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Atualmente tenho a sensação de que estamos circulando por aí com um bottom invisível que diz: “por favor, não me comprometa…”. Sei que deveria cuidar melhor, mas não tenho tempo para me dedicar a mais uma questão secundária, que me desviará do meu objetivo principal, do meu target, da minha missão. E por aí vai…
É claro que faço referência à questão da sustentabilidade. A discussão deste capítulo de repente está na boca de presidentes de nações pelo mundo afora. Deparamo-nos com o debate sobre a sustentabilidade e, pela primeira vez, tenho a impressão de que não estamos falando de um slogan, ou de algo apenas “politicamente correto”, mas de uma circunstância que nos imprime exigência, que se não for cumprida nos levará a prejuízos antes ainda não vistos.
| “O poder de mudança está em nós se soubermos cultivar nossa indignação, que nos movimenta a agirmos!” |
A discussão das últimas semanas em torno da sustentabilidade nos leva a alguns pensamentos. A Amazônia é o foco, é a bola da vez, e todo e qualquer produto ou produtor que tiver qualquer relação com o capítulo Amazônia estará sujeito a ter que se explicar. O desmatamento da Amazônia de fato ocorre, as causas são múltiplas, as explicações são difíceis e as soluções ainda mais.
Nada mais fácil do que pautar o fenômeno do desmatamento e buscar a causa em primeiro lugar no Brasil e de preferência em setores como o da carne, da soja, da madeira e do carvão como originários do problema. É provável que a causa primeira esteja até mesmo alocada nestes setores, mas certamente os fatores social, legal e político são tão fortes quanto os setoriais. Quanto às causas secundárias, são acusadas de serem as incentivadoras, como é o caso dos biocombustíveis, pelo fato de empurrarem outros setores em direção às reservas florestais.
A informalidade e a formalidade se encontram par-a-par na fronteira do bioma amazônico, o que torna a mensuração deste problema ainda mais complexa. Até este ponto estamos nos referindo ainda ao universo brasileiro; mas se nos distanciarmos um pouco mais, buscando uma visão mais panorâmica, veremos que os efeitos secundários têm talvez uma força muito grande e transformam os efeitos primários em impactos menores.
Os mercados alimentícios da União Européia e dos Estados Unidos, fechados durante décadas, engendraram um enorme desvio macroeconômico na economia mundial. O terceiro choque do petróleo aprofundou de maneira espantosa este desvio, de tal ordem que, de um mês para outro, não só houve desabastecimento de produtos alimentícios em países pobres e ricos, como promoveu também a volta da inflação, não só no Brasil, mas em âmbito mundial.
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Acusar os biocombustíveis de responsáveis por estas mazelas e nos impingir o escandaloso atributo de estarmos mal na foto da luta contra a mudança climática é muito fácil: enfim achou-se um responsável! Na verdade, estamos presenciando o desenrolar do pior dos pecados individuais e coletivos: o da omissão. Errar na ação resulta de uma série de medidas desprezadas durante um determinado processo decisório; mas, na avaliação das responsabilidades, aquele que errou certamente terá um abrandamento na culpa por ter tomado iniciativas.
A omissão, no entanto é mortal, porque sua essência é a indiferença; indiferença para com o outro e para com a causa pública. A indiferença (e seus efeitos colaterais) é tão mais grave do que o erro pela ação, porque coloca todo o empreendimento pessoal, coletivo, empresarial ou de uma nação em jogo.
Se observarmos as indiferenças para com as grandes mazelas mundiais como a fome, a miséria e as catástrofes ambientais, não estaremos longe de observar que muitas das políticas de desenvolvimento, desiguais e inibidoras de simetrias sócio-ambientais mais justas, levam a efeitos desastrosos. A não conclusão das negociações da Rodada de Doha é um ótimo exemplo disto; o não fechamento do acordo União Européia-Mercosul é outro. E não há ajuda humanitária que possa amenizar os impactos causados durante anos, pelas exportações subvencionadas dos alimentos.
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A insensibilidade diante da fome e da miséria no mundo nos deixa atônitos. Por algum tempo indaguei a Deus porque ele tinha permitido um tsunami, no qual pereceram mais de 100.000 pessoas em uma única onda mortífera. Recebi a resposta através da argumentação de um amigo meu, que opinou que talvez Ele quisesse nos dizer que se estivéssemos tão sensibilizados com o tsunami que Ele nos mandou, porque não estaríamos pelo fato de, a cada semana, termos mais de 100.000 mortes de crianças por fome e doenças no mundo?
É um tsunami por semana, com uma grande diferença, no tsunami da onda, pouco se pode fazer para nos defender, mas quanto ao outro, da fome e das doenças, certamente está em nossas mãos e podemos nos defender! A indiferença nos mata aos pouquinhos. Olhar para o lado, sermos indiferentes quando devemos agir não vai nos deixar passar ilesos, mas fará com que paguemos uma conta bem maior lá na frente.
Pois é, parece que estamos começando a pagar uma conta destas… É grande o risco da indiferença, porque ele não é perceptível de imediato, ele permanece oculto, enquanto o da ação é visível e fácil de ser identificado, é transparente. Enquanto a indiferença, que é a atitude básica da omissão, somente se faz perceber depois de algum tempo e provavelmente já existe outro gestor no lugar, que poderá responsabilizar seu antecessor sem enrubescer, dizendo “foi negligência dele”. Na ação criticamos e colocamos alternativas. E na omissão, o que de fato fazemos?
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O risco da indiferença é enorme porque passa despercebido! Podemos reduzir a indiferença se aprendermos de novo a nos indignar! É preciso exercitar nossa capacidade de indignação, que nos encoraja a agirmos. Os problemas não se tornarão menores, mas melhor resolvidos, e podemos mobilizar outros, que como nós não queremos aceitar que tsunamis semanais ceifem milhares de pequenas almas. O risco da indiferença está em mim e em você, o olhar de lado e deixar passar. Mas o poder de mudança está em nós se soubermos cultivar nossa indignação, que nos movimenta a agirmos!
Quero fixar no meu coração o bottom “eu cuido”. Você me acompanha?
Ingo Plöger é empresário, coordenador do 1º Fórum de Líderes em Sustentabilidade e presidente da IP Desenvolvimento Empresarial Institucional – especializada em negociações internacionais – e escreve mensalmente na InfoMoney, às sextas-feiras.
ingo.ploger@infomoney.com.br