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SÃO PAULO – Uma das vantagens de se operar no mercado a termo é poder operar alavancando seu patrimônio, para conseguir movimentar volumes maiores de ações. No entanto, esse também é um ponto negativo, principalmente em momentos turbulentos da bolsa, em que as margens têm que ser cobertas.
Foi exatamente isso que aconteceu com a GWI Asset Management, composta por uma gama de fundos, e chefiada pelo sul-coreano Mu Hak You. Dois segmentos, principalmente, o leverage e o private, sofreram com um pânico que invadiu o mercado financeiro global no ano passado.
Em 8 de agosto de 2011, após o corte da nota de crédito dos Estados Unidos pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s, o Ibovespa despencou 8,08%, em meio ao mau humor generalizado dos investidores. A gestora tinha posição relevante – e acima do patrimônio – em ações da Marfrig (MRFG3), de mais de 5%. Naquele pregão, o frigorífico desabou 24,83% na bolsa.
Liquidação dos ativos
O problema, na época, foi que a GWI teve de se livrar de alguns papéis para cobrir margens negativas com o alto pessimismo dos mercados. Os ativos haviam sido dados como garantia à Socopa, responsável pela custódia, exatamente para casos como esse. Em meio ao forte prejuízo, a corretora teve de liquidar a posição em MRFG3.
No entanto, a asset do sul-coreano reclama que faltou bom senso por parte da fiduciária. O fundo pediu para que as ações não fossem vendidas, a fim de não causar um efeito dominó e elevar os prejuízos da gestora, mas mesmo assim as operações foram realizadas sucessivamente. Só em agosto, a Marfrig perdeu quase metade de seu valor de mercado, uma forte queda de 49,41%.
A Socopa, por sua vez, afirma que fez apenas aquilo que a legislação pede. “Executamos as garantias porque ele não pagou as margens e, assim, tivemos que vender as ações para repor o caixa”, explica Álvaro Augusto Vidigal, presidente da corretora. Ainda segundo o executivo, foram de dois a três dias que a GWI ficou sem pagar contas “estratosféricas”, em suas palavras. “A lei não me deixa financiar o cliente”, crava.
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| Desempenho de MRFG3 durante agosto de 2011 | ||
| Dia | Performance | Cotação |
| 05/08 | -7,69% | R$ 12,00 |
| 08/08 | -24,83% | R$ 9,02 |
| 09/08 | -0,33% | R$ 8,99 |
| 10/08 | -6,01% | R$ 8,45 |
| 11/08 | -0,36% | R$ 8,42 |
| 12/08 | +2,05% | R$ 8,66 |
| 15/08 | +6,58% | R$ 9,23 |
| 16/08 | -4,23% | R$ 8,84 |
| 17/08 | +2,94% | R$ 9,10 |
| 18/08 | -8,02% | R$ 8,37 |
| 19/08 | -2,03% | R$ 8,20 |
| 22/08 | -5,85% | R$ 7,72 |
Processo em curso
Depois das sucessivas operações, a gestora dos fundos decidiu que deveria entrar com um procedimento arbitral contra a instituição na CAM (Câmara de Arbritragem do Mercado), ligada à BM&F Bovespa. Os cotistas do segmento private se dizem prejudicados, e a GWI alega ter pego um empréstimo para cobrir o rombo causado pela expressiva queda que, na verdade, estava sendo paga.
A empresa explica que o procedimento utilizado, após recomendação da Socopa, foi tomar um empréstimo junto ao Banco Paulista, que faz parte do mesmo grupo da corretora, na forma de CCB (Cédula de Crédito Bancário). Aproximadamente R$ 15 milhões foram captados pelo próprio Mu Hak You, enquanto pessoa física. Mas a corretora nega. “É claro que eles não cobriram a margem”, dispara Vidigal.
Além da arbitragem, que já está curso – e, portanto, tem caráter confidencial -, no Judiciário há uma ação contra o sul-coreano, que o obriga a pagar esse papel emitido pelo banco. Para finalizar, os integrantes do fundo do segmento leverage realizaram uma assembleia nesta sexta-feira (9) para decidir se também acionam a CAM contra a Socopa.
Ana Maria Recart, diretora jurídica da gestora, fala em cerca de 400 cotistas que decidiriam sobre a entrada ou não na câmara. Ela lembra que houve, sim, pagamento de parte dos prejuízos, e que também a GWI pediu para que a instituição não liquidasse a posição em MRFG3. Em outras chamadas, porém, a falta de liquidez dos mercados no momento impediu que novos valores fossem transferidos. “Ela ignorou o dever de fiduciário”, critica.
Confusão instaurada
Desde então, a Socopa deixou de cuidar de qualquer ação em poder dos fundos. O clima que foi instaurado foi de confusão, informações desencontradas e mal estar. “As pessoas estão vendo que a GWI não deu calote”, diz Recart. Porém, Vidigal discorda, e se explica: “é claro que queríamos vender tudo ao melhor preço, para que não tivéssemos esse rombo”.
Quanto ao novo processo de arbitragem, o presidente da Socopa também é enfático. Ele acredita que o melhor seria que os investidores esperassem a decisão do imbróglio já em curso. “Eles podem jogar o dinheiro fora fazendo isso”, avalia. No mais, ele se diz confiante de que a corretora, na verdade, ganhará as reclamações. Quanto à empresa de Mu Hak You, a ordem é cautela. “Prefiro não comentar sobre o desfecho, até para respeitar os cotistas”, finaliza a diretora jurídica.
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Decisão
Após o fechamento desta matéria, a GWI informou que seus clientes do fundo leverage decidiram, através da assembleia, entrar também na CAM contra as ações perpetuadas pela Socopa. Segundo o comunicado, será exigido um patamar de R$ 28 milhões em indenização, “valor do prejuízo causado pela venda ruinosa e apressada”, informou a gestora.