Com empresas falando em ofertas de ações, é hora de voltar a pensar em IPOs?

Analistas discordam sobre cenário, mas concordam que possibilidade de retomada das ofertas iniciais é grande

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SÃO PAULO – Os últimos dez dias foram agitados por planos de distribuições de ações de empresas brasileiras. O dia 29 de maio, que deu início a essa nova onda de rumores sobre ofertas, começou com a Natura informando que estuda a possibilidade de realização de uma distribuição secundária. No mesmo dia, a MRV Engenharia anunciou planos de captar até R$ 550 milhões com ofertas primárias e secundárias.

As declarações das duas empresas foram seguidas por um comunicado da Hypermarcas no dia 2 de junho. A empresa, que abriu o capital no início do ano passado, informou que contratou assessores financeiros para avaliar uma possível oferta de ações. E as movimentações nesse sentido não terminam por aí: na última sessão, foi a vez da Gafisa confirmar os planos de realizar uma distribuição, visando uma captação de até R$ 700 milhões.

Toda essa agitação no mercado de distribuição de ações segue o rali da bolsa paulista, que já dura mais de dois meses. Porém, nenhuma delas foi ainda oficializada junto à CVM (Comissão de Valores Mobiliários). O portal da autarquia não acusa nenhum pedido de análise de oferta além do IPO (Initial Public Offer) da Visanet, registrado em 12 de maio.

A volta dos IPOs?

Aliás, embora a melhora do mercado acionário tenha sido acompanhada por planos de follow-on (nova oferta de ações por parte de empresas que já possuem capital aberto), os planos de ofertas iniciais ficaram restritos à Visanet. A instituição havia registrado o primeiro pedido de análise de IPO em 2 de setembro de 2008, que foi suspenso durante a piora da crise.

Da mesma forma que a Visanet, diversas empresas planejaram uma oferta inicial em 2008 – e a maioria delas desistiu. Nomes como Tivit, Locaweb, Banco Bonsucesso, Summer Brasil, Norcon, todos tem uma coisa em comum: suspenderam os planos de abrir o capital devido aos impactos da crise financeira nos mercados acionários. A pergunta que fica é se, com a melhora do humor das bolsas, elas seguirão os passos da Visanet e retomarão as ofertas.

“Eu acho que sim. Porque já tem uma melhora no mercado. Você está vendo há três meses um fluxo de investidor estrangeiro muito forte pra bolsa do Brasil. As ações já estão começando a recuperar os preços. O mercado de crédito está melhorando, mas ainda está complicado. Então já começa a ser uma possibilidade mais viável para as empresas emitirem ações como forma de se capitalizar ao invés de tomar dívida”, responde Hersz Ferman, economista da Um Investimentos.

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De acordo com a análise de Ferman, nada mais lógico do que as empresas que já haviam planejado os IPOs serem as primeiras a procurar o mercado novamente. “Aí depende, se a empresa estivesse abrindo capital para melhorar a estrutura de capital ou poder ficar com mais dinheiro, acho que elas vão voltar. Se for só para poder colocar dinheiro no bolso, vai demorar um pouco mais. Mas acho que tem possibilidade dessas que cancelaram serem as primeiras a voltarem ao mercado”, afirma.

Empresas grandes e consolidadas

Já Luís Felipe Amaral, sócio-gestor de renda variável da Equitas Investimentos, acredita que o mercado não estará aberto a todas as empresas. Ao invés disso, no curto prazo o movimento será bem seletivo, favorecendo companhias bem consolidadas no mercado, com escala e diferencial competitivo claro.

“Nesse caso, certamente terá uma janela de oportunidade em função da melhora do cenário”, afirma Amaral. “Eu acredito que tem espaço para, de fato, a Visanet. Ou empresas que ofereçam de cara liquidez. Empresas bem conhecidas, com vantagem competitiva. Esses nomes menores, não acredito que vá ter ofertas logo”, acrescenta.

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Segundo ele, para que as empresas menores voltem a abrir o capital, é necessário uma estabilização mais prolongada do cenário, que ainda é muito incerto. A melhora do desempenho das bolsas foi baseada mais em dados de confiança do consumidor do que em dados concretos da economia – os sinais de recuperação ainda são muito fracos.

“No cenário como o atual ainda é um cenário de risco grande para as empresas pequenas. As empresas pequenas têm um risco muito maior devido à dependência do mercado de crédito, então precisaria realmente de um cenário bem mais estável para que se tenha apetite de novo por parte dos investidores, para olharem para coisas um pouco mais arriscadas, menores, com menor liquidez”, explica Amaral.

Visanet deve ser atrativa

Porém, para as empresas de maior porte, as perspectivas já são boas atualmente. Considerando que os investidores estrangeiros estão vendo com bons olhos o Brasil e seu desempenho na crise em comparação com outros países, o mercado brasileiro se torna um porto atraente para investimento.

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“É uma história de crescimento com uma certa estabilidade. Então tem uma demanda grande por parte de investidores estrangeiros no Brasil”, afirma Amaral, completando que empresas como a Visanet devem ter demandas fortes por oferecerem uma alternativa às blue chips brasileiras, grande parte delas ligadas ao atribulado mercado de commodities.

Perspectivas

Parece ser consenso, entretanto, que ainda tem muito chão até que os movimentos de ofertas de ações voltem aos níveis de 2006 e, principalmente, 2007. “A princípio, eu acho que vai começar aos pouquinhos e se o mercado continuar forte, vai aumentando. Vai ser algo como foi no começo: primeiro uma faz a oferta, depois outra e aí começa a ter sucesso e outras seguem”, prevê Ferman, da Um Investimentos.

Dando exemplos de como o mercado voltou a se movimentar neste ano, o chefe da área de análise da Link Investimentos, Andres Kikuchi, lembra que a oferta da Bradespar de ações da CPFL, em meados de maio, teve uma boa aceitação e um deságio pequeno.

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“Então já foi um bom termômetro. Se tiver realmente demanda para os R$ 6 bilhões estimados de Visanet, pode abrir uma porta para diversas outras ofertas de empresas que não estavam buscando ou não tinham como primeiro canal a distribuição de ações no mercado primário”, afirma.

Apesar de considerarem uma forte possibilidade de retomada das operações de IPO no mercado brasileiro, além da Visanet não há rumores sobre outras aberturas de capital. Contudo, vale ficar atento às empresas que suspenderam as ofertas no ano passado e à Infraero, já que as especulações apontam para um possível IPO já em 2010.