Com imagem fortalecida, Brasil busca confirmar ascensão em 2010

Analistas projetam crescimento forte; estratégias de saída globais e retomada dos investimentos são temas de destaque

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SÃO PAULO – Após um ano marcado pela superação da crise, o Brasil busca confirmar sua ascensão econômica em 2010, em meio a projeções de forte crescimento e inflação controlada. No início da nova década, o “país do futuro” tenta se fazer presente no palco global.

Unanimidades sempre trazem a decepcionante imagem da estupidez coletiva, com seus erros grosseiros. Não por menos, existe um temor escondido nos que leem as recentes manchetes estrangeiras, dando destaque a um país que se acostumou apenas a ter um futuro promissor.

Mas a decolagem do Brasil, como apresentado na capa da revista The Economist em novembro de 2009, embora seja quase um lugar comum desde que o Rio de Janeiro foi escolhido para sede olímpica em 2016, também tem amplo respaldo no pensamento de analistas de mercado.

As pedras no caminho
Juro básico e inflação: confiança na estabilidade
Projeção de crescimento: acima ou abaixo do potencial?
Mantendo o fluxo positivo


Projeções 2010
 Expansão PIB (%)  Câmbio real/dólar  Taxa Selic(%)   IPCA (%) 
Consenso de Mercado 5,08 1,75 10,75 4,50
Ativa Corretora 5,5 – – 4,7
BofA Merrill Lynch 5,3 1,62 8,75 4,2
Credit Suisse 6,5 1,60 10,25 4,0
Link Investimentos 5,0 1,80 11,25 4,3
Banco Central 5,8 1,75 – 4,3

As pedras no caminho

Embora favorável, é inegável que a trajetória esperada é pontuada por riscos – embora frequentemente negligenciados por alguns analistas. Ainda que o Brasil tenha se mostrado menos vulnerável a abalos externos em 2009, a retomada nos países desenvolvidos permanece como uma variável importante.

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Segundo a corretora Link, mesmo com o frágil mercado de trabalho e o aperto no crédito, os EUA deverão “apresentar um crescimento econômico moderado”, enquanto a zona do euro emergirá da recessão com expansão do desemprego. “Já as economias emergentes devem viver dias bastante eufóricos”, completou.

Estratégia de saída
A outra face desta moeda será o modo como as autoridades globais lidarão com a retirada dos estímulos fiscais e monetários – em que boa parte da recuperação atual se apoia.

“O ritmo da retirada dos estímulos monetários será importante em 2010, (…) mas a liquidez continuará ampla durante o primeiro semestre de 2010”, apontaram os analistas do Danske Bank.

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Alguns velhos conhecidos brasileiros também recebem atenção, como o controle do apetite governamental em um ano de eleições, após o crescimento da dívida bruta alarmar a muitos no mercado.

Mesmo que o expansionismo fiscal se mantenha em 2010, a recuperação econômica elevará a arrecadação do governo, “o que dará maior sustentação aos gastos”, afirmou a equipe da corretora Link.

Juro básico e inflação: confiança na estabilidade

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É evidente que o Brasil passou por um importante amadurecimento institucional desde a redemocratização, assim como é inegável o papel de destaque exercido pelo Banco Central no período, consolidada a sua autonomia de fato.

Assim, mesmo sob o risco da desvinculação de Henrique Meirelles da presidência do BC, a expectativa é que a instituição mantenha sua linha de atuação prudente, calcada nas metas de inflação.

Com isto, a partir do segundo semestre de 2010 a taxa básica de juro deverá voltar a subir, após atingir sua mínima histórica com os atuais 8,75% ao ano. Segundo a última versão do relatório Focus, a mediana das projeções do mercado aponta para uma taxa de 10,75% ao ano.

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De acordo com a equipe econômica do Credit Suisse, a leve elevação se dará “em consequência do aumento do risco inflacionário associado a um crescimento da demanda agregada bem acima da sua média histórica”.

Dificuldades
Aparentemente, o Banco Central terá mais trabalho que em 2009 para conduzir a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) ao centro da meta, em 4,5%, em reflexo à aceleração já vivenciada neste fim de ano.

Ainda assim, deverá permanecer sob controle. “Vale destacar, ainda, que pairam muitas dúvidas acerca da recuperação dos preços de commodities”, ressalva a corretora Ativa, com sua severa leitura sobre a curva de juros. “Acreditamos que, a priori, será necessário 350 pontos-base”, o que corresponde a uma elevação para 12,25% ao ano.

Mas há quem discorde. “Não tomamos uma elevação da [taxa] Selic em 2009 como garantida”, pontua o BofA Merrill Lynch, que destoa do mercado e projeta a manutenção do atual patamar ao longo do próximo ano, com base na expectativa de inflação significativamente abaixo do centro da meta e a desaceleração do crescimento para um nível mais próximo ao de equilíbrio.

Projeção de crescimento: acima ou abaixo do potencial?

Enquanto projeções mais longas apontam um papel de destaque nas próximas décadas para a economia brasileira, o consenso entre os analistas sugere uma vigorosa expansão do PIB (Produto Interno Bruto) no próximo ano.

Para surpresa de muitos, o Banco Central esboçou otimismo com sua projeção de até 5,8% de crescimento do produto. Mais contido, o mercado aponta elevação de 5,08% segundo o relatório Focus.

Ao que parece, a grande discussão é se o crescimento ultrapassará, ou ficará aquém do potencial, impulsionado pela expansão da renda e do crédito. “As perspectivas de crescimento da economia brasileira em 2010 contam com uma forte recuperação da indústria, do consumo e dos investimentos”, afirmou a Link, para quem o último fator deverá acompanhar a retomada da confiança dos empresários.

Já a Ativa vê com maior urgência o processo: “O ritmo da atual recuperação e da produção industrial indica que há uma necessidade da retomada do processo de investimentos que foram interrompidos nos últimos meses”, disse sua equipe em relatório.

Fomento
Espera-se que os investimentos também sejam facilitados pelo destravar do financiamento privado livre, após um ano de 2009 marcado pela forte atuação do setor público para evitar o congelamento do mercado de crédito. Mas engana-se quem pensa que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) deixará de ter destaque.

“As concessões do BNDES se tornam ainda mais relevantes como antecedentes de investimentos”, salientou a Ativa Corretora.

Mantendo o fluxo positivo

Não menos importante que outras variáveis macroeconômicas, o câmbio deve seguir apreciado em 2010. “Atribuímos uma probabilidade maior de o câmbio continuar se apreciando no curto prazo”, apontou a equipe do Credit Suisse.

Neste cenário, o déficit em transações correntes deverá crescer em 2010, sendo financiado em boa parte pelo investimento estrangeiro direto – “com certa facilidade”, aposta a Link Investimentos, outra a ver maiores chances de apreciação no curto prazo, com a ressalva de incremento da volatilidade por conta das eleições.

“Em uma perspectiva de prazo mais longo, o fluxo positivo de IED (Investimento Estrangeiro Direto) e comércio devem permanecer fortes e ancorar a taxa de câmbio”, aponta o Bank of America Merrill Lynch.