Colunista InfoMoney: A queda da taxa de juros é permanente ou transitória?

Muito provavelmente no dia 10 de junho, o juro Selic irá alcançar nível abaixo de 10%, menor patamar desde o plano real

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A grande dúvida que permeia o mercado de juros no Brasil hoje em dia diz respeito à trajetória da taxa neutra de juros reais. A queda do juro nominal Selic para o patamar de um dígito suscita várias dúvidas, tanto no mercado quanto nos economista, sobre a viabilidade de mantê-la em nível mais baixo.

Como foi dito pelo célebre ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, na ocasião do aniversário de dez anos do sistema de metas de inflação, foi necessário um compromisso de dez anos da sociedade brasileira com um patamar de inflação mais baixo para que a taxa de juros básica da economia pudesse ensaiar mudanças para patamares abaixo de um dígito. Muito provavelmente na reunião do dia 10 de junho, o juro Selic irá alcançar nível abaixo de 10%, menor patamar desde a criação do plano real.

A dúvida não fica com relação aos próximos passos da autoridade monetária, mas, sim, com relação ao nível no qual essa taxa deve permanecer no futuro. O juro neutro é definido como o juro que zera o hiato do produto, ou seja, é o nível de juros que faz com que a trajetória de crescimento do produto seja igual à trajetória de crescimento potencial. Portanto, a fim de definir a taxa neutra, devemos saber qual a trajetória potencial de crescimento e qual a potência de transmissão da política monetária.

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“O Brasil deverá ser um dos que mais se beneficiarão no posterior à crise”

Dado que o crescimento potencial da economia e a transmissão da política monetária à trajetória de crescimento são voláteis, o mesmo pode se supor sobre a taxa neutra. Portanto, estimativas anteriores que apontavam 7% como a taxa neutra são sujeitas a revisões a partir do momento em que pensamos que os determinantes do crescimento potencial ou da transmissão da política monetária se alteraram.

A pergunta relevante se torna a seguinte: Há razão para supormos que esses pontos se alteraram? Minha resposta é sim e podemos discutir ponto a ponto os determinantes. Meu ponto aqui reside muito mais sobre a transmissão da política monetária do que sobre a mudança de crescimento potencial. Pelo contrário, se há alguma coisa que irá se alterar na estrutura de crescimento mundial no pós-crise é uma eventual redução do potencial de crescimento das economias.

Algumas medidas protecionistas e a maior ingerência do Estado na economia são os principais fatores que me levam a crer em menor crescimento potencial do mundo. Apesar disso, e pelo fato do Governo estar tentando usar os bancos públicos para expandir o crédito de uma forma não saudável (dando crédito a indivíduos e corporações não eficientes), o crescimento potencial brasileiro deve ter se reduzido.

De outro lado, a evolução das variáveis macroeconômicas brasileiras na crise se mostrou muito mais saudável do que em outros períodos de crise, o que leva a crer que a percepção de risco sobre a economia brasileira diminuiu, elevando assim a poupança externa direcionada à economia brasileira, o que tende a reduzir a taxa neutra por conta da igualdade com a rentabilidade marginal do capital.

Meu principal ponto reside na transmissão da política monetária. Com toda a desalavancagem que está acontecendo na economia mundial, o repasse de possíveis altas e quedas de juros para a atividade diminui de intensidade. Com isso, a fim de obter um mesmo patamar de crescimento anterior, teremos que levar o juro mais para baixo, ou seja, a sensibilidade do hiato do produto ao juro diminuiu e assim poderemos trabalhar com juro real mais baixo para alcançar determinado nível de produto condizente com o potencial.

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Essa crise que estamos a viver no momento deixará várias heranças. O Brasil deverá ser um dos países que mais se beneficiarão no posterior à crise. A percepção de risco sobre o país diminuiu e a nossa taxa de juros real será mais baixa. Há o risco de um novo processo de alavancagem da economia a partir do crédito imobiliário e toda demanda restrita que esse setor possui. Se o plano do Governo der certo, infelizmente teremos que voltar a conviver com taxa de juros de dois dígitos.

Tomás Goulart é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
tomas.goulart@infomoney.com.br