Colunista InfoMoney: Horizonte limpo

Deveremos ter uma pausa para realinhamento de carteiras na fase atual, mas o céu está ficando cada vez mais claro no horizonte
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Somente no segundo trimestre deste ano, mais 111 instituições financeiras ingressaram na relação dos “bancos norte-americanos problemáticos”, e com esse aumento de 36% foi atingido o nível mais alto dos últimos 15 anos, ou melhor, desde junho de 1994. O organismo federal de segurança dos depósitos em bancos, no entanto, não quis revelar o nome das que se encontram no tal patamar considerado como problemático.

Agora, nos Estados Unidos, estão sob suspeita 416 bancos, cujos ativos totalizam aproximadamente US$ 299,8 bilhões, que ainda não se enquadraram nas novas normas, em termos de qualidade de ativos, liquidez e resultados, estabelecidas pela Federal Deposit Insurance Corporation. Porém alguns analistas acham que, no momento, os fracos resultados desses bancos estão refletindo não somente as dificuldade enfrentadas pelo setor, como a necessidade do reconhecimento das perdas de crédito e, principalmente, da limpeza dos balanços.

O afundamento na semana de três bancos pequenos aumentou para 84 a lista de entidades fracassadas pela crise este ano nos Estados Unidos mostra bem tal assertiva. As últimas vítimas, que sofreram intervenção das autoridades, são o Affinity Bank, da Califórnia, com ativos de US$ 1 bilhão; o Bradford Bank, de Maryland, com US$ 452 milhões em ativos, e o Mainstreet Bank, de Minnesota, com US$ 459 milhões.

No que diz respeito às bolsas, apesar dos números mostrarem que ainda há espaço para novas altas, o investidor deve ter um pouco de cautela com todo esse clima de otimismo que ronda os mercados. “Além das ações já não estarem mais uma barganha, ainda existem dúvidas sobre como será a intensidade da recuperação econômica global”, diz o estrategista do Santander, Marcelo Audi.

“Investidores deverão aproveitar atentamente a atual oportunidade”

Ele lembra que a relação preço/lucro (P/L, que dá uma ideia de quanto tempo demora para o investidor ter de volta o que aplicou) da Bovespa para os próximos 12 meses está entre 13 e 14 vezes, o mesmo nível que estava em maio do ano passado, quando o mercado brasileiro passava pelo seu melhor momento, com o país sendo promovido à grau de investimento e ainda não havia crise – um cenário bem diferente do atual. “Será que o mundo nos reserva surpresas negativas?”, indaga Audi. “Porque as positivas já estão todas incorporadas nos preços das ações”, completa.

Para corroborar tais palavras contra nosso País, o Santander elevou a recomendação sobre o mercado acionário do México de “underweight” para “overweight” por esperar que o país supere a performance do restante da América Latina no restante do ano, e reduziu recomendação para os mercados acionários de Brasil, Chile e Colômbia. “A confiança no México deve melhorar depois que o país deve divulgar a mais forte melhora em termos de crescimento do Produto Interno Bruto”, afirma o Santander em pesquisa.

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A corretora também afirmou que vê espaço para relativa contribuição do câmbio para a performance das ações mexicanas se comparado com o restante da América Latina e o Brasil, em particular. O Santander reduziu recomendação para os mercados acionários do Brasil e do Chile depois do forte rali registrado nessas praças e está cortando a nota da bolsa da Colômbia. O Brasil teve sua recomendação reduzida de “overweight” para “neutro”.

Agora, as boas…

Os analistas do UBS consideram que as medidas adotadas pela maioria das empresas, a redução nos custos e no número de empregados dificilmente poderão ser repetidas. Porém acreditando na recuperação das receitas, movimento já esperado a partir deste semestre, estão prevendo que as empresas europeias vão entrar num período de crescimento sustentado dos lucros.

Levantamento efetuado com base nos resultados apresentados mostra que no segundo trimestre deste ano 23% das empresas listadas nas bolsas de valores apresentaram receitas abaixo das expectativas, mas 60% delas apresentaram margens de lucro acima da expectativa dos analistas, pois o corte nos custos e a redução de pessoal permitiram a manutenção das margens de rentabilidade.

