Colunista InfoMoney: Soluço no consumo americano

As variações positivas de renda real disponível das famílias e vendas do varejo são apenas ensaios de um efeito de curta duração na economia dos EUA
Os dados de atividade econômica dos EUA referentes ao segundo trimestre, principalmente ligados ao consumo, à primeira vista incitariam conclusões de que para a economia real o pior já passou. Porém, as variações positivas de renda real disponível das famílias e vendas do varejo são apenas ensaios de um efeito de curta duração. A melhora no desempenho destas rubricas da economia americana não afasta a névoa que permeia o horizonte dos próximos meses.

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Isto porque as elevações dos indicadores ligados ao consumo das famílias são apenas reflexos das devoluções de impostos realizadas pelo governo americano na tentativa de abrandar os efeitos provenientes do estouro da bolha hipotecária e seus desfechos sobre o setor financeiro.

Os dados de estoques de petróleo na última semana apontaram nesta direção. Os analistas do setor esperavam nova alta para este indicador, concomitante com a constatação cada vez mais evidente de desaceleração não só da economia americana, mas também de outras partes do globo. Contudo, observou-se queda nos estoques na última semana de julho. Fato que fez com que a cotação do WTI retornasse a operar no nível de US$ 127 o barril.

“A evolução dos preços dos insumos deverá corroer boa parte deste efeito positivo do lado fiscal”

Essa mesma commodity, que até pouco tempo gravitava em torno de US$ 140, provavelmente será responsável por corroer parte dos estímulos fiscais que agora são sentidos nos dados de atividade da economia americana. No decorrer do primeiro semestre de 2008 foi observado queda no consumo médio de gasolina nos EUA.

Além de aumentar as despesas com energia reduzindo parcela da renda para o consumo de outros produtos, o preço elevado do óleo ateia fogo nas previsões inflacionárias, não só dos EUA, mas também de outros países. Pois é de conhecimento geral a importância que o petróleo tem no mundo; desde matéria-prima ou fonte de energia para vários seguimentos até sua importância no preço do frete, que garante a chegada do produto ao consumidor final.

Já o setor produtivo americano, sobretudo ligado a investimento, como bens de capital, já mostra sinais de retração no segundo trimestre deste ano. Pelo menos é o que atestam os dados de fabricação de bens de produção, manufaturas de bens metálicos, entre outros. Apesar das baixíssimas taxas de juros e os socorros realizados pelo Fed, estas medidas se mostram paliativas, não sobrepondo a incerteza instalada há mais de um ano no ambiente financeiro, que de um lado empoça a liquidez e de outro ofusca os prognósticos do setor produtivo de como a economia evoluirá futuramente.

Entretanto, as estimativas para o PIB americano apontam aceleração no segundo trimestre de 2008, que não deverá ser favorecido pelo setor produtivo de investimento, mas sim pelo impulso fiscal.

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Além de não ser um efeito permanente, a evolução dos preços dos insumos, sobretudo petróleo e seus efeitos indiretos sobre outros setores, deverá corroer boa parte deste efeito positivo do lado fiscal. O que deve colaborar para uma curta duração da melhora varejo americano – talvez circunscrita apenas ao segundo semestre deste ano.

Ademais, é plausível esperar que boa parte da alta dos insumos observadas neste último semestre só será sentida mais intensamente com certa defasagem pelo CPI (no terceiro e quarto trimestres), quando os dados de atividade mostrar que a melhora do varejo foi apenas momentânea. Indicadores de inflação em alta e dados de atividade fracos são provavelmente o que o Fed espera para os próximos trimestres.

Raphael Castro é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
raphael.castro@infomoney.com.br