Colunista InfoMoney: Com crescimento e inflação para cima, para onde vai a Selic?

Primeiro aperto monetário do ano, ou em março ou em abril, faz diferença na provável trajetória da Selic neste ano

Por  Tomás Fonseca Goulart
O mercado de juros, a cada dia que passa, leva mais em consideração a possibilidade de vermos aperto monetário entre o fim do primeiro trimestre de 2010 e o início do segundo trimestre. Essas datas fazem realmente diferença na estratégia do BC (Banco Central)?

Essa é a grande dúvida que o mercado apresenta no momento. Boa parte dos analistas aponta o mês de abril como a data mais provável, ainda mais quando é feita uma comparação com a trajetória de política monetária em 2008, que o próprio BC induziu que todos fizessem.

Em 2008, o Copom iniciou o ciclo em abril, após ter preparado o terreno nas atas das reuniões de janeiro e março e consolidando a alta no relatório de inflação do fim do primeiro trimestre.

Agora, vimos uma ata em janeiro muito similar à ata de janeiro de 2008 e, se formos usar o passado como guia, seremos levados a crer que o Banco Central pretende dar mais um recado na ata de março e consolidar o processo com o relatório de inflação do final do semestre.

Assim, a alta seria dada em abril. Outra possibilidade seria o BC mudar o discurso e iniciar o processo de alta de juros já em março. Há diferenças entre esses dois momentos?

Minha resposta é que sim e baseia-se fortemente no comportamento das expectativas de inflação. Sabemos que no regime de metas de inflação, as expectativas dos agentes econômicos são as variáveis mais importantes a serem monitoradas.

“Primeiro aperto do
ano, ou em março ou
em abril, faz diferença
na provável trajetória
da Selic neste ano”

Pela análise histórica, sabemos que essas podem andar muito rapidamente, principalmente respondendo a eventos como números passados de inflação e ritmo de crescimento econômico.

Se os agentes econômicos supuserem que o BC, ao decidir não implementar um aperto monetário, está ficando atrás da curva (está ficando atrasado), o risco é de que o orçamento total de juros seja maior do que anteriormente esperado, dado que essa alta de expectativas terá que ser quebrada.

Dito isso, quanto podemos esperar de aperto monetário em 2010? Façamos o seguinte exercício: hoje, o juro real que temos na economia é de 4,25%, levando em conta a Selic de 8,75% e a inflação em 12 meses próxima a 4,50%. Claramente convivemos com um juro real abaixo do neutro.

Vamos supor que o BC leve esse juros para o juro real que vimos em 2007, que era de 7,0%. Podemos dizer, então, que teremos 250 pontos-base de aperto real. Qual é o outro condicionante?

A inflação. O IPCA para 2010 é esperado para 4,8% segundo a pesquisa Focus do BC e, até a reunião de março, pode convergir para 5,0%. Se levarmos isso em consideração, pelo menos mais 50 bps de aperto tem que ser feito. Assim, no cenário de alta de juros iniciada em março, a Selic fecharia o ano em 11,75%.

E se for em abril? Se as expectativas continuarem a caminhar na trajetória atual, podemos muito bem ver as projeções do Focus chegando a 5,5%, exigindo assim pelo menos mais 100 pontos-base de aperto (nesse caso até mais, pois a economia terá que ser desinflacionada) e o aperto necessário seria de entre 350 e 400 pontos-base, fechando o ano entre 12,25% e 12,75%.

Portanto, à medida que o cenário que observamos hoje siga sendo válido, a decisão de implementar uma subida de juros por parte do BC em março ou abril é muito importante, mesmo levando em conta somente um intervalo de 45 dias entre essas.

Tomás Goulart é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney.
tomas.goulart@infomoney.com.br

 

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