Com foco voltado para Europa, bolsas externas operam sem tendência

Com dissipação de preocupações mais urgentes com Líbia e Japão, crise da dívida na UE volta ao radar, com atenção para Portugal

Publicidade

SÃO PAULO – Após um pregão de moderada realização de lucros, as principais bolsas na Europa não mostram tendência definida nesta quarta-feira (23). Seguindo pelo mesmo caminho, os futuros norte-americanos, que apresentavam alta no início da manhã, inverteram a e operam no campo negativo.

A menor atenção dada aos desdobramentos do terremoto seguido de tsunami no Japão e mesmo aos conflitos na Líbia abriu espaço para que a crise da dívida nos países periféricos da Zona do Euro voltasse ao foco do mercado. A complicação do cenário é mais evidente em Portugal. Nesta quarta-feira, deverá ter lugar votação do PEC (Programa de Estabilidade e Crescimento), que prevê cortes de gastos e congelamento de pensões, entre outras medidas, para segurar o déficit orçamentário do país.

A proposta prevê cortar o déficit público para 4,6% do PIB (Produto Interno Bruto) este ano, de um valor de 7% do PIB registrado em 2010. A oposição ameaça votar contra o projeto, e primeiro-ministro português, José Sócrates, já sinalizou que irá renunciar caso isso ocorra. 

A crise política estabelecida faz com que os juros da dívida pública portuguesa marquem forte alta, refletindo o receio dos investidores de que será inevitável que Portugal peça resgate financeiro à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional. Paul Donovan, economista do UBS, nota que o pedido poderia vir a ocorrer já durante reunião da UE que será realizada entre os dias 24 e 25 de março. 

Nem só Portugal preocupa
O Danske Bank lembra que não é só Portugal que está em foco. A pressão se dá também na Irlanda, já que credores sêniores da dívida do país ainda não sabem se terão que arcar com perdas como parte da operação de resgate. Além disso, a decisão de postergar a resolução de como será financiado o aporte adicional no EFSF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) adiciona incertezas a um cenário já pouco claro. 

Para completar, a agência de classificação de risco S&P declarou em relatório que os bancos europeus precisariam levantar US$ 355 bilhões adicionais em caso de uma severa contração econômica e disparada dos yields (retorno) dos títulos públicos dos países da Zona do Euro. 

Continua depois da publicidade

No Reino Unido, a ata da última reunião do comitê de política monetária do BoE (Bank of England) mostrou que a divergência continua, com três dos nove membros optando por aumento na taxa básica de juros e outro por um incremento no programa de compra de ativos.

Vale lembrar que os membros votaram pela manutenção da taxa básica de juro em 0,5% ao ano e mantiveram o programa de compra de ativos em £ 200 bilhões. Andrew Sentance votou por um aumento em 50 pontos-base na taxa, enquanto Spencer Dale e Martin Weale indicaram uma elevação de 25 pontos-base. Quanto ao programa de alívio quantitativo, apenas Adam Posen apresentou alguma divergência, ao indicar um aumento em £ 50 bilhões.

Discurso, agenda e petróleo
Miriam Tavares, diretora de câmbio da AGK Corretora, destaca também o petróleo como um dos pontos que devem ser monitorados neste pregão, “uma vez que os combates na Líbia e a turbulência política no Oriente Médio mantêm os preços sob pressão e sem perspectiva de nenhum alívio no curtíssimo prazo”, avalia. 

Continua depois da publicidade

Nos Estados Unidos, destaca-se o discurso que o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, fará para a Comunidade Independente de Banqueiros na América, em San Diego, quando deverá abordar o sistema financeiro em tempo de recuperação e mudanças. Embora esse seja o tema do painel, o Danske Bank acredita ser provável que Bernanke enfrente também questões sobre a economia e a política monetária. Na agenda, a atenção deve concentrar-se na venda de novas moradias e nos estoques de petróleo. 

Por aqui, Miriam Tavares acredita que o Ibovespa deverá acompanhar o rumo de Wall Street, mas destaca que a divulgação do IPCA – 15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que funciona como uma prévia do índice para o mês cheio, poderá impactar no mercado de juros futuros. 

Além disso, o Indicador de Atividade Econômica (PIB Mensal) da Serasa Experian apontou avanço de 0,6% em janeiro deste ano frente ao mês imediatamente anterior, já descontadas as influências sazonais. Em relação ao mesmo mês de 2010, houve crescimento de 5,4% no primeiro mês deste ano.