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Acostumamos-nos a ter a moeda americana como reserva de valor, e certas vezes como investimento especulativo, basta lembrarmos do período eleitoral. Entretanto, de alguns meses para cá, tudo anda meio diferente. No início, achávamos que era um movimento transitório, alguns apregoavam com veemência que ele – o dólar – não viria abaixo da fortíssima barreira dos R$ 2. Pois ele veio! E com isso alguns paradigmas tupiniquins precisaram ser revistos.
Os mais experientes, com memória inflacionária, ainda continuam um pouco resistentes à idéia de um real forte, mas a questão presente não é só a valorização do real, e sim uma verdadeira desvalorização do dólar em âmbito mundial.
| “Não existem fatores no médio prazo que justifiquem uma apreciação relevante do dólar” |
Internamente, temos como catalisadores para a valorização do real, e, por conseguinte, desvalorização do dólar, uma economia brasileira em um momento favorável, sob um sistema de metas de inflação que está cumprindo sua atribuição. O PIB em crescimento; indicadores industriais em ascensão; vendas em alta; forte fluxo de capitais para o país, tanto via investimento em formação bruta de capital, quanto via investimento de portfólios.
O investimento externo tem aumentado consideravelmente, primeiro porque temos a maior taxa de juros reais do mundo, segundo porque nosso mercado de capitais cada dia aumenta mais o seu tamanho, agora ratificado pelo grau de investimento, o que irá incentivar ainda mais o ingresso de capitais no Brasil.
Isso tudo somado contribui para reduzir a volatilidade do câmbio. A redução de volatilidade traduz-se em cenários mais previsíveis, o que auxilia o controle inflacionário.
A alta dos preços dos alimentos deve colaborar para manter o dólar comportado, já que a alta dos preços dos alimentos exige algum aperto monetário para manter a inflação perto do centro da meta. A alta dos juros faz com que mais investimentos externos (leia-se novos dólares) migrem para o Brasil em busca de melhores rendimentos, adicionando pressão extra sobre o câmbio.
Contudo, a resolução que aumenta o IOF para investidores estrangeiros que buscam aplicar em títulos públicos do Tesouro Nacional deve minorar o impacto do aperto monetário sobre o câmbio.
Não existem fatores no médio prazo que justifiquem uma apreciação relevante do dólar.
A economia americana continua apresentando indicadores econômicos que demonstram retração da atividade. O chamado “déficit gêmeo”, combinação de déficit fiscal e déficit da balança de pagamentos, são insumos para um desestímulo ao investimento na moeda americana. A crise imobiliária ainda persiste com indicadores ainda negativos. Portanto, o dólar ainda não está tão verde assim.
Marcelo Faro é gerente de Negociação Eletrônica da Intra Corretora e escreve excepcionalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
marcelo.faro@infomoney.com.br