Colunista InfoMoney: Trinta e oito a nove

De quarenta e sete economistas, trinta e oito concluíram que a recessão nos Estados Unidos chegou ao fim ou, quando muito, está próxima de terminar
Dos quarenta e sete economistas consultados pelo Wall Street Journal, trinta e oito concluíram que a recessão nos Estados Unidos chegou ao fim ou, quando muito, está próxima de terminar. Essa afirmação é acompanhada inclusive por Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos), em seu último pronunciamento a respeito do assunto: “depois de uma contração no último ano, a atividade econômica aparentemente se recupera, tanto nos Estados Unidos como no exterior, e a perspectiva de um retorno ao crescimento no curto prazo parece boa”.

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E é exatamente isso que mostra o crescimento do PIB da França e Alemanha, no segundo trimestre de 2009, ambos com mais 0,3% e, ainda, o Japão com mais 0,9%, China com 7,9%, Rússia com 7,5% e Coreia do Sul com 2,3%, todos em relação ao primeiro trimestre de 2009.
O Premio Nobel de economia do ano passado, Paul Krugman, além de concordar com Bernanke, faz um adendo, afirmando que a América Latina sai da crise antes dos países ricos e ainda ressalta a recuperação do Brasil, que tem grande peso na economia latino-americana.

“Sabemos que, quando não se muda tudo, não se muda nada”

É bom lembrar que, estatisticamente, nos últimos cinquenta anos, as recessões nos Estados Unidos têm durado em média doze meses, e, como a atual já passa dos vinte, estas opiniões otimistas não são fora de propósito.
É bem verdade que ainda existem grandes incertezas de uma recuperação global sustentada para países como Itália, Reino Unido, Espanha, África do Sul e México, que ainda lutam contra o desemprego. Ainda, em alguns países do leste europeu, segundo estimativas do Deutsche Bank, poderiam ocorrer calotes dentro de um intervalo de 10% a 50%.
Esta situação levou o FMI a sugerir que os bancos da região (Europa Ocidental) precisam captar como um todo, US$ 375 bilhões, para manter o nível apropriado de capital, mas, mesmo assim, a sensação de que o pior já passou cresce dia após dia.
Contudo, em momento algum deve-se abrir mão de tentar mudar o que de errado ainda persiste nas economias que levaram o sistema financeiro global a flertar com uma hecatombe. E sabemos que, quando não se muda tudo, não se muda nada.
Agora mesmo na Bolsa de Nova York operações ultrarápidas (HFT na abreviação em inglês (High Frequency Trading)) vêm gerando forte polêmica, provocando inclusive debate no Congresso. O senador Ted Kaufman, assessor de longa data do vice-presidente norte americano Joe Biden, deve pedir nos próximos dias à SEC (Securities and Exchance Commission) um maior controle sobre os negócios com ações realizados com base em programas de computador. Esse tipo de operação, que efetua negócios em milionésimos de segundos, não é nova, vindo desde a instituição do sistema eletrônico na Bolsa de Nova York.
Mas o problema é que, em determinados momentos, estas operações crescem fortemente, chegando inclusive a representar 70% dos negócios, afetando assim as condições de igualdade entre os investidores e até podendo, na opinião de muitos, vir a desestabilizar o mercado.
Ainda, nos Estados Unidos, deve-se dar especial atenção aos financiamentos do setor imobiliário, que continuam carregados de problemas, principalmente os derivados das obrigações hipotecárias garantidas, CMO (títulos de dívidas lastreadas em um pool de hipotecas repassadas por um emprestador hipotecário).
Não esqueçamos que, apesar da economia dos EUA estar melhorando, ainda é preocupação o crescente déficit fiscal, que ao final deste ano fiscal poderá alcançar um US$ 1,580 trilhão, 11,2% do PIB, o maior desde o fim da Segunda Guerra Mundial, patamar completamente atípico e, na verdade, até desconhecido pelo governo pela sua dimensão.
Apesar disso tudo, pelo que se viu até agora, no decorrer desses vinte meses de turbulência global, os problemas vão sendo equacionados através do tempo e, o que é bom, resolvidos a contento, trazendo uma quase certeza que teremos já em 2010 uma volta à normalidade com um crescimento moderado, mas mesmo assim, crescimento.

Decio Pecequilo é operador sênior da corretora TOV e escreve mensalmente na InfoMoney, às sextas-feiras.
decio.pecequilo@infomoney.com.br