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A crise financeira global aprofundou-se com a multiplicação em ritmo muito acelerado de situações em que um banco não emprestava a outro por não ter certeza de que os ativos ou as garantias desse outro valiam alguma coisa. A palavra confiança passou a ter outra dimensão quando associada ao novo mapa de Wall Street, transformado pelo furacão que em poucos meses mudou a face de cinco dos maiores bancos de investimentos dos Estados Unidos: Bear Stearns, Lehman Brothers, Merrill Lynch, Morgan Stanley e Goldman Sachs.
A nova dimensão da palavra confiança nos Estados Unidos assim como no resto do mundo embute agora o consenso de que os atuais mecanismos regulatórios não são suficientes para manter os níveis de risco dos investimentos em padrões aceitáveis.
| “A cota de surpresas está esgotada por um bom tempo” |
Não se sabe quanto tempo levará para as autoridades reconstruírem o modelo regulatório ou as entidades que representam as instituições do mercado avançarem no caminho da auto-regulação. Por isso ninguém ousa prever a extensão e a profundidade da crise.
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Enquanto não for recomposto o marco regulatório, a começar pelo modelo de remuneração e de bônus que estimulou por tanto tempo foco em ações de curto prazo e a busca desenfreada por resultados a qualquer custo, a janela de oportunidades dos últimos anos passa a limitar-se a uma fresta muito estreita.
Mesmo com os bons fundamentos da economia brasileira, não é possível prever quanto tempo poderá levar até que os investidores recuperem a confiança e voltem a comprar ações das companhias abertas. Há consenso de que elas estão baratas. Mas quem poderá predizer quando os investidores voltarão a pagar o que elas valem?
Como nunca antes, as corporações precisarão instrumentalizar-se mais e melhor para assegurar os investidores de que não terão surpresas desagradáveis. A cota de surpresas está esgotada por um bom tempo.
Até agora as empresas vinham sendo avaliadas primordialmente pelo Ebtida, a conta de lucros antes juros, impostos, depreciação e amortização que se converteu em uma espécie de ditadura, critério dominante da avaliação de empresas. Mas, neste ambiente mais exigente e que tende a ser crescentemente regulado, terão que transmitir mais segurança para os investidores.
Mais do que nunca, as companhias precisarão apriomorar os seus sistemas de governança corporativa. Não haverá investidor disposto a correr riscos que não sejam os do negócio em si. Entramos em um ambiente que tende a tolerância zero a riscos de gestão. A comunicação com o mercado terá que de suprir o vácuo de confiança no marco regulatório existente e de superar a ressaca de insegurança.
À medida que os governos caminhem na direção do restabelecimento da confiança, restará ainda a questão de como as economias irão reagir. Algumas poderão entrar em recessão, outras terão crescimento menor. O reconhecimento do valor das companhias também dependerá do impacto de tudo isso no desempenho futuro de cada setor, de cada empresa. Tudo tende a ser reprecificado.
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Para atrair recursos neste ambiente de crédito escasso e caro será preciso não apenas ser ser melhor, mas parecer melhor. Se existe algo auspicioso nesse processo é o salto em qualidade de gestão que necessariamente marcará a vida corporativa.
Arleu Anhalt é presidente da FIRB, ex-presidente executivo e atual membro do conselho de administração do IBRI e escreve bimestralmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
arleu.anhalt@infomoney.com.br