Com desaceleração chinesa e crise fiscal, recuperação global é sustentável?

Para analistas, consolidação fiscal e fim dos estímulos podem desacelerar ritmo, mas não devem barrar retomada econômica

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SÃO PAULO – Correção nas ações, queda das commodities, recuo dos yields dos títulos de longo prazo do governo norte-americano. Desde o início da crise fiscal europeia, o mercado tem dado sinais de que o cenário muito otimista pintado para 2010 pode não ser tão simples assim. Mas seria essa uma desaceleração normal depois de uma retomada mais acelerada, ou estamos caminhando para uma recuperação em W?

Ambos os cenários têm seus defensores. O mega investidor George Soros afirmou, na última semana, que a situação atual traz um “perigo real”. “Acredito que uma recessão (na Europa) é quase inevitável no próximo ano”, afirmou Soros em um evento em Viena (Áustria) ressaltando que isso poderia atrapalhar a economia global: “(as questões de déficit fiscal) podem pressionar a economia para uma nova recaída”.

Entretanto, a maioria dos analistas parece acreditar que, apesar das mudanças no panorama global – que incluem não só a Europa, mas também a regulação do sistema financeiro dos EUA e a desaceleração da economia chinesa – a recuperação deve continuar, ainda que em um ritmo mais lento.

A Economist Intelligence Unit faz parte desta maioria. Apesar de reconhecer os riscos à economia, a EIU aponta que muitos países seguem com desempenho robusto – tanto que as projeções de crescimento para a economia global foram elevadas para 4,2% em 2010.

Vale mencionar que o braço de pesquisa da Economist aponta que a recuperação já tem se mostrado bastante heterogênea – e deve continuar assim. “O cenário é ruim na Zona do Euro, enquanto os emergentes parecem ter um panorama muito mais fácil. No meio desses extremos, estão os EUA”, escreve a equipe da EIU.

Com estímulos, sem estímulos
Os estímulos promovidos pelos governos durante a crise foram, sem dúvida, responsáveis por dar o empurrão inicial da recuperação. Entretanto, a política fiscal e monetária não pode permanecer frouxa indefinidamente – e, com isso, traz à tona as temidas “exit strategies”.

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Em alguns países, os bancos centrais já deram os primeiros passos nesse sentido: Canadá, Austrália, Chile e Brasil são alguns exemplos onde a taxa básica de juro já foi elevada. Nos EUA e na Europa, contudo, os juros permanecem congelados em taxas mínimas.

A questão fiscal parece ganhar mais e mais importância. Em relatório recente, o Barclays afirmou: “Apesar de tentativas de afirmar o contrário, a política fiscal segue como um significativo ponto de apoio à demanda atualmente, já que as medidas de aperto nos emergentes são compensadas por condições acomodativas nos países desenvolvidos”.

Martin Wolf, colunista chefe de economia do Financial Times, recentemente abordou o assunto no jornal britânico, apontando sua relevância e por que os mercados estão temerosos na execução das políticas fiscais. Primeiramente, existe o temor de que os mercados financeiros se voltem contra o Reino Unido e os EUA, depois de já terem “dado as costas” a países como Grécia e Espanha. Além disso, há o medo de que os déficits fiscais ofusquem os investimentos privados necessários para a recuperação, e que eles levem, necessariamente, a um cenário inflacionário, e não suportem a demanda.

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Nesse sentido, a EIU também ameniza as projeções mais otimistas, lembrando que a maioria dos mercados emergentes, destaques da recuperação, também depende de estímulos governamentais temporários – sem contar a exposição desses mercados a uma forte redução da demanda de exportação de países mais fragilizados.

Assim, como analisar os possíveis efeitos de mudanças no front fiscal? Um dos principais desafios da política fiscal é o timing: “um aperto atrasado traz o risco de inflação e default, mas um aperto muito cedo traz o perigo da recessão e deflação”, escreve Wolf. Simon Hayes, analista do banco britânico, também destaca o timing como um dos fatores-chave do sucesso, ao lado das alternativas disponíveis para aliviar pressões sobre a demanda. “A Grécia é a exceção que comprova a regra – a economia está se contraindo, o que só vai piorar com uma consolidação fiscal; como o país é membro da Zona do Euro, alterações no câmbio estão fora de questão”, explica.

“Seguir as regras fiscais indiscriminadamente, e ao mesmo tempo ignorar o que acontece no setor privado e nos balanços externos é uma receita para decepção. A estabilização fiscal que serve de apoio ao crescimento é bem-vinda, mas se for prematura, é outro inimigo”, escreve Wolf.

