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SÃO PAULO – O pós-crise trouxe um cenário bastante diferente para a economia brasileira, que, apesar de não ter passado incólume, se viu como uma das últimas a entrar e primeiras a sair da parte mais turbulenta do processo. Com a demanda interna em alta, o crescimento do País se acelerou enquanto as economias desenvolvidas ainda tentam caminhar sozinhas, colocando o País em uma posição nova no cenário global.
Uma trajetória semelhante foi traçada pela Tupy (TUPY3, TUPY4) nesses dois últimos anos. A empresa, que antes exportava grande parte de sua produção, viu-se obrigada a se direcionar para o mercado doméstico, além de focar sua produção no fornecimento de peças para o setor automotivo.
As mudanças acabaram se mostrando positivas para a empresa. Nos primeiros nove meses de 2010, o lucro da companhia mais do que dobrou, passando de R$ 53,797 milhões para R$ 122,8 milhões – só no terceiro trimestre, o avanço na base anual foi de mais de 530%. Os volumes físicos de vendas da empresa também avançaram 66% até no ano setembro.
No mercado de capitais, não foi diferente. Apesar da liquidez limitada, os ativos ON e PN da companhia encerraram 2010 com ganhos de 104,98% e 81,16%, nessa ordem. Entretanto, a Tupy ainda não tem uma estratégia definida para seu caminho no mercado acionário, como explica Luiz Tarquínio Sardinha Ferro, presidente e diretor de Relações com Investidores da empresa à InfoMoney. Leia a seguir a entrevista com Tarquínio, que aborda a visão da Tupy sobre o câmbio, sua atuação no mercado, perspectivas e os planos de ser listada no Novo Mercado.
InfoMoney – A Tupy atua hoje em quantos países?
Luiz Tarquínio Sardinha Ferro – Isso depende do que você avaliar. Se pegarmos tudo o que vendemos, são aproximadamente 40 países. Focando em atividades automotivas, que é nosso negócio principal, diria que temos presença representativa em cerca de 10 países. Já as manufaturas são as duas no Brasil.
Há planos de expandir essa área de atuação?
Nunca estamos de olhos fechados. Até hoje não houve uma condição favorável para esse tipo de projeto. Não podemos perder de vista que a Tupy passou por um processo de reestruturação operacional e financeira na década passada. Temos hoje uma situação saudável, tranquila do ponto de vista econômico e financeiro. Se temos planos de expansão? Temos investimentos em implantação no Brasil dentro das nossas próprias operações. Por hora, é nisso que estamos trabalhando.
De 2009 para 2010, os investimentos da Tupy avançaram. Isso deve se repetir em 2011?
Esse é um assunto que está em fase final de aprovação pelos acionistas e pelo Conselho de Administração. Não posso falar de números. Mas a Tupy continuará a fazer investimentos na medida em que forem necessários. Não devemos perder ímpeto em relação ao que fizemos em 2010.
O foco é em novas linhas de produção ou manutenção de linhas já existentes?
Temos um fluxo permanente dessa parte de sustentação, mas não só manutenção: você tem adaptações técnicas das plantas para fazer produtos novos que estão surgindo no mercado – produtos com paredes mais finas, que exigem determinados dispositivos porque são mais frágeis. Vivemos hoje uma transição tecnológica dentro daquilo que a gente faz, que exige que eu adapte a minha fábrica. Também há investimentos em meio ambiente, em manutenção no sentido mais tradicional, coisas que têm que ser feitas periodicamente, independente da sofisticação tecnológica.
O que motivou o salto dos investimentos em meio ambiente de 2009 para 2010?
Um dos nossos principais insumos é areia – os moldes que usamos para vazar ferro líquido e produzir peças de ferro fundido são feitos à base de areia. E você pode descartá-la ou regenerar o subproduto disso. Na planta de Mauá, não tínhamos um processo de regeneração de areia, e agora isso foi implementado lá. Descartar é muito caro, porque você perde alguns subprodutos, e porque isso deve ser descartado em um aterro longe da planta – gastando com transporte e com o aterro em si. Então é um investimento que nos traz retorno.
