Colunista InfoMoney: Prato feito com contra-filé ou filé de frango?

Qual será a trajetória para o preço do boi gordo no segundo semestre de 2008, e também ao longo de 2009?
No artigo passado, destaquei que a alta do preço do boi gordo – processo que se verifica desde o início de 2007 – está relacionada, dentre alguns dos fatores, a um descompasso entre oferta e demanda, oriundo da elevação do abate de matrizes e de bois, ao mesmo tempo em que a demanda interna e externa apresentava crescimento. Porém, qual será a trajetória para o preço do boi gordo no segundo semestre de 2008, e também ao longo de 2009?

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Pelo lado da oferta, não se deve esperar grandes mudanças no cenário. Não há expectativa de que surja no curto prazo uma grande quantidade de bois no mercado. Para que o boi atinja a idade de abate, leva-se algum tempo, e os preços começaram a ficar realmente atrativos para o produtor e com tendência altista mais definida somente a partir do final do ano passado. Ou seja, não há tempo suficiente para a recomposição da oferta.

Pelo lado da demanda, a alta do preço da carne bovina no varejo fez com que ocorresse um efeito substituição. De maneira simplificada, trata-se de um efeito a partir da relação entre demanda e preço. Por exemplo, se em um mercado onde existem somente dois bens, os bens i e z, e estes bens são substitutos, então dada uma alta do preço do bem i, e mantido constante o preço do bem z, o agente econômico irá substituir o bem i pelo bem z. No mercado de carnes, a carne de boi pode ser substituída na mesa pela carne de frango ou carne suína.

“A expectativa é de que o consumo por carne bovina se desacelere, mas não se retraia”

De fato, o consumo de carne de aves e suína se elevou neste ano, entretanto, os preços destes produtos não se mantiveram constantes, pois houve elevação dos custos (alta do preço do milho, por exemplo) e, em uma situação em que a demanda (doméstica e internacional) permanece se expandindo, houve espaço para o repasse da elevação dos custos ao preço do consumidor. Logo, restou ao consumidor a opção da carne bovina de segunda, cujo preço também se elevou recentemente, o que pode ser observado a partir dos dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE).

Pelo fato dos alimentos serem um bem inelástico, ou seja, uma alta do preço acarreta em uma pequena variação negativa do consumo, já que se tratam de bens essenciais, a expectativa é de que o consumo por carne bovina se desacelere, mas não se retraia, com a alta dos preços dos alimentos. Os recentes números de geração de emprego através do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mostram que a tendência ainda é de contratação de funcionários na economia, o que implica maior demanda futura, inclusive por alimentos.

Enquanto não houver uma redução do preço dos bens substitutos, é menos provável que haja uma significativa queda do consumo de carne bovina, principalmente de carne de segunda. Do lado externo, em que pese o fato de que a economia internacional passe por um momento de arrefecimento, não significa que os maiores importadores de carne bovina brasileira (Rússia, Egito e Venezuela) deixem de comprar, mas sim de que as exportações – em quantidade – irão crescer a um ritmo menor nos próximos anos.

Portanto, sob a perspectiva de manutenção do cenário em que a demanda supera a oferta, os preços ainda podem apresentar ligeira alta no mercado interno, ainda mais pelo fato de que no segundo semestre, devido à estiagem nos pastos, a oferta de boi se retrai.

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Para 2009, a exemplo deste ano, dificilmente a oferta irá se equilibrar à demanda. A intensificação dos abates ocorreu entre os anos de 2005 e 2006. Ou seja, com baixa probabilidade houve investimentos nesse período, cuja maturação estaria ocorrendo em 2009. O momento atual é favorável para os produtores de gado, porém, o preço do bezerro se elevou de forma expressiva, o que pode implicar em uma menor expansão futura da oferta e, conseqüentemente, um ajustamento entre oferta e demanda mais lento no médio prazo.

Chau Kuo Hue é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
chau.hue@infomoney.com.br