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Senão vejamos:
A expectativa de queda da taxa de risco país, crescimento dos lucros das empresas brasileiras, moderada valorização do dólar e contínua retomada das bolsas internacionais levou o Santander a fixar a meta de 80 mil pontos para o Ibovespa no final de 2010. Em relatório, a filial brasileira do banco espanhol explicou que a previsão baseia-se na premissa de uma taxa de risco-Brasil em 150 pontos, expansão de 44% do lucro por ação das empresas do Ibovespa, taxa de câmbio de R$ 1,95 real e retorno de 9,6% do índice MSCI World, indicador que mede o desempenho global dos mercados de ações.
Os fundos de mercados emergentes monitorados pela consultoria EPFR Global têm superado recordes semanais e anuais de fluxo de capital. A captação dos fundos de títulos de dívida de mercados emergentes na semana terminada na semana que passou, por exemplo, atingiu US$ 967 milhões – o maior número desde o início do monitoramento semanal, em 2001. A entrada de capital nos fundos de ações em mercados emergentes, por sua vez, atingiu um recorde neste período, com fluxo positivo de US$ 4 bilhões. Segundo a EPFR, os números dos três primeiros trimestres provavelmente já quebraram o recorde anual. “Os fundos de ações de mercados emergentes acumulavam fluxo positivo de US$ 52,6 bilhões até o final de setembro – muito perto do recorde anual anterior, de US$ 54,3 bilhões, estabelecido em 2007”, aponta a consultoria.
O Citi considera que a tendência de alta dos preços dos ativos no mercado de capitais brasileiro é improvável de ser revertida, mesmo com a medida de taxação de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) à alíquota de 2% sobre a entrada de capital estrangeiro para investimentos em renda fixa e variável. O banco afirma em relatório que reitera sua previsão de que o Ibovespa atinja 70 mil pontos até o final do ano.
| “Os fluxos continuam favoráveis. O momento deve ser explorado” |
Ainda com relevância para ações, de acordo com os analistas do JPMorgan, os investidores norte-americanos de varejo continuam a alocar capital em fundos de títulos de dívida. Segundo dados da AMG Data Services, dos US$ 413 bilhões que foram retirados dos chamados money market funds, que investem em ativos de dívida de curto prazo, US$ 365 bilhões foram investidos em fundos de títulos de dívida. Os fundos de ações, por sua vez, ainda registram resultado negativo no ano, mesmo com números positivos no segundo e terceiro trimestres. “O baixo volume de fluxo para o segmento é estranho, já que temos visto uma forte recuperação dos mercados de renda variável”, afirmam os analistas. Com isso, os analistas concluem que o fluxo de fundos de ações provavelmente irá avançar nos próximos meses. “Mesmo supondo novos ganhos nos preços de ativos, os retornos de 12 meses devem subir rapidamente, repetindo o padrão visto em 2003”, aponta o banco norte-americano. Contudo, para um aumento no fluxo dos fundos de ações, o dinheiro deve ser retirado de outro tipo de aplicação. Segundo o banco norte-americano, os prejudicados serão os fundos de bonds – cujo retorno de 12 meses vem mostrando forte avanço desde maio. “Esperamos que esses retornos atinjam seu ápice em outubro – e, com isso, os fluxos para os bonds devem recuar”.
Um artigo publicado na edição desta terça-feira do jornal “Financial Times” afirma que “o Brasil é a potência do século 21 a se observar”. Assinado pelo comentarista Michael Skapinker, o artigo compara duas visões antagônicas do país – uma negativa, na qual se sobressaem problemas de violência e desigualdade social, e uma positiva, que ressalta uma economia pujante e plena de recursos naturais. Sem tomar partido por uma das visões, o comentarista diz que o país será “a grande história do próximo ano”. Os fundamentos de sua avaliação foram apresentados por ele em um recente encontro que reuniu jornalistas de diferentes publicações internacionais. “O Brasil acabava de passar por uma crise financeira em boa forma. O país estava sentado em uma vasta descoberta de petróleo em alto mar. Havia testemunhado a maior abertura de capital do mercado neste ano – os US$ 8 bilhões colocados em bolsa pelo braço brasileiro do Santander. Seria também a sede de dois dos maiores eventos esportivos do mundo: a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.”
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A apenas a cerca de 10% da máxima histórica, o Ibovespa aparentemente não encontra barreiras para tocar essa marca e até ultrapassá-la, observa Luís Fernando Lopes, economista-chefe do Pátria Banco de Investimentos. Só que esta última pernada do índice, puxada pelas commodities, se distancia dos fundamentos, que até aqui prevaleciam. Ele lembra que a primeira rodada de recuperação se deu quando os agentes abandonaram as projeções “terroristas” e perceberam que o Brasil teria uma dinâmica econômica distinta da dos países desenvolvidos, no centro da crise. A diferença agora, argumenta Lopes, é que se trata de um fase típica de realocação de portfólios, em ativos que não sejam dólar. “Os players mais óbvios primeiro compram euros, depois ouro e, então, o real, e, no real, os que têm apetite por mais risco acabam na bolsa”, lista. O problema nesse fluxo mais recente, diz, é que ele é formado pelos hedge funds sobreviventes, que têm acelerado a alta e sem nenhum horizonte de longo prazo, é um dinheiro de qualidade pior. Apesar de o Ibovespa já ter cravado ganhos de mais de 75% neste ano, o movimento, por ora, não tem “cara de bolha”, na visão de André Spolidoro, gestor de Renda Variável da Nobel Asset Management.
É óbvio que qualquer realização mais forte nos atuais patamares é sadia e, quando surgir, servirá para atrair novos parceiros. A recomendação, portanto, é esta mesmo: na primeira queda um pouco mais agressiva do que a recente, merece a atenção bem determinada dos que querem participar do processo irreversível de ganhos até o ano vindouro.
Os fluxos continuam extremamente favoráveis e os grandes fundos começam a se preparar para a adequação da parcela brasileira em seus ativos, por conta do recente investment grade. O momento continua e deve ser explorado!
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Gil Ari Deschatre é professor da FGV e do Ibmec e escreve mensalmente na InfoMoney, às segundas-feiras.
gil.deschatre@infomoney.com.br