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A partir da década de 1990, intensificou-se a reestruturação da “indústria da vida”, tendo em vista que elas perceberam que é possível criar valor através de espécies animais e vegetais diferenciados geneticamente. O controle e a divisão do valor resultante dessa revolução tecnológica são questões complexas e provavelmente se consolidarão de acordo com o poder de barganha ou capacidade de assumir riscos de cada participante da cadeia produtiva dos alimentos.
Os avanços da genética, biologia molecular, bioquímica e microbiologia disponibilizaram ferramentas permitindo a inovação tecnológica. Concomitante aos avanços da engenharia genética, as grandes firmas de defensivos agrícolas movimentaram-se em um impressionante processo de F&A. Entretanto, os impactos da engenharia genética vão além da indústria de defensivos, englobando-se os setores relacionados com medicamentos, alimentos e aditivos alimentares. Consequentemente, esse processo de reestruturação, acaba ocorrendo também no setor químico/farmacêutico.
| “A ‘indústria da vida’ terá importância crescente no cotidiano das sociedades” |
É o setor industrial que alcançou o mais elevado grau de transdisciplinaridade, recebendo influência não somente das áreas de conhecimento (química, física, biologia, fisiologia, bioética, informática, entre outras) como serve de base para explicar desde fenômenos moleculares do universo celular até a macro-evolução das espécies, e isso a torna motivo de grandes questionamentos éticos.
Mas, com a introdução da biotecnologia moderna na esfera industrial, passou a ser considerada como um fator para obtenção de lucros. Seres vivos transformaram-se em riqueza econômica potencial. Patentear formas de vida passa a fazer parte do processo de expansão do capital. Na década de 1970, era possível compreender o dinamismo econômico imposto por essas firmas através do conceito de agrobusiness. Já na década de 1980, construiu-se o entendimento que esse segmento poderia ser caracterizado enquanto “indústria de suprimentos genéticos”. Agora na década 2000, o conceito de “indústria da vida” é o que melhor retrata as novas características desse segmento industrial.
Portanto, a dinâmica de F&A na “indústria da vida” resultou na concentração da produção e do mercado internacional de fármacos, sementes e defensivos agrícolas. A despeito da inferência que a ‘Indústria da Vida’ se reestruturara de modo a concentrar agricultura, saúde e biotecnologia – afinal a base comum a esses setores é o uso privado do gene -, ao final da década de 1990 observou-se uma tendência de especialização das firmas em duas vertentes: i) a agrícola e ii) a saúde, com predominância dos valores movimentados na vertente da saúde.
Citam-se como exemplos dessa especialização os casos da Aventis e da AstraZeneca, duas firmas que atuavam nos setores de fármacos e de defensivos agrícolas na década de 1990 se dedicando apenas ao setor de fármacos na década de 2000. A Monsanto que teve oportunidade de ingressar no setor de fármacos pela associação com a Pharmacia na década de 1990 e optou pela especialização no setor agrícola na década de 2000 e a Bayer, que continua atuando em ambos setores, porém, criou uma divisão independente, a Bayer CropScience, para o setor agrícola.
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Assim, pode-se concluir que a “indústria da vida” estará presente e terá importância crescente no cotidiano das sociedades, permeando todas as classes, pois, a instabilidade intrínseca a essa nova dimensão estrutural do capitalismo tem como uma de suas causas principais a forte desregulamentação dos mercados em favor da mobilidade e flexibilidade do capital das grandes firmas, dado que a concorrência intercapitalista resultou na redefinição do território econômico relevante do mundo dos negócios.
As decisões globais de alocação da poupança financeira mundial são orientadas pela moeda, crédito e pelo patrimônio – sobretudo mobiliário – em busca da maior rentabilidade financeira e, apesar da crescente instabilidade, é inquestionável que essa dinâmica confere ao capitalismo, característica marcante neste setor industrial.
Colaborou Pedro Abel Vieira Junior, pesquisador do Embrapa, doutor em fitotecnia (Esalq/USP) e doutorando em economia pela Unicamp.
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Adriana Vieira é mestre em Direito, doutoranda em economia pela Unicamp e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
adriana.vieira@infomoney.com.br