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Apesar de a questão fiscal ser, de fato, um risco à recuperação, Hayes vê com otimismo a posição das autoridades em relação a questões fiscais. Para ele, as sinalizações sobre o assunto dos bancos centrais inglês e europeu, além de países que não são diretamente afetados, indicam um caminho menos turbulento à frente. “Acreditamos que há momentum o suficiente na atividade global, além de uma flexibilidade das autoridades para que a recuperação suporte um aperto fiscal. Haverá mudanças, claro, com as políticas monetárias mais expansionistas por mais tempo para facilitar os ajustes fiscais. Não há um caminho muito claro para projeções, mas acreditamos que a recuperação da economia se sustentará”, conclui o analista do Barclays.

Indicadores
Além da questão fiscal, mais ampla e de longo prazo, os investidores observam com atenção os indicadores das economias divulgados diariamente. Nos EUA, o relatório de emprego de maio e uma queda nos gastos do consumidor, além de um avanço modesto no PIB do 1º trimestre, levantaram preocupações – que são minimizadas pelo BMO. “Nas duas últimas recuperações, a criação de empregos também foi lenta, o que não significou uma recuperação em W – além disso, a criação de empregos no setor privado parece mais intensa do que das duas últimas vezes”, explicam Douglas Porter and Benjamin Reitzes. “Parece que a economia dos EUA está se ajustando em uma recuperação moderada”.

Para eles, mais do que os leading indicators, há outras fontes que deveriam inspirar mais cautela. “A queda das ações recebeu mais atenção, mas o que deveria inspirar mais cautela é o forte recuo das commodities como cobre e petróleo”, afirmam.

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Europa, os emergentes e os EUA
Levantadas as principais questões, os analistas passam a suas projeções para a economia global – que tem como principal risco a crise fiscal europeia e seus impactos. “Os governos europeus têm desafios enormes pela frente para não só reconstruir as finanças públicas, mas também para recuperar a confiança dos mercados e para superar pressões sociais e políticas resultantes de suas medidas de austeridade”, destaca a equipe da EIU.

Já os analistas do BMO, apesar de verem a Europa como um risco, acreditam que os temores são exagerados. “Todos correram para diminuir suas projeções de crescimento para a Europa – mas a Zona do Euro, mesmo representando 15% da economia global, adicionou muito pouco ao crescimento global na última década, com 7% do crescimento. Então, não é absolutamente inédito que a região não contribua muito para o avanço da economia global”.

Vale mencionar que, apesar de a Europa não preocupar o BMO pelo front do crescimento, os analistas veem causa para temores na questão do crédito. “O colapso dos mercados de créditos foi o principal fator na recessão de 1929, e o setor financeiro global ainda não se recuperou – o que significa que um choque negativo diminuiria de maneira significativa os empréstimos”.

Para a EIU, uma recuperação modesta deve continuar em curso na Zona do Euro, levando o PIB (Produto Interno Bruto) da região a uma alta de 0,7% no ano e 0,8% em 2011.

Outro foco de preocupação, a China, também é vista com certa tranquilidade pelo BMO. “As questões domésticas impulsionam muito mais a economia chinesa do que questões externas, como a Europa”, explicam os analistas, lembrando que os dados seguem positivos no gigante asiático, apoiados na demanda interna – mesmo caso de outros emergentes, como Índia e Brasil. “Com o crescimento baseado na economia doméstica, os emergentes devem estar razoavelmente protegidos da crise europeia”, afirmam.

Ainda entre os emergentes, a América Latina segue com bom desempenho apoiada em estímulos governamentais e a enorme demanda chinesa por commodities. A região, que tem como destaque o Brasil, deve crescer 4,1% no ano, na visão da EIU – as perspectivas para 2011, considerando uma menor demanda por commodities dos EUA e da China, não são tão otimistas.

Alvo de projeções mais otimistas, os EUA estão “muito melhores do que a Europa, mas com uma habilidade de crescer no ritmo atual, sem os incentivos, duvidosa”, escreve a equipe da Economist Intelligence Unit. “O principal problema é distinguir os efeitos dos estímulos fiscais e ajustes dos estoques de uma melhora significativa na demanda privada”, explicam. Assim, a unidade de pesquisa da Economist projeta crescimento de 3,3% para os EUA em 2010. “Mas duvidamos que a economia tenha força o suficiente para compensar o enfraquecimento dos atuais drivers”, escrevem. Assim, a projeção para 2011 é de um crescimento do PIB de 2%.

Mesmo com perspectivas ruins para a Europa e modestas para os EUA, o BMO acredita que a recuperação global segue em curso, em especial devido aos mercados emergentes. “A moderação de atividade nos mercados desenvolvidos não é anormal nesse estágio da recuperação”, afirmam os analistas. Para eles, o risco de uma recuperação em W existe – mas precisaria de uma mudança muito abrupta nas condições de crédito, além de uma correção mais forte nas ações, ou um enorme erro de política como desencadeador. “Esse deve ser o foco dos investidores, não as mudanças mensais dos indicadores”, conclui o BMO.