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Ainda pouco praticado no Brasil, apenas 21,3% de 85 empresas respondentes, entre a amostra de 300 de controle nacional, com faturamento acima de R$ 200 milhões, possuem algum tipo de mecanismo formal e periódico de avaliação de conselho. Dados estes obtidos neste ano em pesquisa sobre o Panorama da Governança Corporativa pelo Instituto em parceria com a Booz & Company. Realidade bem distinta da verificada nos EUA, Canadá e Europa, em que 91% das empresas da América do Norte e 84% das estabelecidas no Reino Unido adotam algum tipo de avaliação, segundo pesquisa da Korn/Ferry de 2008, publicada na revista Exame, em junho deste ano.
A diferença percebe-se também na abordagem do tema. No Congresso Anual da National Association of Corporate Directors (NACD), realizado na semana passada, observou-se que o debate a cerca da avaliação de conselhos está centrado na necessidade de divulgação do resultado desse processo. Enquanto no Brasil enfrentamos ainda a dificuldade na aceitação de se realizar a avaliação formal, muito devido à nossa cultura latina e ao sentimento de desconforto em avaliar e ser avaliado, no qual podem ser desvelados erros e possíveis omissões de seus integrantes; ao contrário da sinceridade cáustica dos anglo-saxões.
| “Um bom processo de avaliação pode prevenir as crises” |
E é justamente no aperfeiçoamento do processo de decisões no ambiente dos conselhos que a avaliação mostra seus benefícios. Dentre eles, destacam-se o auxílio aos próprios conselheiros sobre sua contribuição, interação com os seus pares, percepção de seus deveres de responsabilidade, lealdade e de fidúcia, além de obter visões mais precisas sobre potenciais melhorias e, principalmente, suprir os acionistas com informações relevantes sobre os acontecimentos internos no conselho e corroborar a decisão dos acionistas em votar ou não pela permanência desses profissionais.
Viva do lucro de grandes empresas
Sua prática representa uma quebra de paradigmas, na qual entram os dados mais objetivos e se enfraquece o foco excessivo nas afinidades pessoais, além de a avaliação ser um fator incomodador, porém vital à continuidade e ao aperfeiçoamento das organizações.
O processo se inicia com o comprometimento dos conselheiros de prestarem conta do mandato que lhes foi outorgado, devendo ser transparentes, dispostos a lidar com temas desconfortáveis e polêmicos e saber administrar conflitos de forma construtiva. É esperado de seus membros que tenham como qualidades na comunicação a franqueza, lisura e imparcialidade. E para ser efetiva, é preciso que seja liderada uma ação de entendimento muito clara e forte de que o conselho de administração deve adicionar valor à companhia.
A questão não deve ser mais analisar a necessidade de se adotar ou não processo de avaliação formal, mas sim qual o melhor método e como fazê-lo. Há no mercado três metodologias de avaliação mais utilizadas: a autoavaliação, a avaliação de 360º (avalia a todos e cada um é avaliado por todos) e a entrevista por profissional externo. As duas primeiras devem ser lideradas e discutidas com o presidente do conselho, ao passo que na terceira cabe ao especialista externo.
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Conforme prevê o Código do IBGC, a avaliação individual – particularmente nos aspectos de frequência, assiduidade e envolvimento/participação nas reuniões, até mesmo o nível de dispersão durante a reunião pela realização de atividades não relacionadas – é fundamental para a indicação à reeleição dos conselheiros. O Instituto recomenda ainda a realização anual da avaliação do desempenho do conselho e de cada um de seus membros, adaptando sua sistemática à situação da organização. É importante que a avaliação seja respaldada por processos formais, com escopo de atuação e qualificação bem-definidos, e cabe ao presidente do conselho a responsabilidade pela sua condução e aplicação. Também é indicado para a objetividade do processo, caso a empresa avalie como positiva, a participação de especialistas externos. Recomenda-se ainda que o processo e os resultados da avaliação sejam divulgados aos acionistas por meio de um item específico no relatório da administração.
Nota-se que a avaliação do conselho, integrada às melhores práticas, aprimora a percepção do investidor quanto à Governança do conselho de administração da organização; e os acionistas têm direito em conhecer os resultados do desempenho de seus conselheiros ao longo do ano para avaliar se o mesmo deve ou não ser reconduzido ao cargo. Acredito que um bom e sincero processo de avaliação pode prevenir as crises ou ao menos mitigar suas consequências, afinal conselheiros atentos aos seus desempenhos e interações são profissionais mais conscientes de suas responsabilidades.
Heloisa Bedicks é diretora executiva do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e escreve bimestralmente na InfoMoney.