Com elevado saldo comercial, asiáticos têm financiado déficit norte-americano

Bancos Centrais asiáticos contam com quase US$ 1 trilhão em Treasuries; Europa não tem como evitar a valorização do euro

Publicidade

SÃO PAULO – O mercado internacional de câmbio tem sido marcado pela forte volatilidade nos últimos meses, com o dólar em queda livre frente às principais moedas internacionais.

A moeda norte-americana pode sofrer ainda mais, na medida em que os bancos centrais da Ásia, entre os maiores e mais importantes investidores em Treasuries, os títulos do Tesouro norte-americano, podem reduzir sua exposição aos Estados Unidos, que podem ter, dessa forma, maiores dificuldades para conter seu elevado déficit em conta corrente, com o atual baixo patamar da taxa básica de juro, os Fed Funds.

Asiáticos têm quase US$ 1 trilhão em Treasuries

Com economias voltadas para a exportação de produtos de maior valor agregado, os países asiáticos apresentam elevado saldo comercial, sobretudo com os Estados Unidos, utilizando seus superávits para comprar títulos da dívida norte-americana. Estima-se que os banco centrais asiáticos tenham quase US$ 1 trilhão em Treasuries, tendo ampliado muito suas compras ao longo dos últimos anos, sobretudo em 2003, como mostra a tabela abaixo:

País Janeiro/2003
(em US$ bilhões)
Novembro/2003
(em US$ bilhões)
Japão 385,0 525,5
China 120,7 143,8
Taiwan 37,4 45,8
Coréia do Sul 36,7 43,1
Tailândia 17,1 12,1

Para Greenspan, situação está sob controle

O porcentual de títulos do governo norte-americano em mãos estrangeiras saltou de 4,7% em 1965 para 37,7% no ano passado. Bancos centrais de outros países têm hoje US$ 1 de cada US$ 5 devidos pelo governo dos EUA. As autoridades norte-americanas reconhecem que o resto do mundo não vai emprestar montantes cada vez maiores para o país para sempre, mas não vêem nenhuma ameaça imediata de crise.

Em um discurso em janeiro, o presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, disse que a dependência de fundos emprestados pode não ser sustentável, mas ainda não há sinais de estresse. A queda do dólar seria apenas um sinal de redução do apetite estrangeiro por ativos em dólar. Ainda segundo Greenspan, a inflação, sintoma típico de uma moeda fraca, permanece sob controle.

Banco Centrais asiáticos enfrentam dilema

Diante desse cenário, os bancos centrais da Ásia enfrentam um dilema: se reduzirem sua exposição ao dólar e transferirem suas reservas para investimentos de melhor retorno, eles poderiam levar à forte desvalorização do dólar, o que levaria por água abaixo os planos dos governos asiáticos de desacelerar o aumento do valor de suas moedas frente ao dólar, o que torna suas exportações mais caras e ameaça empregos na Ásia.

Continua depois da publicidade

Mesmo assim, a Coréia do Sul estaria planejando entregar entre US$ 10 e US$ 20 bilhões de seus US$ 157 bilhões de reservas em moeda estrangeira para administradores privados de fundos no ano que vem, para serem investidos em ativos de maior rentabilidade. Já Taiwan quer ajudar empresas locais na compra de maquinário ou licenças de propriedade intelectual de empresas estrangeiras com parte de seus US$ 200 bilhões em reservas. A Tailândia usará US$ 7 bilhões das reservas para pagar dívida externa de agências do governo e empresas estatais.

Menor exposição poderia comprometer economia global

Os resultados dessa menor exposição ao EUA poderiam ser sentidos globalmente. A economia americana depende do fluxo de capital da Ásia, e o resto do mundo depende da maior economia do mundo. Se a demanda da Ásia por títulos do Tesouro americano cair abruptamente, o governo dos EUA pode ser forçado a aumentar os juros para atrair investidores. Taxas de juros mais altas afetariam o consumo, desacelerando a economia norte-americana e a global, por conseqüência.

Vale destacar que, depois de perder dezenas de bilhões de dólares na crise financeira em 1997, bancos centrais da Ásia viram suas reservas crescerem rapidamente desde então, à medida que exportadores faturavam em dólares e os bancos passaram a tentar impedir a queda do dólar compra a moeda americana. Só em 2003, as reservas em moedas estrangeiras mantidas pelos bancos centrais asiáticos cresceram um terço, para US$ 1,9 trilhão.

Continua depois da publicidade

Europa não tem como defender o euro

Já a Europa é a mais prejudicada por essa dinâmica, na medida em que a desvalorização do dólar prejudica suas exportações ao seu maior parceiro econômico. Além disso, o baixo patamar de sua taxa de juros, atualmente em 2% ao ano, não é o suficiente para atrair grandes investimentos externos.

Finalmente, sem enormes reservas provenientes de elevados saldos comerciais, os europeus não têm como proteger suas moedas com pesadas intervenções no mercado internacional de câmbio, como fazem os países asiáticos. Com isso, o euro tem atingido patamares recordes tanto frente ao dólar como frente às moedas asiáticas, sobretudo o iene.