Colunista InfoMoney: Bastardas Inglórias

Existem ações que não tem caráter claramente determinado; quanto menor for a volatidade das emoções, maiores serão as chances de fazer dinheiro
Quando fui ao cinema motivada apenas pelo título, deixei a intuição agir sozinha. Somente durante o transcorrer do filme fiquei sabendo que “Bastardos Inglórios” é dirigido por Quentin Tarantino. O lucro intelectual que obtive foi infinitamente maior que o investimento financeiro e de tempo que fiz e não pude deixar de relacionar “Bastardos Inglórios” com algumas “ações” que nós adquirimos e que são Bastardas Inglórias.

Publicidade

Bastardo é “qualquer degenerado da espécie a que pertence”, ou ainda, “que não tem um caráter claramente determinado”.

Felizmente, há um crescente interesse pelo mundo dos investimentos e têm surgido investidores, curiosos e simpatizantes (os ICS). É nesse cenário que nascem os interessados pelo mercado de ações. Muitos atraídos pelo canto das sereias se deixam iludir pelos ganhos fáceis e são escalpelados no primeiro vacilo – quando não sabem, ou não usam as informações. Não significa que os iniciantes devam ver os investimentos em renda variável como uma guerra, mas a ingenuidade faz literalmente “perder a cabeça”.

“Quanto menor for a volatidade das emoções, maiores serão as chances de fazer dinheiro”

Muitos investidores contam com a sorte porque adquirem ações sem informações suficientes e depois, quando a peleja se aproxima, fecham os olhos horrorizados esperando tudo passar e “voltar ao normal”. Se numa sala de cinema isso basta porque a cena de escalpelamento é fictícia e distante, no mercado nada se resolve com um abrir e fechar de olhos. É preciso muito mais.

Uma ação pode ser degenerada ou digna, mas o fato do investidor comprar um papel “mau” ou “bom” depende da estratégia que ele possui e aquele que não vê claramente qual é sua estratégia deve desconfiar que está diante de um “autoboicote financeiro”, por que?

Porque todos, absolutamente todos, são avisados que o mercado é de risco, que não se deve comprometer o “dinheiro do leite”, que não “pode colocar todos os ovos no mesmo cesto”, enfim, avisos não faltam. Mas os ICS, jogadores que se travestem de investidores, vão infestar o mercado de capitais. E eles não deveriam fazer isso?

Não cabe fazer tal julgamento, mas é possível assegurar que a mente das pessoas é muito complexa, formada por uma rede de significantes que impõe uma guerra diária no intelecto e no coração de todos e quanto menor for a volatidade das emoções, maior for a inteligência financeira e mais intenso for o direito que cada um confere a si próprio de ser feliz e se dar bem, maiores serão as chances de fazer dinheiro, inclusive diante de ações bastardas e inglórias.

Márcia Tolotti é psicanalista, psicóloga, MBA em Marketing e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
marcia.tolotti@infomoney.com.br