Colunista InfoMoney: Análise de eventos extremos em commodities

O mercado financeiro não está livre de eventos que fogem do seu domínio e, por conseguinte, da capacidade da sua antecipação
O mercado financeiro, assim como os demais mercados, não está livre de certos eventos que fogem do seu domínio e, por conseguinte, da capacidade da sua antecipação. São denominados Eventos Extremos aqueles que possuem pequena probabilidade de ocorrência, porém com forte capacidade de desajustar o ambiente ou conjunto em que estão inseridos. Não são casos isolados, possuem dinâmica própria e sua força de contágio vai além das perdas calculadas pelas distribuições das mesas de riscos.

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Alguns livros procuram demonstrar e dissecar a ocorrência destes eventos, entretanto, a precificação das perdas na maioria das carteiras dos ativos estão sob o pilar da distribuição normal, ou gaussiana, que utiliza geralmente um intervalo de confiança de retorno de 95% para uma probabilidade de perda de 5%. Esta metodologia é usualmente utilizada para calcular o VaR1 ( Value-at-Risk) que, de acordo com a sua definição, sintetiza a maior (ou pior) perda esperada dentro de determinado período de tempo e intervalo de confiança (Jorion, pg 19).

Porém as probabilidades de perdas nestes modelos tendem a ignorar a possibilidade de ocorrência de eventos extremos. Pode-se afirmar hoje que o uso desta metodologia não foi capaz de antecipar as perdas com a desvalorização cambial ocorrida no segundo semestre de 2008 e que levou muitas empresas que operavam no mercado cambial a reportarem enormes prejuízos.

“A tendência é o aumento dos estoques dos grãos”

A avaliação dos eventos extremos para o mercado de commodities possui variáveis que estão sujeitas a determinantes não mensuráveis à princípio, mas a fatores espontâneos de gênese não financeira como terremotos, guerras, pandemias etc. Desta forma, a Teoria dos Valores Extremos2 se configura como um ramo da estatística probabilística que estuda o comportamento estocástico (aleatório) de extremos associados a um conjunto de vetores aleatórios com distribuição F. Esta abordagem teórica implica diretamente na análise das crises, cujo comportamento dos extremos sempre está alocado nas caudas das distribuições, principalmente nos números máximos.

Um exemplo simplificador da análise dos eventos extremos no campo das commodities refere-se à gripe aviária e, mais recentemente, à gripe suína. De fato, a causa geradora não estava no ambiente financeiro, mas sim no ambiente natural da produção. O contágio para os demais mercados foi imediato: como a commodity suína tem forte peso na cesta de consumo norte-americana, a queda em sua procura influenciará nos preços das commodities soja e milho.

Com menos consumo dos grãos a tendência é aumentar os estoques ou alocar para outros mercados como o do frango ou bovino, através das rações. Porém as indústrias frigoríficas apresentam restrição operacional, ou seja, não possuem capacidade de produção para esta alocação do consumo no curto prazo. Portanto, a tendência é o aumento dos estoques dos grãos e aumento dos preços das carnes de frango e bovina.

O cenário se torna mais pessimista quando visualizamos a baixa oferta do plantel bovino e o histórico recente da gripe aviária. Em relação ao mercado interno, a tendência, no caso de não confirmação de contágio dos criadouros nacionais, é de se beneficiar dos mercados que bloquearam a importação de países onde casos da doença já estão confirmados.
Em relação aos grãos no mercado brasileiro, a influência de um evento desta ordem se mostra efetiva na cotação da commodity soja, que acompanha o mercado internacional, na qual é responsável por uma parcela importante do complexo do agronegócio e das exportações agrícolas, desta forma uma queda acentuada no preço e nas vendas afeta além do campo, o saldo comercial da balança de pagamentos.
Este é apenas um exemplo simplificador das consequências de um evento extremo relacionado ao mercado das commodities. De acordo com um relatório divulgado pelo Banco Mundial em 2008 uma pandemia considerada moderada poderia provocar uma queda de até 2,0% no PIB mundial, já uma situação grave a queda poderia ser da ordem de até 5,0%.

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Desta forma, as considerações acerca da análise dos valores extremos é factual e consistente. Os métodos atuais para cálculos de risco de mercado através da distribuição normal impõem certos limites na análise e superficia a verdadeira capacidade de ocorrência destes eventos.

1Jorion, Philippe. Value at Risk – The New Benchmark for Managing Financial Risk. 3rd Edition, McGraw-Hill, 2007.

2Mendes, Beatriz V. De Melo. Introdução à Análise de Eventos Extremos. Rio de Janeiro, Editora E-papers, 2004.

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Ricardo André Jacomassi é responsável por análises setoriais das commodities agrícolas na LAFIS Consultoria Econômica e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
ricardo.jacomassi@infomoney.com.br