Colunista InfoMoney: Bicho Papão

Sem desmerecer estudos e conhecimentos das pessoas do Copom, tenho a impressão que elas vivem em outro mundo

Waldir Kiel

Tenho um amigo dentista, que assim como a maioria dos brasileiros, nunca teve contato ou prática com investimentos financeiros no passado. Como o mercado bursátil vem apresentando uma valorização espetacular nos últimos cinco anos, passando a ser assunto da moda na nossa conversa de amigos, ele passou a se interessar pelo assunto, estudando a literatura disponível e praticando um pouco as operações em bolsa de valores.

Publicidade

Como leitor de minha coluna, outro dia ele me fez uma sugestão para que eu escrevesse, por sua experiência nova no assunto, de como descobriu que não existe muito segredo e que as pessoas deveriam se interessar mais em administrar suas finanças, pois a bolsa de valores não seria nenhum “bicho papão”. Sugeriu até um nome para uma coluna aqui na InfoMoney: Bicho Papão.

Disse a ele que realmente era um assunto muito interessante, mas que o comentário sobre ações era feito por outro colunista, especialista no assunto, e que eu tinha como meta falar sobre o mercado de renda fixa.

“Será que a maioria dos participantes da área econômica conhece mesmo nossos problemas?”

Isso me fez pensar que a observação que ele tinha feito não tinha só a ver com o mercado de ações e sim com tudo que se relacionava ao mercado financeiro, principalmente quando se tratava da política monetária, da taxa de juros e do chamado comitê de política monetária, Copom.

Continua depois da publicidade

Cheguei à conclusão que o verdadeiro “bicho papão” financeiro era na verdade o chamado Copom.

Sem desmerecer a metodologia e os estudos e conhecimentos técnicos das pessoas que fazem parte deste comitê – para a tomada de decisão sobre a taxa de juros no Brasil -, tenho a impressão que elas vivem em outro mundo.

É bom lembrar sempre que o regime de metas de inflação adotado pelo Brasil em meados de 1999 foi um coelho sacado da cartola em meio a uma grande crise financeira, onde o país se encontrava à beira do abismo. Como o regime de metas era a grande novidade no mundo financeiro no momento, resolveu-se adotar esse sistema como a grande solução para os problemas que o país enfrentava.

Hoje esse regime de metas é aplicado de forma inconteste sem ao menos se questionar sua eficácia empírica, num país com problemas econômicos próprios e com enormes diferenças regionais que o diferem de outros onde o modelo já era utilizado.

As coisas aos poucos foram se resolvendo, o mundo passou a crescer de uma maneira mais vigorosa e com isso o Brasil, por sua condição empreendedora e disposição política renovada, rapidamente passou de uma condição pré-falimentar a se tornar um importante player no cenário mundial.

O problema maior é que se passou a acreditar que o Novo Brasil econômico foi conseqüência das políticas implementadas pelo Banco Central, quando na realidade o papel importante desempenhado por ele foi o de não ter inventado nenhuma mágica e não ter criado nenhum plano mirabolante. Em suma, como se diz no jargão de mercado, não ter feito marola.

Continua depois da publicidade

O que mais nos aflige é o fato da decisão da taxa de juro ser altamente influenciada por um pequeno e influente setor da sociedade, mercado financeiro, que por natureza carrega em suas análises a alta volatilidade que afeta os preços dos ativos e das expectativas econômicas.

O desejo de participar do consenso de mercado para os analistas que dele fazem parte é como a água do mar, quanto mais bebe mais sente sede.

Isso dissocia o Banco Central dos demais setores da sociedade, como a indústria e o comércio, que deveriam ter uma participação mais efetiva nas análises e decisões.
Cria-se um consenso, por diversas razões já sabidas e por interesses inerentes ao mercado, de que a inflação tenderá a subir, que o crescimento estará em breve acima da capacidade de produção, sem considerar a disposição do empresariado brasileiro em investir e da inserção do Brasil no cenário mundial globalizado, que permitirá, se for o caso, a importação de bens de consumo.

Continua depois da publicidade

Será que não se discute que o investimento do empresário, aumentando a capacidade de produção, é fruto da demanda de hoje e do que se prevê amanhã?

Poderia escrever aqui uma série de razões técnicas que exporiam essa contradição econômica, mas o texto ficaria muito longo, quem sabe numa outra oportunidade.
O fato é que as pessoas hoje que vivem um momento único de prosperidade econômica, com mais emprego, renda e expectativas de prosperidade, estão mais interessadas em discutir e participar das decisões, por isso passa cada dia mais a questionar.

Outro dia em um discurso para a revista The Economist, o presidente Lula disse com muita sabedoria que “os analistas econômicos internacionais erraram nas suas previsões por não terem detectado os problemas do subprime em seus países, que dirá dos problemas e soluções para o Brasil”.

Continua depois da publicidade

Pergunto então ao presidente Lula: Será que a maioria dos participantes da área econômica brasileira, que vive na redoma do mercado, conhece mesmo dos nossos problemas?

E se de fato a economia americana entrar e recessão e por conseqüência reduzir o crescimento do PIB brasileiro?
Essa disparada no preço das commodities não é a maior causa da subida dos preços dos alimentos?
Será que teremos um aumento de juros mesmo com uma taxa de juros de país em crise de 11,25% ao ano?
Se essa tal expectativa de aumento de preços prevista pelo mercado não acontecer, pelo que tudo indica, irá se justificar que a atitude firme e preventiva do Banco Central é que foi a responsável.
Argumentos não irão faltar.

Para o “senhor mercado” o passado sempre estará morto e enterrado.
Como cidadão, continuo a esperar pela descontinuidade e peço, por favor:

Bicho Papão de cima do telhado deixe o brasileiro trabalhar sossegado.

Continua depois da publicidade

Há 35 anos no mercado financeiro, Waldir Kiel Junior é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
waldir.kiel@infomoney.com.br