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Outro fator, não menos importante, mas que havia sido anunciado antes da reunião do G-20 foi o desenho do pacote de compra de títulos podres (ligados ao mercado imobiliário) no mercado financeiro norte-americano por parte do governo daquele país. Ademais, alguns indicadores econômicos ao redor do mundo estão apresentando desaceleração, embora incipiente, do movimento de queda que vem apresentando desde o último trimestre de 2008. Seria o fim da crise?
Bom, para muitos analistas, jornalistas e representantes de governos parece que sim – especialmente boa parte da mídia global, sempre carregando nas tintas. Todavia os sinais ainda são fracos e embora o anúncio de um pacote do G-20 (que traz até uma ideia de coordenação global) seja positivo, é só, por enquanto, um anúncio – ou seja, as coisas, ou boa parte delas, ainda estão no campo das expectativas frágeis.
| “O que me intriga é um horizonte um pouco mais distante” |
Como parte dos indicadores econômicos (os termômetros usados pelos economistas e analistas) está em trajetória de queda, o que se observa atualmente não é a variação desses indicadores – que na maioria dos casos está em território negativo há um bom tempo. Observa-se é a evolução da aceleração/desaceleração dessas variações. Entende-se por aceleração o aumento no ritmo da variação (esta, por sua vez, mede o ritmo de crescimento do indicador) – é um paralelo bem próximo ao que se usa na Física e na Matemática.
Por meio da aceleração busca-se antecipar movimentos nas variações (e estas, por sua vez, buscam antecipar movimentos de alta ou queda nos indicadores). A mesma análise é feita para desaceleração (diminuição no ritmo da variação, que pode ser positiva ou negativa). Notam-se em alguns indicadores ao redor do globo os primeiros sinais de desaceleração dos sucessivos movimentos de queda.
Contudo, ainda são os primeiros sinais. Alguns mercados realmente apresentam boa sinalização e até mesmo recuperação. Mas no geral ainda deveremos observar resultados ruins e o risco que isto se aprofunde (embora tenha diminuído) não é desprezível. Como já alertei em outra oportunidade, não é o fim do mundo e os indicadores em algum momento parariam de cair tanto – isso é notório. Entretanto, indicadores realmente importantes, que sinalizam uma boa condição para economia global, ainda estão muito ruins e as desacelerações são muito incipientes.
As vendas no varejo norte-americano (boa mediação para como anda o consumo de um país, que neste caso representa aproximadamente ¾ do PIB) apresentaram recuo de 1,1% em março. As exportações da China (que dá uma ideia de como está evoluindo o comércio mundial) apresentaram queda de 17% em março (em relação a março do ano anterior). Em fevereiro o recuo foi de 25% e em janeiro de 17,5%. Sem dúvida é uma desaceleração do movimento de queda. Mas é apenas uma, isto é, não configura uma tendência. São cindo meses de variação negativa deste indicador.
Mas tudo não é pessimismo. O que pode ser feito em termos de política monetária tem sido feito. Pacotes e mais pacotes em diversas regiões do globo estão sendo colocados em prática (política fiscal). A questão é o cuidado com a euforia. A despeito de todos esses pontos positivos, o cenário ainda é retração para boa parte das economias globais em 2009.
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Recuperação só em 2010 e lentamente. Instituições econômicas importantes apontam nessa direção ao considerar todas as ações (adotadas ou anunciadas) – e o melhor que pode ser feito em termos de expectativa. O que me intriga é um horizonte um pouco mais distante (2011 para frente): o que teremos de herança dessa crise.
Raphael Castro é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
raphael.castro@infomoney.com.br