Colunista InfoMoney: Robôs, mercado e alta frequência neural

Algoritmos auxiliam investidores, mas máquinas não sabem pensar; por isso, estratégia do trader se torna fundamental

Por  Waldir Kiel
A última grande novidade no mercado financeiro brasileiro é o chamado robozinho. Uma ferramenta operacional que permite executar operações em ativos e ou derivativos financeiros em alta frequência.

Bancos, corretoras e investidores individuais criam softwares poderosos – capazes de tomar sozinhos – decisões de compra e venda a uma velocidade infinitamente superior a atuação humana.

Toda novidade e inovação acabam sempre por provocar debates em torno dos conceitos e eficácia de sua utilização, criando, naturalmente resistências e confusões em torno do assunto.

O que muitos ainda não perceberam é que os robôs são apenas mais uma ferramenta de auxilio a estratégia operacional que sempre será comandada pela decisão individual de quem a utiliza e que os chamados algoritmos são a forma de representar esta estratégia.

Algoritmo é um conjunto finito de regras que fornece uma sequencia de operações para resolver um problema específico. É preciso que encontremos uma sequencia de passos que permitam a resolução de maneira automática e repetitiva deste problema. Um exemplo simples de como um problema pode ser resolvido se fornecermos uma sequencia de passos que nos mostrem a solução é uma receita de bolo.

Um algoritmo opera sobre um conjunto de entradas (no caso do bolo, farinha, ovos, fermento e etc.) de modo a gerar uma saída que seja útil para o usuário (o bolo pronto).

“Máquinas não sabem
pensar, só obedecem.
Por isso, estratégia
do trader se torna
fundamental”

Quando buscamos caminhos alternativos para escapar dos congestionamentos das grandes cidades no caminho de casa para o trabalho e do trabalho para casa, estamos escolhendo opções por ruas e avenidas nos chamados atalhos, em busca de saídas melhores. Isso também é um algoritmo.

Assim, todas as vezes que alguém traça um objetivo e, para atingi-lo, criamos um tipo de fluxograma para sua solução, está na verdade criando um algoritmo: o número de passos e a suas alternativas para se chegar a este objetivo é que geram as equações e complexidades matemáticas, as quais são à base de toda programação computacional.

No mercado financeiro, para utilizarmos o robô, operações de alta freqüência, é necessário antes de tudo sabermos qual o objetivo que pretendemos atingir, se é uma estratégia de curto prazo (onde o robô se torna mais útil) ou uma estratégia de prazo maior. Uma vez definido o tempo, passamos a outras etapas.

Máquina não pensa – pelo menos ainda -, ela executa. Por isso, a importância de uma estratégia bem definida antes de atuar com o robô é crucial. Estratégia essa que pode ser baseada em um cenário econômico, em uma correlação como, por exemplo, dólar x euro, em parâmetros dados pelo gráfico, ou em outra ferramenta de analise que mais agrade o usuário.

A programação para que as ordens sejam executadas tem que ser extremamente confiável, a fim de não ocorrer erros nos algoritmos e nos trajetos, gerando, ao invés de lucros, prejuízos enormes, já que a alta freqüência irá realizar um numero muito maior de operações.

Alta frequência é muito útil para operações de day trader e curtíssimo prazo, investidor que  tem que ficar atento as variações repentinas de humor dos mercados, que podem mudar completamente os caminhos a serem traçados. Por isso é difícil, porque é mercado.

Operadores de alta frequência também se beneficiam da competição entre várias permutas, que pagam valores pequenos frequentemente captados pelos operadores maiores e mais ativos – normalmente um quarto de centavo de dólar por título para quem chegar primeiro.

Esses pequenos pagamentos, dispersos em milhões de títulos, ajudam os investidores de alta velocidade a lucrar através da simples negociação de um número enorme de papéis, mesmo comprando ou vendendo a uma perda modesta.

Em Wall Street, os poderosos algoritmos – “algos”, no jargão do setor – executam milhões de ordens por segundo e podem varrer dezenas de mercados públicos e privados simultaneamente. Eles podem ainda detectar tendências antes de investidores piscarem, mudando suas ordens e estratégias em milissegundos.

Assim, conclui-se que a importância do ser humano operador, na elaboração de seus caminhos, algoritmos (assim como um craque como o Pelé antecipava as jogadas), é fundamental para seu sucesso operacional. O cenário que se desenha na sua cabeça, estratégia que será programada, é fruto de seu conhecimento adquirido.

Durante muito tempo ironizaram o chamado “feeling” do operador de mercado, muitos diziam que isso não passava de um chute de expectativa. Contudo,  é preciso estar ciente que o “feeling”, de fato, é um cenário construído ao longo do tempo na mente de um grande operador, um craque de mercado. Este consegue elaborar seus parâmetros, suas estratégias e invariavelmente obtém grandes resultados.

“Os grandes espíritos têm metas. Os outros apenas desejos”, Washington Irving.

Há 37 anos no mercado financeiro, Waldir Kiel Junior é economista e escreve mensalmente na InfoMoney.
waldir.kiel@infomoney.com.br

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