Grécia

Colunista: A Grécia ficará

Foi convocada uma reunião de todos os líderes dospaíses da UE para o próximo domingo, que devem decidircomo tirar o bloco desse enorme problema. Segundo analistasdo mercado, socorrer a Grécia e manter as aparências é o maissensato a fazer

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Colunista convidado, Fernando Zilveti (professor livre-docente pela USP)

As casas de apostas de Londres estão indicando uma possível saída da Grécia da União Europeia. Aliás, aqui na Europa não se fala em outra coisa, tanto que já foi criada a palavra “Grexit”, figura de linguagem, como se os demais países da UE indicassem a porta de saída para um de seus integrantes, culpado por não seguir as regras de austeridade determinadas pelo bloco econômico. Foi convocada uma reunião de todos os líderes dos países da UE para o próximo domingo, data em que se espera uma solução para a crise.

Para entender o que a Grécia significa, alguns dados podem auxiliar. O país tem hoje a população equivalente à cidade de São Paulo e a metade do PIB do estado de São Paulo. A dívida pública ronda 180% do PIB. Arrecada algo em torno de 34% do Produto Interno Bruto de 235 bilhões de dólares. Com tal quadro, nem que os gregos se reinventassem e seguissem toda a cartilha da austeridade à risca, seriam incapazes de sair do atoleiro econômico em que se encontram. Os bancos estão controlando saques e o mercado de capitais sequer abriu suas portas nesta semana. O país está parado e isolado pela Europa e demais credores. O desabastecimento começou e o caos social está por um fio. Mas nem por isso jogam nem pensam em jogar a toalha.

Dizem que a “teoria dos jogos” tem sido importante ferramenta nas mãos dos líderes políticos da Grécia nessa negociação. Seja qual for a estratégia, está corroendo o autocontrole da primeira ministra alemã, maior crítica do comportamento grego até aqui. O fato é que negociadores de Atenas dizem sem dizer, prometem o tantas vezes prometido e, por último, revelam um “não programa de austeridade”.  Este programa é justamente aquele que até hoje não foi visto, nem sequer no papel. A razão parece simples: para que colocar no papel algo que não irá cumprir? O que está no ar é a famosa expressão brasileira: “devo, não nego, pago quando puder”. Acrescente-se que a Grécia pede e tudo indica que receberá, mais ajuda econômico-financeira. Caso viesse a receber, o presidente francês levaria a melhor na histórica disputa política franco-germânica.

A razão para apostar num novo resgate econômico para a Grécia é que o bloco não encontra outra saída para a crise que sua própria estrutura financeira criou. De fato, a UE criou uma moeda única sem controle unificado de finanças. Cada Estado-membro tem autonomia para determinar sua política fiscal, mesmo que seja contrária ao que aconselha o parlamento europeu e entidades supranacionais como o FMI. Não existe lei comunitária de responsabilidade fiscal. O que fazem alguns países é seguir diretrizes comunitárias de austeridade e impor um maior controle interno da dívida pública. A Grécia não está nesse grupo, mas não é a única integrante do bloco em pleno descontrole de contas públicas.

Assim, pouco a pouco descortina-se a fragilidade monetária da UE e os países membros, reunidos no próximo domingo, devem decidir como tirar o bloco desse enorme problema. Socorrer a Grécia e manter as aparências é o mais sensato a fazer. Alguém tem que ceder nessa negociação. A continuar a intransigência agora verborrágica da ministra Merkel e a irresponsabilidade fiscal juvenil do ministro Tsipras, a UE pode sofrer um desgoverno monetário capaz de levar o bloco inteiro para o abismo. Apostemos no bom senso.