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E quanto à linha para produção de cabeçotes e pequenos blocos de motores?
Os equipamentos que utilizamos aqui são até certo ponto flexíveis. Então determinadas linhas de produção podem ser usadas tanto para a produção de componentes que não são aplicados no trem de força – ou seja, o motor – quanto para aqueles que são vinculados ao motor.
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“Uma das linhas que retomamos foi concebida |
Uma das linhas que retomamos a implantação agora foi concebida inicialmente para produzir peças não ligadas a motor, mas estamos planejando utilizar também para esse tipo de produto para responder à demanda, que está superaquecida. A demanda no mercado brasileiro e a recuperação do mercado norte-americano – que tem aparecido nos nossos clientes – está bastante forte. Então essa linha, que foi concebida originalmente para outra coisa, também será usada para produção de blocos e cabeçotes, e deve entrar em produção no primeiro quadrimestre, já rodando bem.
Com esse superaquecimento do mercado doméstico, quanto das vendas fica por aqui?
Algo como 55% fica no mercado interno e 45% é exportado. Isso compreende a parte automotiva e não automotiva da Tupy – hoje, cerca de 15% da receita advém de itens não vinculados a veículos, principalmente conexões de ferro, que são usadas em sistemas de gás e incêndio, na construção civil, na indústria.
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Qual a sua expectativa para os mercados externos?
O mercado norte-americano está mostrando bons sinais de recuperação. Bem verdade que nosso principal cliente é baseado nos EUA mas exporta por todo o mundo. Nossos clientes nos dão evidências de que o mercado norte-americano, especialmente o segmento de caminhões pesados, vem com uma força grande de recuperação. Você tem um processo de envelhecimento de frotas, você tem a recuperação da economia, ainda que com incertezas. A Europa, eu acredito que vai continuar andando de lado, quando muito uma recuperação muito tímida. Acredito mais numa recuperação nos EUA do que na Europa.
E as perspectivas no Brasil?
A economia vai crescer bem menos do que nos últimos dois anos, mesmo devido ao problema de inflação e a retomada do ciclo de elevação da taxa de juro. Devemos ter uma tentativa de domar o crescimento econômico – que deve acabar sendo domado, porque o Brasil não tem condições ainda de crescer anos seguidos em taxas como as do ano passado.
Mas o País vai continuar crescendo, e as perspectivas são positivas. Vamos ver o que vai acontecer depois desse aumento da taxa de juro, especialmente no caso dos veículos de passeio, que é onde enxergamos um potencial maior para desaceleração. Mas isso não significa dizer que o ano não vai ser bom – estamos otimistas com o mercado brasileiro.
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E como o câmbio está afetando a empresa?
Nós já operamos com taxas de câmbio inferiores à que temos hoje, mas é óbvio que câmbio valorizado é ruim para o nosso negócio. O que é bom é observar que o mercado brasileiro está crescendo e eu consegui me aproveitar disso – antigamente, a Tupy era majoritariamente exportadora, hoje a exportação é menor, ainda que muito significativa, dentro do negócio. Torcemos para que o mercado doméstico continue a crescer, e que nós consigamos dirigir as vendas para os clientes brasileiros.
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“Gostar [do câmbio], eu não gosto. |
A exportação é um elemento muito importante para nós, porque o contato com os clientes externos permite o entendimento de para onde vai a indústria, é onde se desenvolve a tecnologia. E nós, como uma empresa que desenvolve tecnologia própria dentro dos processos, precisamos entender o que está acontecendo lá fora.
Eu acredito que o fortalecimento da moeda brasileira é um processo natural, e precisamos aprender a lidar com isso. Gostar, eu não gosto. Mas não é um problema maior do que as dificuldades de logística que nós temos, carga tributária, infraestrutura insuficiente, e por aí vai.
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Acredito que se o Brasil aperfeiçoar o seu ambiente de negócios vamos conseguir lidar com isso de um modo melhor. Só não podemos ficar no pior dos mundos no longo prazo – alguma coisa tem que mudar para o melhor dos mundos, como a carga tributária. Resolvidos esses aspectos, o câmbio fica menos importante do que ele é hoje para os exportadores.
