Colunista InfoMoney: Banco Central do Brasil está muito além do surrealismo

Descompasso entre política monetária e realidade da atividade econômica brasileira coloca em xeque sistema de meta de inflação

Por  Waldir Kiel
Confirmando definitivamente o Brasil como primeiro colocado no ranking das taxas de juros reais mais altas do mundo, a decisão do Banco Central do Brasil – através do Copom (Comitê de Política Monetária) – de elevar a taxa básica de juros de 8,75% ao ano para 9,50% ao ano provocou fortes reações contrarias por parte de vários setores não financeiros da economia.

Uma reação em especial chamou a atenção, a declaração do presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que colocou em dúvidas a autonomia e a competência da instituição.

Vejam a nota: para a Fiesp, o BC agiu pressionado pelo mercado financeiro. “A pressão que vem sendo exercida sobre o BC, por parte dos interessados no aumento da taxa Selic, atingiu níveis ainda não conhecidos na sua atual gestão”, diz a nota. “Até a competência e a autonomia dessa respeitada instituição correm o risco de serem colocadas em dúvida”.

Os indicadores de inflação estão em queda, o nível da capacidade instalada da indústria, segundo dados da Fiesp divulgados na última terça-feira, está em 69,2%, os mercados financeiros pelo mundo vivem a beira de mais um ataque de nervos as voltas com crises na Zona do Euro e com a tímida recuperação do mercado de trabalho americano.

Neste panorama, o que teria levado o Banco Central a elevar os juros e sinalizar aumentos futuros nas taxas? Expectativas de um consenso de mercado que invariavelmente erra no médio e no longo prazo? O mercado erra porque faz projeções imediatistas em defesa de posições assumidas por grandes players nos mercados que acabam sendo seguidos pelos demais.

“Se o juro estivesse
em 5% ou 15%, sua
funcionalidade seria
a mesma: quase nula”

Teria cedido ao lobby dos bancos privados que perderam carteiras de clientes na última crise e querem recompor suas margens de lucros através dos aumentos dos spreads ou ao desejo mórbido da mídia em prejudicar a candidatura oficial? São apenas suposições, que acabam ganhando força diante de uma atitude inoportuna e precipitada como essa.

Convém lembrar que em abril de 2008, em um cenário semelhante onde já se vislumbrava a grave crise subprime que estava por vir, o BC pisou no freio ao invés de acelerar, aumentando a taxa básica de juros seguidamente de 11,25%a ao ano até 13,75% ao ano, para depois ser obrigado a reduzir rapidamente.

Como um dos participantes mais antigos do mercado financeiro na ativa, recuso-me a acreditar que nosso guardião da moeda seja movido por motivações de viés político ou de lobby de grupos financeiros. Acredito sim que as decisões de política monetária venham sendo conduzidas por uma miopia de realidade que geram uma crença que o modelo de metas de inflação funciona de fato e que a taxa de juros é responsável para definir o desejo de consumir ou poupar por parte da população.

Na última quinta-feira estive em um evento da Agência Estado, no qual o presidente do Banco Central estava presente. Infelizmente não tive a oportunidade que queria de fazer duas perguntas a ele:

  • Como é que se faz política monetária com as aplicações financeiras totalmente indexadas a taxa de juro flutuante, ao CDI over-night?
  • Porque é que o Banco Central carrega 1/3 de toda dívida pública federal em operações compromissadas de curto prazo que não influenciam a curva de juros?

É sabido que todas as vezes que um consultor ou gerente de conta corrente nos recomenda uma aplicação financeira à sugestão vem sempre acompanhada de um rendimento atrelado ao CDI. A aplicação em título X rende 95% do CDI; a de prazo Y rende 98%; o fundo XYZ está rendendo mais de 100% e assim por diante, sempre indexada, até mesmo operações em renda variável como em ações são avaliadas tomando como base a taxa do CDI. Então é de se questionar: o que muda o desejo de poupar ou consumir em uma taxa de juros indexada?

Outro ponto fundamental a se discutir é o fato que, desde a crise a marcação dos títulos a mercado de 2002 – onde se gerou desconfiança quanto à credibilidade dos títulos do governo – o volume financeiro das operações compromissadas, aquelas que não carregam os títulos em compras definitivas, aumentaram continuamente até atingir hoje um terço de toda a dívida pública, mais de R$ 500 bilhões.

Os títulos públicos que são instrumentos clássicos de política monetária deixaram de ter função ativa na preferência por poupar ou consumir. O mercado secundário desses títulos se resume ao Tesouro Direto e o alongamento da dívida está sempre comprometido.

Diante desses fatos concretos, que diferença faz para a economia, além do aumento das despesas com o pagamento de juros, o tamanho da taxa de juros? Se a taxa estivesse em 5% ou 15% sua funcionalidade seria a mesma. Quase nula.

Os juros são muito altos, nível de país em default, próximo ao juro da Grécia, porque a política monetária é claramente passiva. A Bolsa de Valores é o maior exemplo da ineficiência da taxa básica de juros: se ela tivesse influência marcante como acham que tem, o Ibovespa estaria hoje próximo dos 5.000 pontos, já que a taxa de juros por aqui a muito tempo vive nas alturas.

O fato é que caímos numa armadilha onde a imensa maioria foi e é levada a acreditar que o Brasil tem de fato uma política monetária ativa onde a mudança no patamar de juro básico tem influência decisiva nos desejos do consumidor.

A taxa de juros que influencia mesmo a decisão de consumir ou poupar está no crédito bancário com taxas pornográficas. Quando a básica está em queda, cai em marcha lenta; quando sobe, sobe que nem um foguete.

Enquanto o Brasil não discutir esse modelo de política monetária em um debate aberto e sério, vamos continuar sendo tragados por este além-surrealismo onde até mesmo partidos políticos antagônicos chegam a defender o que nos últimos tempos foi à parte de governo mais ineficaz.

Vivemos no pior dos cenários, o do pensamento comum, da política de acompanhar o consenso, de um totalitarismo econômico que não pode ser questionado, mesmo que não seja eficiente.

Surrealismo significa “além do realismo”, e não “o contrário de realismo”, não tem nada a ver com uma realidade ao contrário.

“As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”, Friedrich Nietzsche.

Há 37 anos no mercado financeiro, Waldir Kiel Junior é economista e escreve mensalmente na InfoMoney.
waldir.kiel@infomoney.com.br

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