uma maior procura por crédito privado, algo natural já que as próprias empresas estão voltando a captar no mercado de crédito, impulsionadas pelo retorno da liquidez e pela forte demanda. A segunda etapa seria a migração para fundos agressivos de multimercado, que também têm tido alta procura na Fator Administração de Recursos. Por fim, a última etapa seria o aumento da participação das ações nas carteiras.
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Em relação à possibilidade de utilizar operações sintéticas (estrutura montada com derivativos cujo retorno é uma operação de renda fixa) para fugir da redução da Selic, Carvalho acredita que pode ser um possibilidade, mas ressalta que esse tipo de operação necessita de um determinado momento de mercado para ser montada. “Esse retorno dessas operações pode ser maior do que o CDI ou do que uma LTN esperada para o mesmo período. Mas para a grande maioria dessas operações existir, você precisa ter uma certa arbitragem no mercado”.
Juros reais e ativos de crédito
Marcio Appel, diretor da Safra Asset, também comenta a maior busca por risco. Segundo ele, ao longo deste ano, “os clientes estão privilegiando produtos que tenham uma predominância na carteira de crédito privado e também aplicações em produtos de multimercado”. Ademais, a Safra se mostra confiante em investimentos em juros reais.
“Hoje você tem excelentes nomes pagando um spread de crédito interessante. A Vale, por exemplo, que hoje está marcado a mercado na faixa de 140% do CDI, é já um spread mais atraente do que você tinha há dois anos”, argumenta Appel, avaliando que “nomes de primeira linha seguem oferecendo bons retornos”.
Para não correr risco
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Um outro movimento que pode ser visto na análise dos dados da Anbid é o aumento da exposição a operações compromissadas com lastro em títulos públicos federais, que passou de 11,99% em junho de 2008 para 17,39% em maio deste ano. Ao contrário da tendência de busca por risco, entretanto, esse movimento é uma fuga para operações mais seguras.
“Como nós achávamos que os títulos públicos tinham pouco prêmio, achávamos que não valia a pena correr o risco por um prazo mais longo. Então nós substituimos por operações de menor risco, que são as operações compromissadas”, explica Márcio Appel. Porém, segundo ele, isso tem mais a ver com o baixo prêmio dos títulos públicos do que com a queda da Selic propriamente dita.