Colunista InfoMoney: Há mudança de fundamento do câmbio?

Há algumas falácias que precisam ser contestadas; em primeiro lugar, não entendo o malefício de uma valorização cambial
Vivemos de maio de 2004 até setembro de 2008 numa trajetória de câmbio unidirecional de valorização, com consequente maior capacidade de crescimento da economia brasileira. Após a rodada de deterioração econômica, ocorrida com a quebra do banco de investimento Lehman Brothers, foi realizado um teste para a economia brasileira.

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Nas outras crises internacionais, o mecanismo que existia na economia do país era o seguinte: O movimento inicial era de saída de recursos, pressionando o balanço de pagamentos, exigindo uma desvalorização cambial e/ou uma redução das reservas internacionais do Bacen.

Isso fazia com que a dívida pública subisse, demandando um aumento de juros por parte do Banco Central. Assim, ocorria nova deterioração na dinâmica da dívida, causando nova saída de capitais. Com isso, havia sempre um overshooting do câmbio e da taxa de juros, que causavam, num primeiro momento, um aumento da inflação e uma queda no PIB. Essa dinâmica era perversa para a economia brasileira e, com isso, ficou famosa a seguinte frase: Quando há uma gripe lá fora, aqui dentro pegamos uma pneumonia.

“No fim, qual é o melhor dos mundos? Um câmbio mais valorizado ou desvalorizado?”

Houve alguma alteração desde 2003 até os dias atuais? Sim, e muito positiva. No primeiro governo Lula, podemos dizer que tínhamos uma das melhores equipes de economia que já se viu na história. O ministro Palocci se mostrou uma surpresa muito grata, com assessoria de qualidade e fazendo dupla com o melhor presidente de Banco Central que já tivemos, Henrique Meirelles.

Apesar das críticas de setores incompetentes e irresponsáveis da “esquerda”, a manutenção de um compromisso com o sistema de metas para a inflação, um câmbio flutuante, o ajuste fiscal e as reformas microeconômicas diminuíram de sobremaneira o risco inerente à economia brasileira. Esse resultado está sendo colhido hoje. Precisamos de uma crise internacional para quebrar velhos paradigmas que prevaleciam a um bom tempo.

Na última coluna “A queda da taxa de juros é permanente ou transitória?”, deixei clara minha posição sobre a trajetória de juros que deveremos observar daqui para a frente. E o que acontecerá com o câmbio? Muitas pessoas do governo vêm a público falar que a valorização cambial é ruim e que está sendo causada pelos juros altos da economia do Brasil. Há algumas falácias que precisam ser contestadas nessas afirmações. Em primeiro lugar, não entendo o malefício de uma valorização cambial.

De um lado temos os exportadores e do outro a população brasileira de ex-exportadores. Com a valorização cambial, cai a rentabilidade do setor exportador, mas a variável fundamental para explicar a dinâmica das exportações é o crescimento externo e não o câmbio, este é apenas um dos fatores.

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Em contrapartida, a valorização cambial permite um aumento do poder de consumo da população brasileira com relação aos bens externos, a convivência com uma taxa de inflação mais baixa, um crescimento mais elevado da demanda doméstica e um aumento dos investimentos. No fim, qual é o melhor dos mundos? Um câmbio mais valorizado ou desvalorizado? Eu fico com o câmbio mais valorizado.

Outra parte dessa falácia diz respeito ao impacto do juros sobre o câmbio. Como podemos falar isso se a trajetória de juros é declinante? Porém, o que importa é a rentabilidade em moeda estrangeira recebida e não em moeda internacional, ou seja, o que importa é o potencial de valorização cambial + juros nominal e não somente o juros nominal.

Se a dinâmica da economia brasileira é observada como positiva, haverá boa rentabilidade para os investimentos externos, independente dos juros internos. Portanto, a trajetória de câmbio é baixista devido ao sentimento de diminuição de riscos da economia brasileira por conta da resolução de incertezas à sustentabilidade do balanço de pagamentos. Independente da taxa de juros que estivéssemos vivendo hoje, a trajetória do câmbio seria declinante.

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Graças a Deus, o presidente do Banco Central já deixou claro qual é a estratégia a ser seguida: Os juros determinam o equilíbrio doméstico, enquanto o externo será determinado pelo câmbio, que é flexível e totalmente endógeno ao ambiente econômico, ou seja, não será determinado por interferências externas.

Tomás Goulart é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
tomas.goulart@infomoney.com.br