A falta de logística é um gargalo para a Tupy?
Não, nós conseguimos andar razoavelmente com isso. Mas não dá pra dizer que os portos do Brasil sejam uma coisa maravilhosa, assim como as estradas. A eficiência e o custo dessas coisas poderiam ser muito menores. Já houve momentos num passado não muito distante que era uma batalha por um espaço em navio, por exemplo. É um gargalo para o País.
O real em alta fez com que vocês interrompessem a produção de algum produto?
Têm algumas linhas de produtos que exportávamos, ou vendíamos para clientes brasileiros que reexportavam, que deixamos para trás. Paramos de exportar componentes de freio para os EUA. Essas coisas menos complexas, e às vezes sujeitas a uma competição desenfreada – dos chineses, por exemplo – nós largamos. Há situações em que você entrega os anéis, mas mantém os dedos.
Há estudos para descontinuar outra linha de produtos?
Não. Hoje temos um foco, estamos nos nichos onde temos mais conhecimento, mais engenharia, mais experiência, que exigem mais investimento. Focamos onde a barreira técnica é alta – ou seja, onde você não consegue se estabelecer sem conhecimento de engenharia, porque afinal, a Tupy investiu décadas nisso. E onde é mais caro investir – você precisa ter atributos técnicos e financeiros substanciais para se aventurar nesse nicho de fundição.
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“Temos uma estratégia clara: |
Fundição é um negócio complicado de administrar, o investimento é alto – você não faz uma fundição com uma escala razoável com menos de US$ 100 milhões de investimento fixo. E tem que saber operar. Na China, você tem diversas fundições com equipamentos state of the art – mas não tem quem opere, e não é um conhecimento que se adquire facilmente.
Temos uma estratégia clara: vamos por onde não é fácil fazer e onde é caro investir. O mais importante é foco.
A China é a principal concorrente?
Não. As principais concorrentes são fundições brasileiras, mexicanas, alemãs, espanholas. Os chineses ainda estão muito entretidos no suprimento do seu próprio mercado.
Em 2008, o Sr. afirmou que alguns os principais desafios eram estruturar a empresa do ponto de vista operacional, dar atenção a oportunidades do mercado mundial com possível investimento no exterior. Qual a sua avaliação do progresso da Tupy nesses quesitos desde então?
Até o final de 2007, tínhamos uma empresa que tinha um futuro interessante, mas que ainda se tinha um volume de dívida substancial, apesar de muito progresso nesse endividamento. No final de 2007, os acionistas resolveram converter uma parte significativa das debêntures que eles tinham em capital. Tomada essa decisão, nós ficamos em uma posição muito interessante. Os acionistas não tomaram essa decisão somente no propósito de resolver essa questão, mas de dar condições à companhia de crescer.
Mas a agenda muda. O driver do nosso crescimento era a exportação – e ela deixou de ser o driver, para a surpresa de muitos. Apesar de não ter sido a “marolinha”, o Brasil sofreu muito menos com a crise.
Tivemos esse intervalo forçado pela crise, e agora estamos voltando, com a boa surpresa de que as perspectivas para o mercado brasileiro são muito boas, e a Tupy está bem posicionada para crescer junto com alguns setores, como construção civil, agricultura, infraestrutura. A Tupy é uma empresa focada no fornecimento de componentes para elementos crucias nesse aspecto: caminhões, máquinas agrícolas e de construção, etc. Nós não apenas passamos rápido pela crise – o Brasil e a Tupy, já que nossa perspectiva para o resultado de 2010 é favorável -, e com uma perspectiva favorável em relação ao mercado interno, que hoje é a principal fonte de demanda da companhia.
Acredito que saímos melhores dessa crise. Não digo que a crise foi boa, mas o resultado final é positivo, no sentido que fez emergir o mercado doméstico como principal fonte de esperança para a Tupy.
Como estão progredindo os planos da empresa de entrar no Novo Mercado?
