Com mais fontes de risco sistêmico, periodicidade dos choques deve aumentar

Como lição da crise, Pimco pede revisão nos modelos de risco do mercado e vê pouca efetividade em reforma regulatória

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SÃO PAULO – Esta crise ficou marcada por sua rápida disseminação. Problemas a primeira vista restritos às hipotecas atingiram o setor financeiro instantaneamente, este que tratou de espalhar os choques para o restante da economia. É o chamado risco sistêmico, o risco comum às diversas qualidades de ativos.

Neste caso, uma ameaça implicaria perdas para todas as classes de ativos, comprometendo a efetividade da diversificação. Ou seja, é mais difícil para o investidor se proteger e identificar as ameaças de risco sistêmico. Pelo choque que abateu os preços dos ativos, esta crise deixa como lição exatamente este ponto, de que é preciso repensar a forma do investidor interpretar e lidar com as possibilidades de risco sistêmico.

Grosso modo, a teoria de finanças considera o risco atrelado a alguma aplicação com algo muitas vezes estático, associado à probabilidade daquela alternativa oferecer retornos que desviam da média – sua volatilidade. No entanto, Michael Spence, da Pimco – maior gestora de títulos do mundo -, defende uma revisão nos modelos de risco atuais.

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Horizonte mais distante

As análises geralmente reservam maior atenção aos riscos estacionários e ligados diretamente à classe do ativo ou setor. A dificuldade de se incorporar os riscos sistêmicos vai muito da imprevisibilidade destes choques. Spence cita que, “lutar contra os riscos sistêmicos requer um horizonte temporal mais longo”.

Esta afirmação bate de frente com a percepção atual de risco do mercado. Spence cita que os modelos utilizados por investidores institucionais, por exemplo, consideram os riscos estáticos e muitas vezes refutam esta avaliação de tempo mais abrangente. Outra questão preocupante citada pelo estrategista diz respeito à exposição do grande investidor a ativos ilíquidos e baixa flexibilidade de suas posições.

Os preços

Quando ao impacto que um risco sistêmico pode ter em uma classe isolada de ativo, sobra incerteza. Pela hipótese de mercados eficientes, todas as informações relevantes estarão incorporadas nos preços em algum momento no tempo. Por outro lado, outros argumentam que a formação das bolhas é praticamente indetectável.

Os preços podem indicar não o risco sistêmico em si, mas a exposição do ativo a ele.
Preços justos ou subvalorizados não estão blindados contra desvalorizações diante do estouro de uma crise. Por outro lado, é inegável que quando os retornos parecem anormalmente altos por um período extenso de tempo, eles provavelmente sofrerão um baque bem mais significativo diante de uma ameaça sistêmica.

Um alerta

A tendência é que os riscos sistêmicos venham em uma crescente nos últimos anos, pelo grau de internacionalização das instituições financeiras e do setor produtivo, o que aumenta a ameaça de choques mais constantes nos preços dos ativos. Com este debate em pauta, as autoridades elaboram uma reforma regulatória no sistema, como maneira de prevenir esta ameaça.

No entanto, Spence acredita que o potencial desta reforma é muito limitado, pela velocidade de inovação das ferramentas financeiras, que tenderão a se adaptar a eventuais restrições com o surgimento de novas inovações. Fica um alerta: “as dimensões internacionais e fontes de risco sistêmico estão crescendo e temos capacidade limitada, ou nenhuma, de lidar com elas”.