Colunista InfoMoney: “Sede própria”

A "teoria da sede própria" encerra lições interessantes não só para empresas como também para instituições, associações, ONGs e até governos

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Tenho um amigo que costuma dizer: fuja de empresa que tem escrito “Sede Própria” na frente. Sua teoria é que empresa que investe em imóvel está desviando capital de sua atividade produtiva principal, perdendo o foco e imobilizando recursos em investimentos de baixo retorno.

Embora generalizações possam ser perigosas e regras sempre tenham exceções, a “teoria da sede própria” encerra lições interessantes não só para empresas como também para instituições, associações, ONGs e até governos. Como diz meu amigo, eu não compro de fornecedor que está mais preocupado com seu escritório do que com meu produto, eu não contrato serviço de instituição que está mais preocupada com sua sede do que com a qualidade da assessoria que me presta.

A sede própria até fez sentido em uma época que o Brasil tinha inflação alta, mercados financeiros e de capitais pouco desenvolvidos, e imóveis eram considerados reserva de valor (como o ouro) frente a uma moeda frágil. A sede própria era então um indicador de sucesso nos negócios e de solidez da empresa numa sociedade que se poderia chamar de patrimonialista.

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“A pior crise dos últimos 80 anos não é o momento de imobilizar recursos escassos”

Os tempos hoje são outros e os imóveis passaram de reserva de valor a uma distração do negócio principal para a maior parte das empresas, instituições, etc. Não é à toa que muitos bancos venderam os imóveis de suas agências e passaram a alugá-los e até mesmo hotéis, um negócio onde à primeira vista se justificaria a posse do imóvel, preferiram se concentrar na atividade fim de prestar serviços de hotelaria e tomam alugado o imóvel onde se localizam.

Se no Brasil moderno a sede própria já havia se transformado em desvio de recursos para atividades não produtivas, este patrimonialismo antiquado se torna ainda mais perigoso num ambiente de alta instabilidade, como aquele criado pela crise global que atravessamos. Mais do que nunca recursos escassos têm que ser concentrados nas atividades produtivas para preservar a saúde financeira e liquidez de empresas e instituições, permitir que associações de classe continuem defendendo o interesse de seus membros e principalmente promovendo seus produtos, possibilitar que religiões continuem atendendo seus fiéis e garantir a habilidade de governos continuarem prestando serviços essenciais.

O momento não é de imobilizar recursos, mas sim de investir para melhorar o produto oferecido ou os serviços prestados. Hoje, com o capital escasso em todos os níveis, a palavra de ordem é gerenciamento eficiente de caixa, algo que demanda um investimento cuja maturação é mais curta e que permite responder aos desafios da crise mais rapidamente.

Façamos aqui uma analogia com a área de tecnologia da informação, onde o “hardware” se refere ao computador em si próprio, à máquina, e o “software” se refere aos programas que fazem o computador funcionar e assim prestar os serviços dele esperados.

Muitas vezes a preocupação se concentra na máquina (o “hardware”) quando em verdade as soluções vêm dos programas (o “software”). Assim, o momento agora, em todos os níveis – empresas, instituições e governos -, é de investir em “software”, gerenciamento para produzir mais e prestar serviços melhores, aproveitando o “hardware” imobilizado já existente. A pior crise dos últimos 80 anos não é o momento de imobilizar recursos escassos.

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João Alberto Peres Brando é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às sextas-feiras.
joao.brando@infomoney.com.br