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E, hoje, a grande maioria do mercado espera uma trajetória em V. Ou seja, a economia colapsou nos últimos seis meses, mas voltará rapidamente “ao normal”. Isso explica o rebote da bolsa para um patamar superior a 50.000 pontos no Brasil e 900 pontos nos EUA, medido pelo S&P 500.
A recuperação em V não acontecerá por vários motivos. Porém vamos nos focar no mais importante: o consumidor norte-americano.
Historicamente, o consumo compõe, em média, 66% do PIB norte-americano. Com aumento de produtividade, desenvolvimento de instrumentos financeiros e taxas de juros muito atrativas, o consumo norte-americano alcançou o patamar recorde de 72% em 2008. Essa foi uma das causas da crise financeira e precisa ser ajustada. O nível de consumo precisa convergir para sua média histórica e o balance sheet das famílias nos responde por quê.
| “Podemos esperar um longo período de consumo mais apertado” |
Pelo lado dos ativos, tivemos uma ampla destruição de riqueza nos últimos trimestres. Aproximadamente US$ 13 trilhões foram perdidos pelas famílias ao longo da crise, como resultado da deterioração imobiliária, queda de bolsas e outras desvalorizações de ativos diversos. Pelo lado do passivo, o que temos é um extraordinário endividamento das famílias, acumulando mais de 100% do PIB em dívidas.
Portanto, as famílias precisam se desalavancar, além de recuperar toda a riqueza perdida com a crise. Como se faz isso? Poupando uma fatia superior de sua renda. Não há como escapar. Por definição, poupança é igual a renda menos consumo. Isso significa que as famílias precisam consumir menos. E como a renda está caindo, temos um quadro ainda mais grave.
De novo, estamos falando que 72% do PIB norte-americano tem de ajustar seu ímpeto cultural. A ordem econômica dos últimos dez anos não deve se repetir, pois observamos suas consequências nos últimos meses. Não é sustentável um sistema em que o consumidor, crescentemente, gaste mais do que sua renda mensal (via mercado de crédito) e acelere os preços dos ativos indefinidamente.
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Assim, podemos esperar um longo período de consumo mais apertado. Considerando o aumento do desemprego e as restrições do mercado de crédito, não teremos mais os pilares da renda e do consumo suavizando o movimento ao longo do tempo. Teremos alguns anos de ajuste forte. Muitos analistas estimam que a taxa de poupança tem de alcançar o patamar de 10-11% da renda disponível.
Essa já chegou a 0% há alguns meses e hoje está em 4,5%. Stephen Roach, do Morgan Stanley, estima que o consumo, que cresceu, em média, 4% entre 1995 e 2007, terá um crescimento médio de 1,5% nos próximos cinco anos. Isso terá grandes consequências para os EUA e para os outros países do mundo, que esperam a economia norte-americana acordar do período de hibernação para reacender a máquina produtiva.
Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br