Colunista InfoMoney: De quem é a culpa pelo déficit externo?

Mantega parece culpar os juros altos e a valorização do real pela piora das contas externas. Não concordo com essa opinião
O ministro Mantega deixa claro que a piora das contas externas incomoda o governo de sobremaneira. Como já relatado em artigo anterior “O ministério da fazenda está fazendo a política correta?”, os movimentos feitos até o momento pelo Ministério da Fazenda são ineficazes e estão errados conceitualmente. Na última sexta-feira (18/04), novos artigos foram publicados na mídia, dando a entender que novas medidas semelhantes à imposição do IOF sobre investidores estrangeiros poderiam ser adotadas.

Publicidade

Mas, a pergunta que fica no ar é: o que causou a piora nos déficits externos? Primeiro tenho que deixar claro que esse movimento em direção a um déficit em conta corrente é muito saudável e mostra que o Brasil vai aos poucos remando na direção de economias mais maduras. Hoje, o déficit em conta corrente é bem diferente em relação a períodos passados. Antes, o déficit era quase todo concentrado na conta de juros e o financiamento do balanço de pagamentos se fazia via empréstimos de instituições multilaterais. Hoje, o déficit ocorre por conta de alta nas remessas de lucros e dividendos e foi mais pressionado pela crise americana.

O financiamento se dá a partir da entrada de investimentos estrangeiros diretos e em portfólio. Isso é um sinal de que os agentes privados aceitam esse déficit em conta corrente e querem financiá-lo. Além do mais, é saudável também porque como o Brasil tem poupança doméstica baixa, a expansão da demanda interna tem que ser financiada pelo setor externo, ou então, vai significar maior inflação.

“O Ministério da Fazenda deveria se preocupar em reduzir seus gastos”

O ministro Mantega parece culpar os juros altos e a valorização do real pela piora externa. Não concordo com essa opinião. A piora das contas externas está única e exclusivamente ligada a uma absorção interna elevada que leva a uma necessidade de importação mais elevada, fazendo com que o superávit em conta corrente se transforme em déficit.

O livro texto básico nos ensina que:

Conta Corrente = (Poupança Privada – Investimento) + (Taxação – Gastos do governo)

A primeira equação está cada vez mais negativa, pois, vemos os investimentos subindo de maneira significativa e o consumo das famílias cresce a taxas indianas. A arrecadação do governo cresce fortemente, mas, na mesma maneira o faz as despesas públicas, que nos últimos 12 meses se encontram em 15%.

Continua depois da publicidade

Ou seja, para que não tenhamos problemas de conta corrente, quatro são as condições que têm que ser atendidas: 1) Poupança privada se elevar; 2) Investimento cair; 3) Taxação aumentar; 4) Gastos do governo caírem.

A poupança privada é uma variável de difícil controle e só será elevada em um momento no qual as famílias tiverem maior renda disponível, ou seja, pagarem menos impostos. O segundo caso, diminuir o investimento não é algo desejável dado que poderia diminuir o crescimento potencial da economia. Com relação à taxação da sociedade, a sensação é a de que se chegou ao limite e que a população não agüenta mais aumentos de impostos. Portanto, sobra o último caso, que é o de diminuir os gastos públicos.

Só assim, diminuindo os gastos públicos e, conseqüentemente, a demanda interna é que reduziria o déficit em conta corrente. Além do mais, o elevado gasto do governo tem mais um impacto considerado indesejado: como o setor público é demandante de bens não transacionáveis e o câmbio é por definição uma medida de preços transacionáveis e não transacionáveis, o aumento dos gastos do governo faz com que a inflação desses últimos se eleve e, assim, causa valorização do câmbio.

Continua depois da publicidade

Portanto, colocar a culpa dos problemas de déficit externo e da valorização do câmbio na política monetária é um erro e o Ministério da Fazenda deveria se preocupar em reduzir seus gastos a fim de combater o déficit em conta corrente e a valorização do câmbio.

Tomás Goulart é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
tomas.goulart@infomoney.com.br