Colunista InfoMoney: primeiros passos do investidor em ações

Paulo Esteves, analista-chefe da Gradual Investimentos, estreia coluna sobre análise do mercado para iniciantes

Nos primeiros passos na bolsa de valores, o investidor deve ter claro o que é uma ação, quais os seus riscos e como o investimento em ações pode interagir com suas metas financeiras. Ouço muita gente afirmar que prefere investir em imóveis, pois existe um lastro físico que dá maior segurança na hora de aplicar o dinheiro. Complementando o raciocínio, muitos ainda veem a bolsa quase como um cassino, onde se “aposta” em empresas e a ação é uma espécie de aposta.

Bem, tal idéia é equivocada. A ação na verdade representa uma fração do capital social de uma empresa, ou seja, ação é um “pedaço” de uma companhia aberta. Tome, por exemplo, uma siderúrgica: sua ação será uma parcela das instalações industriais, escritórios, depósitos, estoques, equipamentos, capital humano, know how, marcas e patentes, participação de mercado, etc.

Portanto, podemos entender o investimento em ações como uma excelente forma de participação do desenvolvimento econômico do país e como importante alternativa de diversificação da poupança individual com foco na acumulação de capital no longo prazo.

“Muitos ainda veem a bolsa
quase como um cassino;
tal ideia é equivocada”

Por outro lado, devemos compreender e refletir sobre os riscos do investimento em ações. Quando se investe em caderneta de poupança, por exemplo, o aplicador está colocando dinheiro em um ativo de renda fixa, onde ele consegue mensurar seu retorno antecipadamente (no caso da poupança: 6% ao ano mais TR). Já no caso do investimento em ações, a modalidade é de renda variável, o que significa que o retorno é incerto, e inclusive pode ser negativo em determinados períodos de tempo.

Consciente da natural volatilidade das bolsas frente a outras alternativas de investimento, o aplicador deve ter em mente que não deve alocar valores que poderá necessitar no curto prazo em ações. Em prazos curtos de tempo, as bolsas são muito suscetíveis ao noticiário macroeconômico e aos próprios movimentos de fluxos de recursos. Já quando se investe em ações no longo prazo, o tempo trabalha a favor para que os fundamentos das empresas se concretizem e consequentemente ocorra a valorização das ações.

Ilustrando o raciocínio, nos últimos 30 anos o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média anual de 2,7% e o Ibovespa apresentou uma rentabilidade média anual de 34,3% em termos reais. Ou seja, não só a bolsa espelha o natural crescimento econômico do país, como tem o poder de amplificar a sua valorização ao longo do tempo.

A questão do tempo, talvez até por um fator cultural, deve ser reforçada aqui no Brasil. Enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, se vive em uma economia relativamente estável há muito tempo, o investidor daquele país está acostumado ao planejamento financeiro de longo prazo. Já no Brasil, vivemos um mundo de “ciranda” financeira e de hiperinflação por um bom período e de certa forma, uma economia estável ainda é um “mundo” novo para a gente.

Ou seja, enquanto nos Estados Unidos, os casais há décadas estão acostumados a montar uma carteira de ações para um filho recém-nascido, antevendo os gastos da universidade para dali a quase duas décadas, só recentemente os brasileiros passaram a incorporar efetivamente o mercado acionário como uma alternativa plausível de poupança visando uma meta no longo prazo (faculdade do filho, complementação da aposentadoria, compra de um imóvel).

 

Paulo Esteves, economista e mestre em Administração de Empresas pela USP, é analista-chefe da Gradual Investimentos  e escreve mensalmente na InfoMoney.

paulo.esteves@infomoney.com.br

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