Colunista InfoMoney: Ainda falta muito

A recuperação não será tão rápida, apesar da vontade de todos e principalmente do mercado financeiro - que foi quem mais sofreu e ainda sofrerá
Em meados de maio sai de férias. Fui visitar alguns amigos no velho continente. Não pretendia usar da minha óptica de economista, mesmo porque estava de férias, mas é inevitável. Chamou-me atenção o fato de que: não havia tristeza no ar, as ruas estavam cheias, as atrações turísticas lotadas – certamente com um alto viés na minha amostra.

Parecia que estava tudo na mais perfeita ordem. Mas o que me espantou foi o meu retorno, em meados de junho. Pois as cotações das commodities tinham voltado a subir (de metálicas a agrícolas) e o Real voltou para sua tendência de apreciação.

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Após o retorno procurei observar: as cotações, os indicadores, as notícias e tudo mais. Esses números mostravam uma recuperação, em alguns casos, desde abril. Pelo lado do mercado financeiro parecia que a crise já estava com os seus dias contados.

“Esse tom de alta volatilidade provavelmente será o enredo nos próximos meses”

E realmente alguns indicadores econômicos ao redor do globo mostraram diminuição no nível de queda. Mas, como sempre, a força de reação do mercado financeiro ao que parecia ser a identificação do “fundo do poço” foi mais do que proporcional.

O petróleo é sempre um bom exemplo para ilustrar essa reação, pelo seguinte fato: o preço deste ativo reflete de forma quase instantânea, a grosso modo, tanto o lado real como o lado financeiro da economia. Pela via real, por se tratar, principalmente, de energia ou de matéria-prima para uma infinidade de coisas – como a sua escova de dente, por exemplo.

Do lado financeiro por conta da alta liquidez destes contratos negociados nas principais bolsas mundiais e, mais recentemente, por conta das operações financeiras que utilizam esses contratos e seus derivativos. Obviamente que a visão de como vai o lado real (a demanda e a oferta) do petróleo tem um papel primordial na evolução do preço. Mas a cotação mostra também como os investidores leem e, sobretudo, criam expectativas em cima dos fatos presentes e avaliações a cerca do futuro.

Em meados de maio, o barril de petróleo (Wolrd Texas Intermidiate) estava cotado próximo a US$ 55 o barril – a cotação gravitava ao redor de US$ 50 o barril desde março. Em meados de junho a cotação já estava próxima de US$ 70 o barril – alta de 28%! A situação econômica de pano de fundo ainda era muito frouxa para sustentar tal elevação no preço do petróleo – basicamente estava em uma cotação próxima ao que observamos em 2007, ano que a economia mundial estava em situação esplendorosa, a despeito de ter identificado o problema do mercado imobiliário norte-americano no segundo semestre.

Sem dúvida no meio do primeiro trimestre deste ano a economia começou a identificar o fundo do poço desta crise que todos nós passamos, gerando um incipiente aumento na liquidez mundial. Mas a recuperação não será tão rápida, apesar da vontade de todos e principalmente do mercado financeiro – que foi quem mais sofreu e ainda sofrerá. Na semana passada a divulgação dos indicadores do mercado de trabalho norte-americano apontam o quão frágil ainda está a situação da economia – entre estes aumentou o número de corte de postos de trabalho. Dessa forma a recuperação tende a ser mais lenta do que muitos anteviam.

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Não obstante, a cotação do petróleo voltou a cair nos últimos dias – ontem fechou a US$ 64,05 o barril. Esse tom de alta volatilidade nos mercados provavelmente será o enredo nos próximos meses. É importante notar que o recuo nos preços dos ativos por conta da crise deve ter sido exagerado, o que demanda uma dose de correção, que por sua vez não pode, logicamente, ser superior aos níveis pré-crise. Pois, a julgar pelos dados a recuperação da economia mundial será lenta.

Raphael Castro é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
raphael.castro@infomoney.com.br