Isso é uma coisa que já falamos com os acionistas, mas não há uma decisão sobre o assunto. A minha leitura é que os atuais controladores – BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e Previ – são naturalmente propensos a esse tipo de coisa. Acredito que em médio prazo, é possível que eles apoiem um projeto nesse sentido. Mas depende de uma decisão deles, e até agora não existe decisão.
Por que a empresa decidiu grupar as ações? A medida teve os resultados esperados?
É algo muito simples. A Tupy era uma das últimas empresas ainda negociadas por lote de mil. Aí a Bovespa começou a nos sugerir esse grupamento, e acabamos fazendo. O objetivo foi atender a orientação da bolsa. As questões de liquidez da Tupy precisam ser resolvidas de outra forma – e isso diz respeito a esse assunto que acabamos de falar.
A companhia cogita a contratação de um formador de mercado para aumentar a liquidez de suas ações?
Precisamos de uma decisão dos acionistas. A decisão que eles tomarem em relação a essa questão vai determinar a estratégia, e isso vai determinar os planos. Nunca discutimos planos a respeito disso [a contratação de um formador de mercado]. Eu acredito que precisamos fazer isso, o BNDES e a Previ são por sua própria natureza investidores que em algum momento vão querer ter a opção de sair, e ter liquidez nas ações a qualquer momento é uma coisa necessária. A Previ, por exemplo, é uma entidade que tem limitações legais em relação a participações que ela pode ter em uma sociedade anônima – e, no caso específico da Tupy, ela tem mais do que poderia – então há questões de enquadramento.
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“Eu acredito que precisamos |
E seria um objetivo nobre não só pelas questões específicas dos acionistas, mas para a Tupy ter o mercado de capitais como um companheiro em seus projetos futuros. É importante que pensemos nisso de uma forma estruturada. Mas planos, só depois de definido o objetivo estratégico [quanto à liquidez das ações da companhia].
E não há uma previsão para essa decisão?
Não, nessa direção não.
Como a empresa avalia a forte alta de suas ações no último ano? O que teria motivado o avanço de mais de 75% dos ativos PN e 100% das ações ON?
Eu acho que são duas coisas: a primeira são os resultados. O segundo aspecto é que a Tupy é uma empresa bem posicionada para aproveitar os benefícios que se espera do crescimento futuro da economia brasileira. A Tupy tem um foco grande no fornecimento de componentes para veículos comerciais – blocos e cabeçotes para motor de caminhões, tratores, outras máquinas agrícolas e de construção -, que são segmentos da economia que têm uma expectativa de grande crescimento no Brasil. Há uma necessidade de grandes obras de infraestrutura – e isso vai exigir caminhões para transporte na fase de construção, e quando a infraestrutura estiver pronta, você vai ter trânsito de veículos, como um caminhão que vai transportar contêineres no porto, por exemplo.
Você tem as perspectivas para o crescimento da agricultura no Brasil, o desenvolvimento econômico de forma geral, a ascensão da classe média. E a Tupy está bem posicionada para isso. Então aumentou o interesse da comunidade investidora em acompanhar e conhecer a empresa – como diretor de RI, tenho uma demanda forte de pessoas querendo saber mais sobre a companhia.
| Conheça mais sobre a Tupy |
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A empresa A companhia também produz conexões de ferro maleável para tubulações, granalhas de aço para limpeza de superfícies e corte de mármore e granitos, e perfis contínuos de ferro para uso industrial. A empresa tem fábricas em sua cidade sede e também em Mauá, com capacidade produtiva anual de 500 mil toneladas e cerca de 7.500 funcionários. A expectativa é que a capacidade da companhia seja elevada em até 140 mil toneladas até 2012. |
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Ações Os acionistas controladores da Tupy são o BNDESpar (empresa de participações do Banco Nacional de Desenvolvimentos Econômico e Social) e a Previ (Caixa da Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil), que detêm, respectivamente, 35,57% e 35,61% do capital da companhia. Os demais acionistas incluem a Telos (13,22%), o Aerus (8,26%), o Bradesco (3,27%) e a Fator (1,35%), entre outros. |