Alívio no caos

Com dólar acima de R$ 5 e alta da celulose, as ações de Suzano e Klabin voltarão a animar o mercado?

Analistas divergem sobre projeções para o setor, mas ressaltam maior preferência por Klabin no atual cenário

Setor de papel e celulose (Shutterstock)
Setor de papel e celulose (Shutterstock)

SÃO PAULO – Com a alta do dólar, que segue acima dos R$ 5 apesar da expressiva queda recente, uma leve recuperação dos preços de celulose na última semana e os sinais de recuperação da China com a reabertura da economia depois do pico da pandemia de coronavírus, os investidores voltaram a ficar atentos ao setor de papel e celulose.

As cotações de celulose de fibra curta na China tiveram alta esta semana em US$ 0,30 a tonelada, para US$ 462,1 a tonelada. Antes disso, no final do mês passado, as ações do setor tiveram outros catalisadores, notoriamente Klabin (KLBN11) e Suzano (SUZB3). Klabin, com a aquisição dos ativos de embalagem da International Paper (IP) no Brasil, o que surpreendeu ainda mais por estarmos em meio à pandemia do coronavírus. Já a Suzano anunciou aumento dos preços para a celulose vendida para a China pela empresa, de 30%, indicando que o pior pode ter passado para o gigante asiático.

Assim, o setor, por ter empresas com receita dolarizada já que exportam muito, se beneficiaria também da recuperação do preço da commodity, após um 2019 em que registrou um desempenho abaixo da média do mercado.

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Apesar de um movimento errático (seguindo a forte volatilidade dos mercados já registrada no mês de março), essas ações passaram a ter um desempenho relativamente mais positivo, principalmente em dias de tensão no mercado. Em março, as ações da Klabin tiveram queda de 16,26%, as da Suzano tiveram baixa de 5,48%, enquanto o Ibovespa teve queda de 29,90% no mesmo período. Porém, é hora dos investidores voltarem a olhar novamente para elas?

Em relatório desta última quarta-feira, o Bradesco BBI destacou ter uma posição de cautela. Apesar de avaliarem que há pouco risco de queda nos preços da celulose em relação aos valores atuais, os analistas também veem um potencial limitado de valorização para 2020, principalmente por conta da significativa queda da demanda (expectativa de baixa de 1,2 milhão de toneladas).

“Contamos com produção menor em 1,5 milhão de toneladas de celulose em 2020, dos quais cerca de 1 milhão de toneladas já foram anunciados, com os preços da celulose historicamente baixos exercendo pressão sobre as operações dos produtores de alto custo. No entanto, pelo lado da demanda a equação também mudou, dada a redução significativa da atividade econômica global no segundo trimestre
com escritórios, escolas, restaurantes em sua maioria fechados e eventos cancelados. O papel para impressão e escrita, que representa 30% da demanda mundial de celulose, está com demanda
particularmente fraca”, avaliam os analistas do Bradesco BBI.

O Morgan Stanley adota a mesma linha, destacando ser improvável que os preços da celulose aumentem de maneira sustentável no curto prazo. Contudo, os analistas do banco avaliam que o dólar forte foi o principal fator para a alta dos papéis no mês passado.

Por outro lado, mais otimista, em relatório publicado no final de março, a XP Investimentos apontou as expectativas para o setor, de forma também a incorporar impactos da Covid-19 (confira o relatório clicando aqui).

Com a alta do dólar, as estimativas do setor foram elevadas e compensaram parcialmente um risco maior atribuído à avaliação das ações e um preço de celulose mais baixo. Yuri Pereira, analista da XP, revisou o preço para celulose de US$ 520 a tonelada para US$ 500 a tonelada, cortando as estimativas devido a uma recuperação de demanda mais lenta do que o esperado na China.

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Mesmo com a revisão para baixo, a expectativa ainda é de valorização da commodity. Para o longo prazo, avalia Pereira, a expectativa é positiva para a celulose por três fatores:  i) normalização dos estoques; ii) recuperação gradual das margens dos fabricantes de papel; e iii) pequena entrada de nova capacidade de celulose no mercado.

“Embora a visibilidade no curto prazo permaneça baixa, os preços da celulose parecem estar próximos de um fundo e o movimento de desestocagem da Suzano é positivo. Seguimos com a expectativa de que os preços da celulose se recuperem gradualmente ao longo de 2020”, avalia.

Pereira também aponta que, com os impactos do Covid-19, condições restritas de crédito podem antecipar o fechamento da capacidade de players de alto custo. “Os preços de celulose estão próximos de um piso e esperamos uma recuperação gradual ao longo de 2020, à medida que os estoques de celulose se normalizam e a economia chinesa responda aos estímulos do governo”, avalia.

Suzano ou Klabin?

