Publicidade
SÃO PAULO – Num dia de atuação extraordinária do Banco Central, o dólar interrompeu quatro sessões de quedas consecutivas e fechou em alta ante o real, com investidores buscando entender a estratégia da autoridade monetária, sob a suspeita de que o nível de 2,30 reais pode se firmar como um piso para o câmbio neste momento.
A moeda norte-americana subiu 0,10 por cento, a 2,3084 reais na venda, após chegar a 2,2926 reais na mínima do dia. Segundo dados da BM&F, o giro financeiro ficou em torno de 1,8 bilhão de dólares.
“O BC mostrou que está ativo. Está tentando defender esse nível, mas sem fazer alarde”, disse o analista de uma gestora de recursos internacional, ressaltando que o piso de 2,30 reais é “confortável” para a autoridade monetária, pois não prejudica a indústria nem pressiona a inflação.
No início da sessão, o BC vendeu apenas 2,4 mil swaps cambiais tradicionais, equivalentes a venda futura de dólares, da oferta diária de 4 mil, com volume equivalente a 118,9 milhões de dólares.
Com isso, o dólar anulou a queda e passou a subir, batendo na máxima de 2,3207 reais na venda. Boa parte dos especialistas interpretou a intervenção como sinal de que o BC não estaria confortável com a moeda norte-americana abaixo de 2,30 reais, que também prejudicaria as exportações.
Nos últimos quatro pregões, o dólar recuou ante o real, acumulando desvalorização de 1,82 por cento no período, movimento estimulado pelo quadro de maior otimismo nos mercados internacionais e ingresso de recursos no Brasil.
Continua depois da publicidade
“Para bom entendedor, pingo no ‘i’ é letra. O recado é esse: o mercado vai ter que trabalhar com piso”, chegou a dizer mais cedo o especialista em câmbio da corretora Icap, Italo Abucater.
Logo em seguida, no entanto, o BC anunciou outro leilão de swap cambial tradicional para ofertar justamente o montante que ficou de fora em sua ração diária: 1,6 mil contratos.
Na operação extraordinária, vendeu a oferta integral, todos com vencimento em 1º de dezembro deste ano e volume equivalente a 79,1 milhões de dólares. O BC também ofertou swaps para 1º de outubro, mas não vendeu nenhum.
Continua depois da publicidade
Segundo afirmou uma importante fonte da equipe econômica à Reuters, o programa de leilões cambiais não mudou e o governo não busca estabelecer patamares para o dólar.
Após a operação, o dólar passou a oscilar entre a estabilidade e leves altas, à medida que investidores tentavam decifrar as intenções da autoridade monetária.
O mercado já questionava o patamar de 2,30 reais devido a indicações de que o BC pode não rolar todos os swaps que vencem na próxima terça-feira no valor equivalente a 10,148 bilhões de dólares. Ainda faltam cerca de 75 mil contratos para serem rolados e o BC tem apenas 3 dias úteis para fazê-lo. Mantendo o atual ritmo de oferta, seriam colocados apenas 30 mil.
Continua depois da publicidade
Para esta sessão, o BC vendeu toda oferta de 10 mil contratos, já rolando um pouco menos de 65 por cento do lote total.
“Nós e os mercados nos perguntamos aonde exatamente as autoridades querem chegar, com o dólar perto de 2,30 reais”, escreveram analistas do Brown Brothers Harriman em relatório. “Por enquanto, vemos suporte para o dólar em 2,30 e em 2,25 reais e resistência em 2,35 e 2,40 reais”.
Segundo especialistas, que já se mostravam céticos sobre a possibilidade de o dólar se firmar nesses patamares mais baixos, os acontecimentos desta sessão serão mais um empecilho.
Continua depois da publicidade
“O humor nos mercados internacionais está mais calmo, mas isso não deve durar muito. E agora, com essa história do BC, acho menos provável ainda que a baixa se sustente”, disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.