Colunista InfoMoney: Muita calma nessa hora

Vivemos um período de turbulências sem precedentes no mercado global; em dois anos e meio, a especulação com os derivativos quase duplicou

Já há um bom tempo venho insistindo nesta coluna para que o investidor tenha muita cautela e mantenha uma postura conservadora em suas aplicações financeiras, já que vivemos um período de turbulências sem precedentes no mercado financeiro global.

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A chamada auto-regulação provocou não só uma crise nos empréstimos hipotecários subprime nos EUA como também deflagrou um contágio em todo sistema financeiro internacional. Isso trouxe à tona uma enorme montanha de dívidas, títulos, finanças “estruturadas” e os milhares de derivativos “exóticos” que estão estourando em cascata e que nós faz chegar à conclusão de que a economia, de fato, se submeteu de forma selvagem a uma financeirização sem regulamentações e sem controle.

Para se ter uma idéia da dimensão desses instrumentos, segundo dados oficiais do BIS (Banco de Compensações Internacionais), de Basiléia, o mercado de derivativos “fora-de-balcão” (OTC ou over-the-counter), ou seja, que são negociados fora dos mercados regulares, havia atingido um valor nominal de US$ 250 trilhões em junho de 2004. Os últimos números fornecidos pelo BIS, no final de dezembro de 2006, elevava o valor total dos derivativos OTC para mais de US$ 415 trilhões. Em dois anos e meio, a especulação com os derivativos quase duplicou.

“Derivaram tanto os ativos que esses podem acabar à deriva”

É de se imaginar o tamanho deste mercado em 2008. Existem estimativas, não oficiais, que apontam para um montante próximo a US$ 600 trilhões. Derivaram tanto os ativos que esses podem acabar à deriva.

Na semana passada, os mercados foram surpreendidos por uma nova onda de prejuízos em produtos financeiros chamados de ARS (“auction-rate securities”) oferecidos pelos bancos norte-americanos aos seus clientes, como uma aplicação da qual eles poderiam se desfazer facilmente através de leilões semanais, o que a tornava teoricamente muita “líquida” e fácil de vender.

Isso dentro de uma normalidade que não se configurou já que a crise financeira se tornou severa e a corrida para liquidar esses papéis provocou uma desvalorização crescente e o bloqueio dos leilões, obrigando a justiça norte-americana a intervir em defesa dos investidores, deflagrando mais uma montanha de prejuízos que levou o ex economista-chefe do FMI, Kenneth Roghoff, prever que um grande banco de investimentos dos EUA quebrará nos próximos meses.

Se as autoridades monetárias pelo mundo conseguirão conter essa crise a bom termo, só o tempo irá dizer, mas a conclusão que tiramos desse cenário e de crises brasileiras passadas é que, no fundo, a regulação de “mercado”, com a alegação do chamado risco sistêmico, acaba se ancorando no último provedor de recursos, os tesouro nacionais.

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A história tem mostrado que governos raramente quebram. Podem podar correções de suas dívidas, mas continuam sendo o último socorro das aventuras do “Senhor Mercado”.

Na semana passada, participei de um debate na Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro) sobre padronização, transparência e liquidez no mercado de títulos de renda fixa. Estavam presentes representantes do Banco Central, Tesouro Nacional, Andima, Cetip, BM&F e demais entidades do mercado. Havia por volta de 150 pessoas.

Depois de tudo que foi discutido, sai de lá com uma convicção: hoje os conceitos de liquidez, transparência e mercado estão totalmente mudados, as propostas foram, na sua maioria, propostas de interesses específicos e corporativistas. De onde depreendi que o maior temor do “mercado” é de fato ter mercado!

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No cenário econômico do Brasil, contrariando as expectativas de forte aumento de demanda e de diversas projeções exageradas da maioria dos analistas de mercado, a inflação tem arrefecido à medida que os preços internacionais das commodities também tem recuado.

Como a taxa de juros brasileira continua exageradamente alta, mesmo que o Banco Central continue a subir os juros desnecessariamente, a oportunidade de se ancorar nas aplicações em renda fixa continua sendo o melhor caminho a ser seguido por um bom tempo até que os ativos encontrem o seu ajuste.

Há 35 anos no mercado financeiro, Waldir Kiel Junior é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
waldir.kiel@infomoney.com.br