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Os especialistas afirmam que os investidores já vão observar os sinais a partir dos próximos meses, como o crescimento das receitas no segundo semestre deste ano, e as principais economias da Zona Euro vão apresentar um aumento do PIB em cadeia no terceiro trimestre. Os técnicos do banco de investimento suíço estão prevendo que, neste ano, os lucros cairão cerca de 25% e voltarão a crescer a uma taxa de 10% em 2010.

E o otimismo continua… A economia brasileira deve sair da crise global “relativamente ilesa” graças às reformas feitas nesta década e o impacto “altamente benéfico” dos preços mais altos das commodities, segundo afirma um relatório divulgado pela consultoria Economist Intelligence Unit, braço de pesquisas da revista Economist. A EIU revisou para cima sua projeção para o crescimento do PIB brasileiro em 2010, para 3,3%. No mês passado, a empresa havia estimado em 2,7% o crescimento da economia brasileira no próximo ano.

Em meio aos milhares de investidores estrangeiros que andam seduzidos pelo Brasil – e que fizeram a Bovespa recentemente bater o recorde histórico de captação de recursos do exterior -, convém prestar atenção em um californiano de 56 anos. Larry Fink é dono da BlackRock, maior gestora de recursos do mundo, com um patrimônio de US$ 2,7 trilhões sob gestão – mais de duas vezes o PIB brasileiro.

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O primeiro lugar no ranking internacional foi conseguido em junho com a compra do Barclays Global Investors, gestora de fundos do banco britânico Barclays, por US$ 13,5 bilhões. Com a compra, Fink quer agora aprofundar sua liderança oferecendo diversos tipos de investimento em vários países – e isso deve se traduzir em mais dinheiro para o Brasil. “Queremos ter uma cara cada vez mais global, e o Brasil certamente é peça-chave nessa estratégia”, diz William Landers, gerente sênior de fundos de renda variável para a América Latina da BlackRock.

É consagrado como um profissional iluminado em uma Wall Street às escuras – sua gestora praticamente não teve saques de clientes, nem nos dias mais tensos da crise global. A BlackRock aplica em ações de empresas brasileiras listadas na Bovespa e na Bolsa de Nova York. São mais de US$ 8 bilhões. No fundo de América Latina, o Brasil é destino de US$ 4,5 bilhões – os papéis com a maior participação na carteira são Petrobras, Vale e Itaú Unibanco, que, juntos, representam mais de 25%.

A gestora tem vários fundos setoriais que também investem em empresas do país, um total estimado em US$ 4 bilhões. “O Brasil se mostrou um investimento defensivo durante a crise, já que as exportações pesam pouco no PIB do país e uma eventual queda não teria um grande impacto negativo”, diz Landers.

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Além disso, o Brasil reúne as condições necessárias para se tornar, nos próximos dias, o primeiro país, entre os 100 países analisados pela agência de classificação de risco Moody’s, a ser avaliado como ”grau de investimento” desde o início da crise econômica.

É essa a opinião do analista-chefe para o Brasil da agência, Mauro Leos. A classificação é dada a países cujas economias são consideradas seguras para investidores. A categoria determina se um país oferece ou não risco de pagar seus títulos. Quanto mais elevada a classificação, maior a propensão em atrair títulos.

Em entrevista à BBC Brasil, Leos afirmou que, se a conclusão do comitê de avaliação da agência for que o Brasil merece entrar nessa categoria, isso se dará porque ”o país está apto a arcar com choques externos, está se movendo na direção certa e os riscos de crédito que enfrenta são mais baixos do que antes”.

Fechando o otimismo, o presidente do Federal Reserve de Richmond, Jeffrey Lacker, disse que a economia dos Estados Unidos está se estabilizando após a forte recessão e que o mercado imobiliário deixará de ser um obstáculo para a atividade. “Eu acho que a economia está se equilibrando”, afirmou ele em entrevista ao jornal Danville Register & Bee. “Eu acho que há motivos para se ter bastante esperança”.

Em suma, o que demonstra claramente o enunciado é que deveremos ter uma pausa para realinhamento de carteiras na fase atual, mas o céu está ficando cada vez mais claro no horizonte. Os investidores deverão aproveitar atentamente a atual oportunidade e montar seus investimentos visando um retorno bastante significativo no médio e longo prazos…

Gil Ari Deschatre é professor da FGV e do Ibmec e escreve mensalmente na InfoMoney, às segundas-feiras.
gil.deschatre@infomoney.com.br