Colunista InfoMoney: A Commodity do ano de 2009

Enquanto todos bens primários naufragavam, açúcar manteve alta e quebrou recordes neste ano; forte demanda da Índia explica tendência ascendente
O ano de 2009 será marcado pelo retrocesso dos preços dos principais ativos financeiros. A bolha de preço formada ao longo do ano de 2007 e finalizada no terceiro trimestre de 2008 favoreceu para uma abordagem mais fundamentalista dos fatores que compõe a estrutura das cotações nos diferentes mercados financeiros.

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Não longe do cenário adverso de 2009, os ativos agrícolas negociados nos principais mercados futuros sofreram com a retração econômica mundial. No mercado doméstico, as operações de crédito público e privado seguiram paralizadas causando redução nas compras de insumos agrícolas e somente foram desobstruídas com o PAP 2009/10 lançado pelo Governo Federal no final de junho, enquanto as operações de financiamento via compra antecipada da produção pelas tradings reduziram pela metade se comparado ao ano anterior. No mercado internacional, a quebra da safra de grãos da Argentina causou redução na oferta mundial o que contribuiu para a alocação do plantio de soja e milho nos EUA, maior produtor mundial de grãos.

Em meio a este cenário pessimista uma commodity manteve uma posição de destaque e seguiu os meses de 2009 mantendo suas cotações a níveis recordes. O açúcar, cujo Brasil é o principal produtor mundial, apresentou alta em todos os contratos futuros desde o último trimestre de 2008, período em que as demais commodities apresentaram queda de preço em torno de 40%. Com uma alta de 82% na cotação entre janeiro e agosto de 2009, nem todos os participantes do mercado conseguiram beneficiar-se desta pressão altista das cotações.

“O açúcar manteve seu destaque e seguiu 2009 com cotações recordes”

Entretanto, para entendermos a razão do aumento corrente do preço da commodity se faz necessário entender o desajuste ocorrido na oferta e na demanda mundial neste período. A escassez de crédito impactou diretamente no fluxo de caixa das indústrias brasileiras, com isso muitas empresas anteciparam o corte (pré maturo) da cana para o esmagamento, cujo o objetivo foi conseguir capital de giro para manter suas operações. O resultado foi uma queda da produtividade. Além disso, a necessidade de capital e o alto endividamento de alguns players do setor promoveu um forte processo de fusões e aquisições entre as indústrias.

Entretanto, o fator determinante e atemporal veio do ambiente externo, principalmente da Índia. Considerado o segundo maior produtor mundial de açúcar, a Índia passou da condição de exportador a importador mundial. A produção indiana de aproximadamente 19 milhões de toneladas não está sendo capaz de atender a demanda do seu mercado interno, atualmente de 22 milhões de toneladas. A importação de mais de 3 milhões de toneladas está pressionando os estoques mundiais, estimulando assim as especulações sobre os preços. A redução da produção da Índia é reflexo dos eventos climáticos que atingiram as principais regiões produtoras em 2008 e voltaram a ocorrer em 2009.

De forma geral, as cotações estão sendo influenciadas pelas estimativas da produção internacional. Com um volume mundial da produção previsto em 155 milhões de toneladas espera-se um déficit recorde dos estoques mundiais, pois o consumo global estimado é de 160 milhões de toneladas. Neste sentido, espera-se novas altas na cotações nos próximos meses, configurando o açúcar como um dos raros ativos dos mercados financeiros que suportaram os efeitos da crise internacional.

Com isso, deverá ocorrer um processo intenso de fusões e aquisições entre as indústrias domésticas. Espera-se também novos investimentos em plantas green fields e expansão das já existentes. Mesmo com a provável recuperação no médio e longo prazo da produção da Índia, os contratos dos derivados da cana-de-açúcar possuem todas as condições de retornos acima da média em relação as demais commodities agrícolas.

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Ricardo André Jacomassi é responsável por análises setoriais das commodities agrícolas na LAFIS Consultoria Econômica e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
ricardo.jacomassi@infomoney.com.br