Com esse cenário no radar, o analista da XP elevou, na última semana, as ações da Klabin de neutra para compra, com preço-alvo de R$ 18,50 por ação, avaliando ter expectativas de vendas saudáveis para papel e celulose, apesar do Covid-19.

“A alavancagem segue como um risco a ser monitorado, com a execução do Puma II. Entretanto, não vemos um grande risco de execução após notícias de desmobilização temporária de funcionários”, aponta, em relação ao projeto de R$ 9,1 bilhões da companhia.

Por outro lado, a XP aponta ser positiva no longo prazo com relação ao aumento da demanda estrutural por papel/embalagem versus a disponibilidade de floresta, dando resiliência aos preços no futuro.

Nesta quarta-feira, o Bradesco BBI também elevou a recomendação para as ações da Klabin, de neutra para desempenho acima da média (outperform), vendo a empresa como uma maior ganhadora relativa em meio ao cenário ainda complicado para a commodity.

O BBI destacou a “sólida flexibilidade operacional” da Klabin no mercado de papel e celulose, levando em conta o ambiente atual, que é de queda na demanda ao redor do mundo por causa da pandemia – com projeções de recuperação dos preços no quarto trimestre de 2020. Neste contexto, avalia, o papel da Klabin “oferece uma boa proteção no lado da baixa e sólido potencial de valorização”.

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Segundo o BBI, a Klabin consegue mudar rapidamente a sua produção para atender diferentes setores dos mercados doméstico e internacional. “A Klabin tem a habilidade de mudar rapidamente a produção de papel, de caixas para sacolas de papelão, papel corrugado, embalagens, conforme a demanda do mercado doméstico e também do externo por esses produtos”, avalia o BBI. O banco escolheu a ação como sua “top pick” de papel e celulose na América Latina, mas manteve o preço-alvo da ação em R$ 21,00 para 2020.

Por outro lado, o Bradesco BBI mantém recomendação neutra para a Suzano, com preço-alvo de R$ 42. “Podemos estar correndo o risco de perder uma alta das ações caso os investidores comecem a repercutir uma rápida recuperação econômica globalmente, o que poderia elevar os preços da celulose rapidamente. No entanto, também estamos menos expostos a um grande declínio em potencial se o sentimento global se deteriorar (e se os preços da celulose realmente caírem para custos marginais de US$ 440 a tonelada)”, avaliam os analistas. Segundo os cálculos do banco, as ações da Suzano poderiam
ter cerca de 50% de queda em um cenário de baixa versus 45% de alta em um cenário altista.

Já a XP Investimentos mantém compra para as ações da Suzano, com preço-alvo de R$ 40, destacando expectativa de recuperação das margens dos fabricantes de papel e apontando ainda que companhia ainda poderá ter sinergias adicionais a serem capturadas da combinação de negócios com a Fibria.

Segundo consenso Bloomberg, das 15 casas de análise que cobrem a ação da Suzano, 5 recomendam compra, 8 neutra e 2 recomendam venda. Enquanto isso, das 16 casas que cobrem as units da Klabin, 8 recomendam compra, 6 recomendam manutenção e 2 recomendam venda.

Ao falar sobre a alavancagem das empresas, a expectativa é por índices mais altos, mas sem problemas de liquidez neste momento.

“As empresas de papel e celulose verão os índices de alavancagem aumentarem nos próximos trimestres, especialmente Suzano e Klabin, que reportam números em reais e têm altos montantes de dívida em termos de dólar. No entanto, as empresas geralmente possuem posições de liquidez sólidas, com vencimentos em caixa/curto prazo de 12% para a Klabin, 29% para a Suzano. A Suzano e a Klabin devem encerrar o ano em 5,1 vezes e 5 vezes o múltiplo Divida Liquida/Ebitda. Observamos que a Klabin está investindo em projeto de crescimento que deve contribuir para o crescimento do EBITDA após a entrada em operação em 2021/22”, destaca o Bradesco BBI.

Assim, apesar das perspectivas sejam de recuperação do preço da celulose em um prazo mais longo, ainda há muita incerteza sobre em que ritmo isso se dará. Como será a volta da China após a reabertura é também um movimento a ser monitorado de perto pelos investidores por setor.

De qualquer forma, no curto prazo, a expectativa é de que esses papéis acabem por ter um desempenho acima do Ibovespa em momentos de aversão ao risco do mercado e dólar em alta e vice-versa. No acumulado do mês de abril, em que o Ibovespa subiu 7,68% até a sessão de quarta-feira, a Klabin viu seu ativo subir bem menos (+1,56%), enquanto Suzano subiu 6,06%. Na sessão desta quinta, de ganhos para o Ibovespa, os papéis também registram um desempenho inferior ao índice.

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