Colunista InfoMoney: Recuperação sem emprego?

Aumento da produtividade dos trabalhadores e realocação de contingentes nos setores da economia explicam descompasso entre emprego e retomada
Esse é um tema recorrente durante o final de períodos recessivos. O atual presidente do Banco Central americano (FED), Ben Bernanke, divulgou, em 2003, um texto mencionando os diferentes padrões de recuperação das recessões de 1980 e 1991. Á época, a dúvida era a mesma de agora: é possível os EUA saírem de um declínio de atividade mesmo sem a criação de emprego? O fenômeno é chamado de jobless recovery (recuperação sem emprego) e já ocorreu nos períodos de 1991 e 2001%.

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Muitos macroeconomistas já destinaram tempo e recurso estudando esta teoria e, até agora, não há uma conclusão definitiva. Duas hipóteses mais plausíveis foram levantadas. A primeira se refere a mudanças permanentes da estrutura econômica dos EUA. Em uma recessão, alguns setores são mais afetados que outros. Algumas perdas de dinâmica, emprego e produtividade são permanentes e outras temporárias.

O principal exemplo pode ser observado na recessão de 2001. O setor de bens duráveis já estava perdendo empregos dois anos antes da recessão (-83 mil postos de trabalho). Durante o período, que durou apenas oito meses, a perda foi de 869 mil vagas. Mesmo com o término da recessão, o emprego continuou em declínio por mais dois anos, perdendo um milhão de vagas. E mesmo durante o período de recuperação do mercado de trabalho, o setor perdeu 143 mil trabalhadores.

Pode-se ver no gráfico abaixo como o nível de emprego, de forma permanente, está sendo destruído na indústria de bens duráveis. Os principais momentos de mudanças são os períodos recessivos. E o que isso tem a ver com o fenômeno de jobless recovery? A transição do contingente de trabalhadores de um setor menos produtivo para um mais produtivo demora um certo tempo, no qual o empresário tem de acomodar as mudanças estruturais da economia.

“EUA podem ter crescimento positivo sem a geração equivalente de empregos”

A segunda hipótese, e a mais plausível, é o aumento de produtividade dos trabalhadores no período de recuperação. Temos ainda um aumento do esforço dos empregados que permaneceram no mercado de trabalho. Para o período de 2001, há um outro fator que pode explicar esse crescimento da produtividade. Seria o resultado atrasado do esforço de investimento em equipamentos de alta tecnologia que os empresários realizaram ao longo dos anos 90. Assim, com uma produtividade em alta, as empresas não precisam voltar a contratar tão logo termine a recessão. Há um período mais longo de cautela e crescimento do produto com a maior produtividade dos trabalhadores.

Com isso, a pergunta que cabe hoje é: teremos mais um evento de jobless recovery? É possível que sim. A economia continua passando por transormações em sua estrutura, com um maior contingente de trabalhadores em setores como o de serviços profissionais, e menos nos setores industriais de manufaturas. Além disso, pudemos observar ao longo dos anos 2000 um crescimento expressivo de novas tecnologias, o que pode gerar um aumento da produtividade. Portanto, acreditamos ser possível um novo período, uma nova fase pós-recessiva em que os EUA tenham crescimento positivo sem a geração equivalente de empregos.

Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br