Colunista InfoMoney: A (real)idade do Real

O dólar se valorizou frente a quase todas as moedas do mundo, em particular, contra o real, que perdeu em torno de 50%. Por que isso ocorreu?
A valorização do real foi extraordinária entre julho de 2003 e julho de 2008 (em torno de 50%). No mesmo período, o CRB (índice que agrega uma série de cotações de diferentes tipos de commodities) subiu 100% (gráfico abaixo – note que o real se valoriza quando o gráfico segue a trajetória descendente).

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Coincidência? Com certeza não, em se tratando de um país como Brasil, exportador de commodities, com as principais empresas listadas na bolsa relacionadas aos produtos primários.

Com o aprofundamento da crise, o dólar se valorizou frente a quase todas as moedas do mundo, em particular, contra o real, que perdeu em torno de 50%. Por que isso ocorreu? Fuga de capitais, correção de overshooting? Acho que o gráfico acima dá uma dica: o CRB perdeu, desde seu máximo, em junho de 2008, em torno de 50%.

Como eu disse acima, o Brasil é um país cujas exportações são compostas por 60% de commodities e derivados. Quando há um grande ajuste nas expectativas de crescimento mundial, temos como corolário uma menor demanda por commodities, ajustando fortemente os preços das mesmas.

“Podemos ver, em tempo real, nossa relação simbiótica com o resto do mundo”

Isso tem dois impactos sobre o Brasil: (i) a balança comecial brasileira é fortemente afetada via preço (não necessariamente via quantum – o que também deve ocorrer, devido ao menor crescimento dos outros países); (ii) empresas brasileiras relacionadas a commodities (Petrobras e Vale são as duas expoentes) sofrem bastante perda de valor na bolsa, gerando, como consequência, menor fluxo financeiro para nosso mercado de capitais.

Assim, na iminência da crise e da queda de crescimento mundial, as commoditites sofrem um forte reajuste, afetando o balanço de pagamentos brasileiro e os termos de troca (preços dos importados x preços dos exportados). Entram menos dólares para a mesma quantidade de reais. Fica simples, dessa forma, entender porque nossa moeda, a cada dia, perde cada vez mais valor.

Neste momento, não tem relação com política específica do BC ou com escassez das linhas internacionais de crédito. Diferentemente do que o governo tenta pregar, não vivemos em uma ilha de prosperidade. Podemos ver, em tempo real, nossa relação simbiótica com o resto do mundo, e esta está intimamente relacionada à depreciação crescente dos preços das commodities.

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Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br