Colunista InfoMoney: Renda fixa na Bovespa é uma falácia

Nesses anos todos, vi várias operações que buscavam renda fixa no mercado bursátil se tornarem carteiras indesejadas

Por  Waldir Kiel
A crise financeira recente que derrubou o principal indicador da carteira de ações no Brasil, o Ibovespa, de pouco mais de 73.000 pontos para algo próximo dos 29.000 pontos, não foi suficiente para que alguns investidores tomassem ciência com o aprendizado de que tentar transformar um investimento de renda variável em renda fixa envolve riscos inerentes a essa ilusão.

Em busca de maiores taxas de juro, muitos investidores, antes da crise fizeram a chamada operação de financiamento em bolsa, o mercado desabou e acabaram virando detentores de carteira de ações, sem ter se programado para isso.

Com a retomada da confiança e consequente alta das ações, muitos esqueceram rapidamente as lições do passado e voltaram a buscar a “renda fixa” em mercado de renda variável.

“A renda fixa não pode ser confundida”

O princípio básico de qualquer aplicação financeira está calcado na relação entre o risco e o retorno. Quanto maiores os retornos esperados maiores serão os riscos; para riscos menores, retornos em menor escala.

Existem algumas modalidades da chamada remuneração de carteira de ações. A mais comum é a chamada venda de opção coberta, onde o investidor compra ações de uma determinada empresa que tem opções negociadas na Bovespa e vende o montante de opções equivalente à aquisição do número de ações, visando assim, uma taxa de retorno para aquele período que vai do início da operação até o vencimento das opções.

As taxas de juros teoricamente embutidas nesta operação de venda coberta costumam ser proporcionais à probabilidade do evento se concretizar, ou seja, do investidor ser exercido, e assim, a taxa de juros se confirmarem.

Quanto mais distante estiver o preço de exercício da opção do preço do ativo à vista, no momento da operação, menor será a probabilidade de ser exercido, e assim, maiores serão as taxas de juros embutidas. Quanto mais abaixo do preço do ativo for o preço de exercício, menor será a taxa de juros obtida. Em resumo, maior risco de não ser exercido, maior rendimento; menor risco menor rendimento; risco x retorno.

O que muita gente não compreende é que renda fixa não é um tipo de investimento condicionante, e sim uma modalidade de aplicação onde as condições não se alteram desde o momento que se fez a operação até a data do vencimento dela, independente de qualquer evento.

Nesses anos todos de mercado, já vi várias vezes operações que buscavam renda fixa no mercado bursátil se tornarem aquisições de carteira indesejadas. O investidor foi buscar a tal remuneração e acabou ficando com o papel na mão. Também vi muitos venderem opções cobertas e ficarem sem o papel enquanto o mercado disparava.

Para que a operação de venda de opção coberta se realize como renda fixa será preciso que o mercado suba e o lançador seja exercido. Ora, se a pessoa tem essa convicção da alta, melhor seria comprar somente o ativo.

Renda fixa não pode ser confundida. A renda variável, bolsa de valores, deve ser avaliada de acordo com a metodologia e estratégia de cada um; a partir daí, tomar a decisão do que deverá ser feito, comprar ou vender. Se for bom compra, se for ruim vende. O resto é pura ilusão.

“Se o desejo escraviza o pensamento, a verdade foge de imediato pela janela mais próxima. Quando as pessoas abandonam sua natureza essencial para seguirem seus desejos, suas ações nunca são corretas”, dizia Lao Tse.

Há 35 anos no mercado financeiro, Waldir Kiel Junior é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras. Organiza o site Aviso em Dois.
waldir.kiel@infomoney.com.br

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